Crítica


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Sinopse

Na primeira temporada de Os Donos do Jogo, um novato ambiciona liderar o submundo do jogo do bicho no Rio de Janeiro. Mas, nessa aventura improvável, acaba se envolvendo em uma perigosa rede de traições, luxúria e sangue - da qual sair não é uma opção. Crime.

Crítica

A disputa entre famílias em nome de dinheiro, fama e poder é um tema recorrente no audiovisual. Não foram poucos os filmes e séries que exploraram esse conceito por meio de histórias no passado e no futuro, no hoje ou em contextos envoltos pela fantasia. De clássicos como O Poderoso Chefão (1972) – por muitos considerado o melhor filme já feito – a um fenômeno recente como Game of Thrones (2011-2019), não foram raras as inserções por este universo. Mas se Hollywood tem se esbaldado em relações de amor e ódio, traições e alianças, a cinematografia brasileira, pelo contrário, havia se mostrado tímida, na melhor das hipóteses, em se aventurar por tal seara. Bom, não mais. Pois um título como Os Donos do Jogo tem tudo – e mais um pouco – para mudar esse cenário. A série criada por Heitor Dhalia – cineasta brasileiro premiado aqui e no exterior, com passagem pelo cinema norte-americano e responsável por obras cultuadas pelo público e pela crítica – e Bernardo Barcellos (DNA Do Crime, 2023-2025) precisou de apenas os oito episódios de sua primeira temporada – já renovada para um segundo ano – para dizer a que veio, exibindo laços de sangue e rivais entre si e com outras por debaixo dos panos, mas que à luz do dia se cumprimentam e trocam afagos, ao mesmo tempo em que todos lutam pelas melhores estratégias para valer suas vontades. O cenário? O jogo do bicho no Rio de Janeiro. Uma chaga que parece local, mas que está espalhada por todo o país, de norte a sul, de leste a oeste. E é por isso, por sua fácil identificação, atores no domínio de seus personagens, uma revelação pronta para provar seu valor, diálogos afiados e uma narrativa da qual é quase impossível se afastar antes do fim que fazem do conjunto uma das apostas mais certeiras do momento.

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Dos títulos citados acima como referência, Os Donos do Jogo parte do mesmo princípio: o uso de um underdog, o azarão, aquele que poucos acreditam ou levam fé. Pode ser o filho caçula, supostamente mais fraco e afastado dos negócios familiares, ou o bastardo que nunca foi plenamente aceito ao lado dos “oficiais”, por assim dizer. No caso, quem luta para provar seu valor é Profeta (André Lamoglia, exalando carisma, em pleno controle de uma postura de estrela, indo além de uma atuação convincente), que combina as duas características depreciativas: é tanto o caçula como o não legítimo, pois foi adotado ainda bebê. Vindo do interior, de Campos dos Goytacazes, chega na capital carioca com sede por subir rápido e ambição por entender as engrenagens locais. Para trás deixa o pai (Adriano Garib, que late alto para não ter que morder), patriarca da família Moraes, e o irmão do meio, Esqueleto (Ruan Aguiar, o mais monocórdio desse grupo). Consigo, traz o mais velho, Nelinho (Pedro Lamin, de Cangaço Novo, 2023, um vulcão sempre prestes a entrar em erupção, fiel e determinado). Se essa era uma estrutura de homens, o protagonista logo se verá envolto por duas irmãs em disputa pelo espaço que a elas não foi destinado em uma realidade ainda masculina e dominada pela força bruta. Até quando, porém, é a grande dúvida.

Quem melhor representa estes dois lados – a selvageria de ontem e a juventude do amanhã – é Búfalo (Xamã, batendo na mesma tecla vista no filme Cinco Tipos de Medo, 2025, ou na novela Três Graças, 2025, correndo o risco de ficar estereotipado por um só tipo de personagem), que acabou de casar com Suzana (Giullia Buscaccio, de Arcanjo Renegado, 2025). Ela e a irmã, Mirna (Mel Maia, revelando-se uma atriz versátil e sedutora), querem ocupar o espaço na Cúpula de Poder que um dia foi do pai, Jorge Guerra (o veterano Roberto Pirillo), que agora, doente e abalado, não mais tem exercido sua influência. Só que elas sabem que somente homens podem se sentar à mesa. E é por isso que precisam de maridos fortes, para imprimir medo, mas influenciáveis, para que elas possam controlá-los. Suzana está disposta a tudo para tirar aquela que esteve ao seu lado desde pequena, fazendo da aliança com o marido um tratado de sangue. Porém Mirna não se mostra disposta a ficar para trás. É por isso que a chegada de Profeta se dará na hora certa. Entre os dois haverá primeiro tesão, depois ciúmes, por fim entendimento comercial, compreensão de necessidades mútuas e, até mesmo, tensão sexual. Ceder ou não aos encantos e à sedução que um irá exercer sobre o outro os manterá constantemente alertas, tanto no relacionamento que inevitavelmente acabarão construindo, como também diante dos demais que estarão ou contra, ou ao lado deles. Difícil mesmo será permanecer alheio.

Há outras famílias envolvidas. Importante citar os Fernandez, da qual surge talvez o personagem mais ameaçador do elenco: Galego, interpretado com maestria e segurança por Chico Diaz. O que o ator faz com esse gigante da contravenção é de arrepiar até o mais cético. Seus olhos estão por todos os lados, da esposa (Juliana Paes, linda e perspicaz como poucas vezes se mostrou) que já foi sua voz da razão, à amante, Audrey (Dandara Mariana, de União Instável, 2023, que não demora a entender como a banda toca ao seu redor). Do filho que não vê valor, Santiago (Henrique Barreira, de Ato Noturno, 2025), ao irmão e braço direito (Otávio Müller, outro que consegue cativar as atenções com pouco a dispor, revelando sem pressa suas intenções e a quem é fiel). Os Fernandez estão a par da briga entre os Moraes e os Guerra, mas procuram não intrometer, por mais que estejam intrinsicamente ligados ao que entre os inimigos e colegas acontece, seja por segredos do passado, seja por consequências do futuro. Galego é tanto ameaça quanto conciliação, o anseio por uma ordem entre tudo que é ilegal, ao mesmo tempo em se mostra disposto a romper com essas ditas regras quando é no seu calcanhar que a dor aperta.

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Entre reviravoltas e mudanças inesperadas, a escalada de Profeta rumo ao poder fará com que ele não perdoe quem se colocar em seu caminho. Acompanhar cada degrau dessa subida tem seu prazer, ao mesmo tempo em que exigirá controle emocional da audiência, pois aquele com o qual a torcida penderá num instante poderá ser o acuado prestes a trocar de time no desenlace seguinte. Questões como homofobia e misoginia são pinceladas sem muita profundidade, o que talvez seja melhor trabalhado em desdobramentos futuros. Mas ao menos se fazem presentes como temáticas não mais tabus, mas urgentes e que merecem não apenas ser trazidas ao debate, mas encaradas de frente e sem posturas amenas. Enquanto Lamoglia e Mel Maia se apresentam como um casal feito nos céus pronto para enfrentar os infernos na luta por se manterem juntos, Juliana Paes e Chico Diaz se confirmam como o outro lado de uma mesma moeda, revelando segurança e controle em tipos que tanto ditam as ordens como a qualquer momento podem ver suas coroas rolarem ladeira abaixo. Em Os Donos do Jogo, tudo pode mudar a qualquer segundo, e manter essa dinâmica do início ao fim é um dos maiores méritos de uma proposta talvez não inovadora, mas executada com tamanha precisão que seguirá repercutindo, nem que seja até a chegada de uma nova leva de episódios.

As duas abas seguintes alteram o conteúdo abaixo.
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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.

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