Crítica


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Sinopse

Otis é um adolescente socialmente inapto que vive com sua mãe, uma terapeuta sexual. Apesar de não ter perdido a virgindade ainda, ele é uma espécie de especialista em sexo. Junto com Maeve, uma colega de classe rebelde, ele resolve montar sua própria clínica de saúde sexual para ajudar outros estudantes da escola.

Crítica

Filho de terapeutas sexuais divorciados, Otis (Asa Butterfield) tem problemas com a expressão de seus desejos, o que acarreta a inusitada incapacidade de imaginar-se fazendo sexo e, consequentemente, a trava que o impede, inclusive, de se masturbar. Mais que ironia, esse efeito colateral explorado já no primeiro episódio de Sex Education – e explicado adiante – fornece uma chave essencial à compreensão do verdadeiro núcleo duro da série, algo que passa relativamente ao largo da forma como esse jovem e a amiga decidem lucrar ajudando colegas a resolverem impasses íntimos. A conturbada e multifacetada relação entre pais e filhos é o terreno onde o conjunto se fundamenta. Isso, a começar pelo lar do protagonista, onde o comportamento incomum da mãe, Jean (Gillian Anderson), que enfileira fugazes encontros carnais, frequentemente traz embaraço ao rebento cheio de questões para definir com a própria sexualidade. A adolescência é retratada como um período difícil em que pressões e outros elementos acabam influenciando determinantemente os quase adultos, condicionando escolhas, induzindo a erros crassos que podem se perpetuar por toda a vida. É uma fase dura.

Sex Education possui texto leve na superfície, qualidade que torna muito prazerosa uma eventual maratona. Porém, as temáticas e os subtextos a enriquecem, fazendo das discussões, mesmo as presas a convenções em circunstâncias específicas, substanciais e abrangentes o suficiente para torna-las relevantes. Otis, tímido e reservado, se apaixona perdidamente por Maeve (Emma Mackey), difamada diariamente na escola por supostamente colecionar parceiros e não ter pudores na cama. Já o melhor amigo dele é Eric (Ncuti Gatwa), negro e homossexual, cuja vontade de ser popular esbarra frequentemente nos mecanismos excludentes do ensino secundário. Eles formam uma nada ortodoxa trinca de párias às voltas com as dificuldades dos colegas no ramo sexual. Aproveitando o talento de Otis para analisar cenários e aconselhar quem passa por alguma dificuldade na intimidade, decidem montar uma clínica informal no campus e lidar com tabus, tratando de dirimir ansiedades e mostrar aos estudantes que certos problemas são quase generalizados, comuns. A ação gera um movimento curioso na instituição, com o crescimento da clientela disposta a falar e a pagar.

Voltando à questão relacional com os genitores, ela ganha diversos exemplos que asseveram sua imprescindibilidade ao olhar que Sex Education propõe. Adam (Connor Swindells), o valentão que constantemente desconta em Eric suas frustrações, possui um elo bastante complicado com o pai, o diretor da escola, homem severo que lhe cobra retidão e destacado desempenho acadêmico. Jackson (Kedar Williams-Stirling), o garoto prodígio, sente o peso da pressão que uma de suas mães (palmas à construção do casal homossexual não tipificado) exerce sobre ele, principalmente no que tange aos treinamentos para um melhor resultado na natação. Maeve, por sua vez, se ressente da herança ruim, pois seus pais não foram capazes de fornecer a ela e ao irmão uma base emocional sólida. Essa característica prevalente remonta à fonte mais acessada conceitualmente pela série, os longas-metragens de John Hughes, neste caso, precisamente, Clube dos Cinco (1985), em que o realizador norte-americano aborda arquétipos do high school e deflagra a importância, negativa e/ou positiva, da influência dos pais. Todavia, a homenagem a Hughes é mais profunda, impregnada na orientação de como esse elo é entendido dentro de uma perspectiva de transição geracional.

Embora se passe na Inglaterra, Sex Education emula o ambiente secundarista norte-americano, estabelecendo uma espécie de mimese que denota a universalidade do que é encarado. Situações consideradas tabus, tais como falta de química sexual entre parceiros, virgindade, desespero para se aceito nos meios socialmente populares, temores diante da primeira vez, masturbação feminina, fotos íntimas vazadas, homofobia, repressão do querer, tudo isso é muito bem discutido na série, sem um tom solene, mas tampouco levianamente. Aliás, um dos momentos mais bonitos é, na iminência de uma menina ser exposta por conta da foto compartilhada de sua vagina, várias colegas tomando a sua frente, fazendo um tipo de cordão de isolamento imaginário que preserva-lhe a privacidade, indício de sororidade que ressoa bem. Um dos traços positivos é a trama não ficar demasiadamente presa à atuação de Otis como terapeuta estudantil, recorrendo pontualmente ao expediente, sobretudo, com a intenção de apresentar um leque amplo de demandas a serem sanadas. Quebras de confiança, amores não correspondidos, tudo entra nesse molho saboroso, no qual os chavões são instrumentalizados como ferramentas facilitadoras de aproximação e empatia.

Em dado ponto, uma personagem importante de Sex Education se descobre grávida. Ao invés de apostar no dilema clássico da mulher que entra em crise de consciência por não saber se deve ou não interromper a gestação indesejada, trazendo à baila questões religiosas e/ou de cunho moralista, os criadores da série encaram a conjuntura com maturidade, distanciando-a dos lugares comuns, sem julgamentos ou algo que contamine uma visão séria e sólida acerca do tópico. E esse posicionamento destituído de gatilhos fáceis, que intenta, ao menos, explorar as coisas por diversos prismas, é percebido como um procedimento basilar do roteiro ao utilizar assuntos com potencial controverso. Aliás, a série realmente não se faz de rogada ao colocar em pauta a sexualidade, o que se configura num de seus grandes acertos. Também é imprescindível o ótimo trabalho do elenco. Asa Butterfield está excelente como o protagonista que vive um paradoxo, afinal se torna uma espécie de guru aos outros, sem ao menos possuir qualquer vivência prática, seja no amor ou no sexo. Gillian Anderson apresenta um desempenho impagável como a sua mãe. Já Emma Mackey e Ncuti Gatwa são as revelações da primeira temporada, com construções carismáticas de personagens cativantes e complexos.

Sex Education requenta processos e caminhos, o que faz dela previsível em certa medida. Por exemplo, não é difícil antever o desfecho do envolvimento de Jean com o faz-tudo charmoso que conserta sua casa. Todavia, mesmo essa dinâmica relativamente banal serve à compreensão da abrangência das vicissitudes emocionais e/ou sexuais, uma vez que nem a terapeuta renomada escapa de incorrer em dinâmicas viciadas – que visam preservar seu coração de uma eventual nova paixão e, consequentemente, de decepções futuras –, passíveis de reprimir algo fundamental. Numa era em que vemos crescer o obscurantismo, com pregações canhestras favoráveis ao fim da educação sexual nas escolas, esta série vem bem a calhar. Especialmente, a fim de relativizar tópicos interditados num âmbito público e promover a necessidade de discutir medos e fragilidades, não de reforçar um silenciamento que certamente pode criar nódoas indeléveis e perpetuar preconceitos e recalques. Todos os personagens têm falhas, erram, trocam os pés pelas mãos, numa demonstração da falibilidade inerente ao humano, que deve ser entendida como estrutural, não enquanto uma anomalia.

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Jornalista, professor e crítico de cinema membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema,). Ministrou cursos na Escola de Cinema Darcy Ribeiro/RJ, na Academia Internacional de Cinema/RJ e em diversas unidades Sesc/RJ. Participou como autor dos livros "100 Melhores Filmes Brasileiros" (2016), "Documentários Brasileiros – 100 filmes Essenciais" (2017), "Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais" (2018) e “Cinema Fantástico Brasileiro: 100 Filmes Essenciais” (2024). Editor do Papo de Cinema.