A Batalha Esquecida
-
Matthijs van Heijningen Jr.
-
De Slag Om de Schelde
-
2020
-
Holanda / Lituânia / Bélgica
Crítica
Leitores
Onde Assistir
Sinopse
Um piloto britânico e um garoto holandês lutam uma guerra em lados contrários. Mesmo assim, ambos perseguem o ideal da liberdade. E isso fica claro na Batalha do Rio Escalda, momento histórico repleto de tensão e atos de bravura, como os da jovem que vai desafiar os alemães para salvar o seu irmão.
Crítica
A Segunda Guerra Mundial é uma fonte praticamente inesgotável de histórias. Além da quantidade enorme de episódios, há os incontáveis pontos de vista. Cada participante desse evento de proporções e consequências catastróficas teve uma perspectiva muito específica/única a respeito de coisas como batalhas, resistências, fugas, ataques, revanches ou mesmo das tentativas árduas de sobreviver ao largo dos tantos embates. A Batalha Esquecida é uma superprodução holandesa que apresenta alguns dramas convergentes na essencial Batalha do Rio Escalda. O confronto foi fruto das operações militares lideradas pelo exército canadense e garantiu segurança ao desembarque de suprimentos e contingente humano dos Aliados Ocidentais nos portos da Antuérpia. Os livros de História mencionam essa manobra como primordial ao que veio a ser a derrota dos países do Eixo liderados pela Alemanha nazista. Dentre tantas narrativas sobre a operação que levou milhares de pessoas à morte – dos dois lados da contenda e de civis/inocentes –, o cineasta Matthijs van Heijningen Jr. escolheu três personagens de trincheiras antagônicas. A primeira é Teun (Susan Radder), jovem local, filha de um médico que atende os feridos (independentemente da bandeira) e irmã do rapaz que acaba se tornando alvo prioritário dos nazistas após causar a morte de três soldados germânicos. Ela é a civil convocada a lutar.

O segundo é William (Jamie Flatters), membro da aeronáutica britânica. Mesmo a contragosto do pai (militar de altíssimo escalão), ele decide se juntar aos conterrâneos durante a campanha do Rio Escalda. É o soldado imbuído de bravura que fará de tudo para completar a missão. Por fim, o terceiro é Henk (Coen Bril), holandês lutando do lado nazista. Ele é apresentado já ferido numa cama de hospital, tendo diálogos desalentados com seu colega alemão que perdeu as duas pernas. Henk é a figura atravessada pelas encruzilhadas morais, uma vez que se coloca, inclusive, numa posição contrária a de muitos compatriotas que prefeririam resistir à dominação alemã. A Batalha Esquecida trabalha separadamente as situações que envolvem os três protagonistas. O filme não investe tanto num jogo de semelhanças insuspeitas que poderia tornar ainda mais densa a identificação entre essas pessoas. Em que pesem as diferenças, todos ali desejam ser felizes. Teun é vista em meio às reprimendas ao pai por atender inimigos (e o filme não se abre ao dilema do médico), bem como buscando garantias de que o irmão não caia nas mãos nazistas; William ensaia ser caracterizado pela impetuosidade que o faz afrontar o pai, mas se torna “útil” ao filme pela forma como demonstra tenacidade em circunstâncias adversas; já Henk talvez seja o mais “achatado” deles, pois suas crises não são aprofundadas.
A Batalha Esquecida tem algumas cenas/sequências bonitas – claro, dentro do que pode ser belo numa lógica aterradora como a da Segunda Guerra Mundial. A investida dos aviões e planadores britânicos sendo rechaçada pela artilharia antiaérea alemã é apresentada quase toda de dentro do avião de William. Isso convida o espectador a sentir um pouco da tensão de homens prestes a se esborracharem na água. O alinhamento das aeronaves e as conversas frugais antes da manobra são observados com um misto de serenidade e expectativa. Da mesma forma, algumas formações de soldados marchando contra o pôr-do-sol, tomadas aéreas de amplas zonas encharcadas, o trânsito pelas trincheiras apinhadas de homens umedecidos pelo suor e pela água da chuva, são vislumbres que garantem intensidade dramática e veracidade. Mesmo que não ultrapasse em vários instantes a natureza superficial da guerra – correr, atirar, sobreviver, se esconder, etc. –, o longa-metragem parece, ao menos, sempre voltado à constatação de que uma situação como aquela sequer deveria existir. Uma pena que Matthijs van Heijningen Jr. não enfatize determinados pormenores das jornadas humanas, com isso perdendo de vista boas possibilidades. Ainda assim, o resultado é positivo. E isso tem a ver com o esmerado desenho de produção e uma competência no geral para apresentar ações e reações.

É fácil de imaginar – até por conta das missões que cada um assume – que os três protagonistas de A Batalha Esquecida se encontrarão em algum momento do filme. Teun mora na cidade onde as coisas acontecem, William está se dirigindo para lá a fim de garantir o sucesso da empreitada dos Aliados Ocidentais e Henk é transferido à localidade depois de se recuperar dos graves ferimentos. E provavelmente essa fatídica cena do encontro seja a mais bonita e dolorosa do filme. Ela carrega uma noção implícita de que o horror os reuniu num instante bastante específico que nada tem de grandioso, épico ou redentor. Realmente é uma lástima que ao longo das trajetórias paralelas dos três, Matthijs van Heijningen Jr. não os enxergue com a complexidade que eles ensaiam ter. Teun poderia ser bem mais aproveitada dentro dessa ideia de alguém comum levada a tomar decisões e se tornar uma peça fundamental às resistências anti-nazista; William tem praticamente descartada qualquer importância atrelada à sua origem, de certa forma nobre, dentro da hierarquia do exército britânico (pouco importa ele ser filho do sujeito de alta patente); e Henk é muitas vezes restrito a emitir sinais físicos de um impasse moral que gradativamente toma conta de sua existência. Sem contar que é um pouco ingênua a forma como ele se dá conta dos horrores da guerra apenas de um ponto em diante – como se antes estivesse cegado. Se a ótima reconstituição de época e a boa dinâmica narrativa fossem acompanhadas de um mergulho na humanidade e nas subjetividades dos personagens, o longa holandês ganharia consistência.
Últimos artigos deMarcelo Müller (Ver Tudo)
- O Castigo - 11 de dezembro de 2025
- O Porão da Rua do Grito - 30 de outubro de 2025
- Malês - 2 de outubro de 2025

O desastre do Escalda. No outono de 1944, a euforia da vitória contaminava o alto comando aliado. Paris fora libertada em agosto. As forças alemãs recuavam através da França e Bélgica e muitos generais acreditavam que a guerra terminaria antes do Natal. O marechal de campo Bernard Montgomery, comandante do 1º grupo de exércitos britânico e um dos mais célebres generais aliados após sua vitória em El Alamein, propôs um plano audacioso para encerrar a guerra rapidamente: Operação Market Garden. O conceito era revolucionário, e arriscado — Lançar paraquedistas para capturar pontes através dos rios holandeses, criar um corredor até o Reno e avançar diretamente ao coração industrial alemão. Montgomery convenceu o comandante supremo Dwight Eisenhower a concentrar recursos logísticos massivos nesta operação, incluindo transporte, combustível, munição e suporte aéreo. Entretanto, esta obsessão com Market Garden criou um problema crítico que Montgomery negligenciou deliberadamente. A cidade portuária belga de Antuérpia fora capturada praticamente intacta em setembro de 1944, com suas instalações capazes de processar dezenas de milhares de toneladas de suprimentos diariamente. Porém, Antuérpia localizava-se 80 km distante do Mar do Norte, conectada pelo estuário do Escalda, um canal sinuoso de 60 km que os alemães ainda controlavam completamente. Enquanto forças alemãs ocupassem as margens do Escalda, nenhum navio aliado poderia alcançar Antuérpia. O porto magnífico permanecia inútil como decoração elaborada. Montgomery considerou esta questão secundária, assumindo que tropas alemãs no Escalda estavam desmoralizadas e seriam facilmente desalojadas. atribuiu ao primeiro exército canadense, comandado pelo general Harry Crerar, a tarefa de limpar o estuário, mas destinou recursos mínimos para esta operação. A realidade militar no Escalda era drasticamente diferente das suposições otimistas de Montgomery. O 15º exército alemão, com aproximadamente 80.000, soldados havia se entrincheirado ao longo das margens do estuário. Eram veteranos experientes comandados pelo general Gustav von Zangen — não recrutas desmoralizados. Haviam transformado a região em fortaleza formidável: construíram bunkers de concreto armado, instalaram campos minados extensivos, posicionaram artilharia pesada em pontos estratégicos e, crucialmente inundaram deliberadamente vastas áreas, abrindo os diques. A paisagem holandesa naturalmente plana, grande parte abaixo do nível do mar, transformou-se em labirinto aquático de lama, canais e áreas inundadas onde veículos blindados afundavam imediatamente e infantaria avançava penosamente através de água gelada até a cintura. Os registros logísticos revelam a extensão da negligência de Montgomery. 80% da capacidade de transporte aliado estava alocada para Market Garden, deixando os canadenses com munição limitada, veículos anfíbios insuficientes e suporte aéreo praticamente inexistente. Em 2 de outubro de 1944, o primeiro exército canadense iniciou a ofensiva. O que se seguiu não foi batalha no sentido convencional, e sim massacre prolongado. Soldados canadenses, britânicos e poloneses atacavam posições fortificadas alemãs através de terreno completamente exposto, vadear água congelante sob fogo constante de metralhadoras e artilharia. Tanques Sherman afundavam na lama líquida, tornando-se alvos estacionários para canhões antitanques alemães. Os poucos veículos anfíbios búfalo disponíveis eram destruídos sistematicamente por artilharia de 83 m. Engenheiros tentavam limpar campos minados enquanto água gelada penetrava seus uniformes. O terreno plano significava que observadores alemães podiam detectar qualquer movimento a quilômetros de distância, direcionando fogo de artilharia devastadoramente preciso. Durante cinco semanas, de outubro a novembro de 1944, os canadenses lutaram através deste inferno aquático congelante. Baixas acumulavam-se implacavelmente canadenses mortos, feridos ou desaparecidos, incluindo unidades britânicas e polonesas anexadas, o total alcançou 12.873 baixas. Para um guerreiro, testemunhando tudo. A noite dos 93, durante as semanas sangrentas da batalha do Escalda, se desenvolveu ódio visceral por Montgomery. Não era a versão abstrata baseada em diferenças ideológicas, e sim fúria concreta alimentada por experiências diretas. Ele observava amigos próximos morrerem desnecessariamente, dilacerados por minas que não podiam ser removidas porque engenheiros careciam de equipamento apropriado. Presenciava soldados afogarem-se em canais em lameados, porque não havia veículos anfíbios suficientes para evacuá-los após ferimentos. Via jovens recrutas entrarem em choque hipotérmico na água congelante, porque uniformes impermeáveis eram escassos. Cada morte reforçava sua convicção: Estes homens não morriam porque o inimigo era superior, e sim porque seu comandante supremo priorizara a glória pessoal sobre vidas humanas. Montgomery sacrificara o primeiro exército canadense para encobrir seu erro estratégico de não ter assegurado Antuérpia imediatamente após sua captura. Para um guerreiro, isto não era simplesmente incompetência, era traição moral.
Achei o filme excelente, acho louco como críticos dizem ser uma pena que o diretor não venha feito com o ele gostaria de ter feito. O mais interessante pra nesse drama baseado em fatos reais é exatamente a casualidade de cada personagem representa exatamente todas as pessoas anônimas que pelas circunstâncias tiveram que entrar na guerra e acabaram por mudar o curso desta.