A Morte do Demônio: Em Chamas

Crítica


7

Leitores


2 votos 8

Onde Assistir

Sinopse

Em A Morte do Demônio: Em Chamas, uma mulher devastada pela morte do marido se vê após o velório tendo que lidar com os sogros na casa isolada da família. O que deveria ser um período de luto, porém, se transforma em um pesadelo quando os que lá se reuniram começam a ser possuídos, mergulhando todos em uma espiral de carnificina e horror sobrenatural. Horror.

Crítica

É fato que a comédia romântica e o terror são os dois gêneros mais maltratados pelos cineastas e roteiristas ao redor do mundo. E isso por um motivo bastante simples: dado o alto nível de apelo que ambos possuem junto às mais diversas audiências, muitos dos realizadores simplesmente optam pelo não risco, ou seja, transitam por zonas seguras – e insistentemente revisitadas – para garantir apenas mais do mesmo, gerando uma legião de fãs satisfeitos, porém não surpreendidos, pois afinal recebem apenas aquilo que de antemão sabiam que lhes seria ofertado. É uma grata quebra de padrão a presença do francês Sébastien Vanicek no comando deste A Morte do Demônio: Em Chamas, pois ele não apenas ousa assumir suas escolhas, como também as radicaliza, apostando no excesso e no ultraje como forma de monopolizar os sentidos da audiência. Isso, por si só, seria suficiente para diferenciá-lo dentre tantos que vem lidando com missões similares. Mas ele vai além, e esta é a melhor das notícias.

20260710 a morte de demonio em chamas papo de cinema

A violência, assim como as histórias de amor açucaradas, é fácil de se desenvolver por meio de uma narrativa que se mantenha na superfície, com acesso garantido às interpretações iniciais. O intrincado do processo está em aprofundar tais contextos, dotando-os de leituras que vão além da percepção imediata. O esforço pode exigir, mas também recompensa. Eis o que alcança Vanicek e seu co-roteirista Florent Bernard. Os dois haviam trabalhado juntos na estreia do cineasta em longa-metragem, o tenso Infestação (2023), e renovam a parceria sob a aprovação de Sam Raimi, criador da trilogia original e que segue como produtor neste projeto recente. O veterano afirma que foi ao assistir a este longa anterior que teve certeza de ter encontrado alguém capaz de levar sua franquia adiante. E o escolhido assim faz respeitando a mitologia da saga, ao mesmo tempo em que explora novos contextos. Poderia ser apenas uma reunião motivada a partir de uma acidente trágico, mas resulta em uma sucessão de desgraças que somente aqueles com os estômagos mais fortes conseguirão chegar ao fim sem desviar os olhares em um ou outro momento.

Seria fácil encarar este sexto episódio da série A Morte do Demônio como um simples desastre familiar. Um irmão sai dirigindo sozinho após discutir com a esposa e acaba morrendo em um acidente. O outro, dias antes, descobriu escondido nas paredes da velha casa que herdou um livro – que não sabia ser amaldiçoado – que havia pertencido ao avô, um demonólogo que abandonara esposa e filhos para se dedicar à profissão. Um incidente estará, como ficará evidente em seguida, conectado ao outro. Pois os espíritos maléficos liberados com a leitura do tal volume serão responsáveis tanto pela morte do primogênito, como de todas as outras que virão a seguir. Ninguém estará a salvo. Os pais dos dois, que vieram para o enterro, e menos ainda a viúva ou a cunhada. Até a avó, vítima de Alzheimer, terá sua partilha na cota de sofrimentos que se abaterá sobre eles.

Mas este seria um caminho fácil demais. Um possuído após o outro, as mortes mais violentas – e gráficas – possíveis, dilacerações, decapitações, abusos e outros ultrajes serão enfileirados num crescente de sadismo e escatologia, como se o próximo não pudesse ser pior que o anterior – algo que, no entanto, acaba acontecendo. Um cachorro terá o crânio esmagado, o sogro acabará com a vida da nora com as próprias mãos, a idosa perderá as pernas, uma máquina de lavar louça repleta de talheres irá virar uma ferramenta de tortura. Se os responsáveis por essa retomada, quarenta e cinco anos após o lançamento de Uma Noite Alucinante: A Morte do Demônio (1981), se mostram decididos a abandonar tanto o veia terrir da proposta original, assim como o arremedo caricatural de A Morte do Demônio: A Ascensão (2023), é porque possuem em mãos algo válido a ser encarado. E o que se fala aqui é sobre relacionamentos tóxicos, a dificuldade de se libertar de certas dinâmicas maritais que são evidentemente prejudiciais e a necessidade de certos homens em abafar (apagar, eliminar, ocultar) suas esposas. Não que seja algo inédito. Afinal, tais sentimentos costumam passar de uma geração a outra.

20260710 a morte de demonio em chamas 2026 papo de cinema

Desde diálogos óbvios (“me defender do seu pai você não conseguiu, mas me agredir foi bastante fácil, não é mesmo?”) até temáticas que reforçam essa percepção (o comportamento autoritário e desrespeitoso do marido, suas justificativas que fazem sentido apenas a ele mesmo, a tentativa dos pais em validar as agressões do filho), estará nesse subtexto o diferencial que faz de A Morte do Demônio: Em Chamas um exercício tanto crítico, quanto válido de uma reflexão além da experiência catártica vivida durante o desenrolar dos seus eventos. Com uma só provocação, os responsáveis conseguiram renovar uma trama que parecia condenada a apenas se repetir rumo a uma vala comum, como também colocar no centro das atenções um discurso que, ao mesmo tempo em que não ocupa o foco da ação por meio de um ativismo óbvio e gratuito, também é reforçado o suficiente para não se apagar da memória dos que por aqui se aventurarem. Não que seja fácil percorrer tal travessia, mas eis um desafio que, enfim, se mostra à altura do que promete – e entrega.

As duas abas seguintes alteram o conteúdo abaixo.
avatar
é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
avatar

Últimos artigos deRobledo Milani (Ver Tudo)

Grade crítica

CríticoNota
Robledo Milani
7
Ailton Monteiro
7
MÉDIA
7

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *