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Sinopse
Em 100 Noites de Desejo, a chegada de um hóspede carismático a um castelo isolado desestabiliza a frágil dinâmica entre um marido distante, sua noiva Cherry e a criada Hero. À medida que as tensões emocionais se intensificam, o convívio entre eles se transforma em um jogo de conquistas, conflitos e revelações. Romance.
Crítica
É triste pensar que uma história como 100 Noites de Hero, graphic novel da britânica Isabel Greenberg publicada em 2016 e já traduzida para mais de uma dezena de países ao redor do mundo, apenas se tornará de fato conhecida no Brasil por causa do… He-Man. Sim, pois o filme que adapta a obra literária, 100 Noites de Desejo, chegou aos cinemas no seu país de origem em 2025 e, sem gerar maiores repercussões junto ao público, e menos ainda em avaliações críticas, tinha tudo para receber por aqui um lançamento tímido, direto nas plataformas de streaming ou em vídeo on demand. Pois algo determinou a diferença: a inclusão no elenco de Nicholas Galitzine – o mesmo ator que interpreta o protagonista de Mestres do Universo (2026), atual versão em live action para a tela grande da popular animação dos anos 1980. A distribuidora nacional deste drama romântico fantástico está, nitidamente, tentando capitalizar em cima do concorrente – afinal, ambos chegaram aos cinemas nacionais no mesmo dia. Mas que não se engane: se na produção mais conhecida o galã aparece à frente do elenco, aqui ele é não mais do que uma distração narrativa. Um argumento que permite mais de um desdobramento de leitura, mas que acabou reduzido a uma nota de rodapé de um outro sucesso.

Galitzine tem construído uma carreira com personagens encantados, como os príncipes de Cinderela (2021) e de Vermelho, Branco e Sangue Azul (2023), o soldado de Continência ao Amor (2022), ou mesmo o cantor de Uma Ideia de Você (2024). Ou seja, ele tem um tipo ao qual se encaixa sem muito esforço. Em 100 Noites de Desejo ele mais uma vez repete essa figura, porém com um toque de perversidade e devassidão que poderia se aproximar ao tipo que encarnou na minissérie Mary & George (2024), mas esse colorido, presente no início da trama, logo se esvai, remetendo ao mesmo esmaecimento dos demais. Pois se o seu Manfred aceita a aposta de conquistar a esposa do melhor amigo apenas por diversão, não causa espanto quando o rumo dos acontecimentos recai em uma vala comum mostrando-o irremediavelmente apaixonado, ela sem saber como agir diante da surpresa da revelação e o marido fingindo uma falsa injúria que mal se esforça em sustentar. Mais interessante, portanto, são os motivos e as consequências desses atos, e menos eles em si.
As verdadeiras protagonistas, no entanto, são Cherry (Maika Monroe, desconfortável no papel da mocinha ingênua) e Hero (Emma Corrin, com pouco espaço em cena, apesar de ser responsável pelo batismo original da história). A segunda é criada da primeira, e com ela se preocupa, se interessa e a protege. Principalmente diante da fatalidade que de ambas se aproxima. O espectador entenderá a importância dessa relação pois estão ambas imersas em uma outra realidade, um conto de fadas no qual o mundo foi criado por uma Menina e o pai dessa, conhecido como o Homem-Pássaro, cansado de tanta monotonia, gerou a discórdia, o temor e a adoração dos terrenos em relação aos mitos. Nessa nova diretriz, são os homens que ditam as regras – nada surpreendente, portanto – e às mulheres cabe apenas a função reprodutiva. Agora, o que fazer quando um filho não é gerado? E, mais grave ainda, como lidar quando o casal formado às pressas por interesses de terceiros é composto por pessoas não interessadas um no outro, mas em outros – e do mesmo sexo?
A temática da homossexualidade é crucial ao enredo de 100 Noites de Desejo. Esse argumento, no entanto, é minimizado com tanta intensidade no filme dirigido por Julia Jackman (Bonus Track, 2023) a ponto de se tornar quase irrelevante. Jerome (Amir El-Masry, de A Noite das Bruxas, 2023) é o dono do castelo que tem sido pressionado pelos anciões a produzir um herdeiro. Mas o rapaz é gay, está mais interessado no serviçal que invade seu quarto toda noite, e parece não ter vontade alguma em dividir a mesma cama com a esposa, com quem nunca compartilhou nem mesmo algumas horas desde o casamento. Porém, ambos foram avisados: se em cem dias ela não aparecer grávida, não só a união será desfeita, como a garota estará condenada à morte. Incapaz de cumprir sua parte, ele decide se afastar, abrindo espaço para o amigo ocupar o seu lugar. Mas ela também tem outras preocupações. Sabe que precisa obedecer ao que lhe foi ordenado, e anseia por não ser infiel ao marido. As investidas que recebe do recém-chegado não lhe provocam grandes efeitos, no entanto. Sem saber se conseguirá sobreviver aos desencontros desses homens, revela inacreditável ingenuidade quando lhe fica claro que a única a se importar com ela é.. a acompanhante que está sempre ao seu lado. Hero tem um objetivo: manter seu amor vivo – de modo figurado, mas também literal. Mas como agir quando o ciúme fala mais alto?

No meio dessa mistura rocambolesca, Jackman – que também é roteirista – abre espaço para outra referência histórica. No intuito de fazer valer mais a sua paixão – e menos o pescoço de sua amada – Hero passa a enrolar o galanteador Manfred com uma história que nunca chega ao fim, e a cada noite parece ganhar novos desdobramentos. Claro, ela quer impedir que ele se declare e conquiste a desprotegida Cherry. Mas essa não é tão inocente assim. Enfim, num conto que já somava pitadas de dramas envolvendo deuses invejosos, uma crítica à misoginia e relacionamentos de bastidores, se faz necessária uma releitura das Mil e Uma Noites, com Hero fazendo a vez de Scheherazade. São muitos elementos reunidos em uma narrativa que não demonstra preocupação em dar o devido peso a cada uma de suas partes. Poderia ser somente um romance libertário que fizesse valer a diversidade sexual como forma de resistência frente à intolerância, mas 100 Noites de Desejo almeja mais, e é justamente essa ambição não realizada que determina a desapontamento que resulta de sua truncada fruição.
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Grade crítica
| Crítico | Nota |
|---|---|
| Robledo Milani | 4 |
| Chico Fireman | 4 |
| Francisco Carbone | 4 |
| MÉDIA | 4 |

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