Crítica


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Sinopse

Clare Shannon é uma garota de 17 anos que está tentando sobreviver à vida de estudante, até que seu pai encontra uma antiga caixa de música e lhe dá de presente. O que a garota vem a descobrir é que a misteriosa caixa pode lhe conceder sete desejos, e com esses pedidos ela tem a chance de conquistar o que quer. Porém, tudo tem um preço e Clare irá aprender isso da pior maneira. Afinal, o desejo pode até se realizar, mas as consequências podem ser fatais.

Crítica

A história não é necessariamente nova. Afinal, quem nunca ouviu falar da lenda da lâmpada mágica, que após ser esfregada liberava um gênio que concordava em atender três desejos mágicos? Pois bem, troque as lendas das Mil e Uma Noites pelos mistérios orientais – chineses, no caso – e aproveita para aumentar a quantidade de pedidos para sete – um número tanto da sorte, para alguns, como de azar, para tantos outros. Tem-se assim esse 7 Desejos, thriller genérico que falha no seu principal objetivo: causar sustos.

Clare (Joey King, de Despedida em Grande Estilo, 2017) mora sozinha com o pai, Jonathan (um sumido Ryan Phillippe), após a mãe ter se suicidado. Ele vive dos achados que encontra pelos lixos das redondezas e o ferro-velho que vai juntando transformou o lar dos dois em um triste depósito. Ela está longe de ser a garota mais popular da escola, mas leva uma vida razoavelmente tranquila ao lado das melhores amigas – Meredith (a ótima Sydney Park, vista em The Walking Dead, 2016-1017) e June (Shannon Purser, a Barb de Stranger Things, 2016) – enquanto sonha com o bonitão da escola (Mitchell Slaggert), é atormentada pelas patricinhas e ignora as investidas do amigo apaixonado (Ki Hong Lee, de Unbreakable Kimmy Schmidt, 2015-2016). Tudo começa a mudar, no entanto, quando o pai leva para casa uma estranha caixa de música ornamentada por ideogramas que encontrou em uma das suas pesquisas pelos restos abandonados por outros.

Sem se dar conta, Clare – sempre de posse do novo presente – começa a expressar suas maiores vontades. Quer que sua maior rival “apodreça”, que o atleta galã fique “enlouquecidamente apaixonado” por ela, ou que a mãe nunca tenha se matado. A questão é que a caixa leva tudo ao pé da letra. Assim, no dia seguinte a colega acorda com a pele podre, o crush da menina se transforma em um louco obsessivo ou sua própria vida é reescrita por completo, com a figura materna sempre presente. Outro problema que desconhece – e só descobrirá tarde demais – é que, para cada pedido concedido, um preço “de sangue” é cobrado, ou seja, alguém das suas relações irá morrer. E como não há muitos personagens em cena, não chega a ser difícil adivinhar quem será o próximo da lista.

E este é, justamente, o grande incômodo de 7 Desejos: tudo é absolutamente previsível. O parente rico distante morre? É claro que ela sonha em ser a única herdeira. Mas a riqueza que surge do dia para noite lhe deixará feliz? Ou o fato do pai não mais lhe envergonhar – de lixeiro, logo ele se revela um saxofonista de talento? A roteirista Barbara Mashall (Viral, 2016) e o diretor John R. Leonetti (Annabelle, 2014) deixam claro estarem mais preocupados com o jogo que desenham – os milagres que surgem num passe de mágica e as consequências imediatas de cada realização – do que com as relações entre cada um destes tipos, os efeitos dos seus atos e como cada novidade passa a afetá-los. Tudo é quase automático, feito em ponto morto, e nenhuma mudança chega, de fato, a alterar suas rotinas. São figuras ocas, que não despertam interesse e nem curiosidade. Assim, como se importar com o que lhes acontece?

O maior mistério a respeito de 7 Desejos é se perguntar o que teria atraído nomes como Phillippe – que chegou a ser um astro popular, e hoje anda afastado dos holofotes e das grandes produções – ou mesmo Sherilyn Fenn, que teria muito mais a ganhar se tivesse concordado em voltar na nova temporada de Twin Peaks (2017) ao invés de ficar perdendo tempo em produtos descartáveis como esse aqui. Mistura dos piores momentos da saga Premonição (que rendeu cinco filmes entre 2000 e 2011) com qualquer outro longa genérico dessa linha, não consegue ir além da trama boba sobre conflitos adolescentes e traumas familiares interligados de forma forçada por uma maldição que nunca chega a convencer de fato – as pontas soltas estão por todos os lados. E quando, enfim, decide mostrar alguma coragem – como a conclusão que evita o final feliz – já é tarde demais, soando mais como uma provocação deslocada do que como o esperado toque de originalidade que poderia ter salvo o projeto do rápido esquecimento.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.

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