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Sinopse

Um famoso ator especialista em artes marciais sai da aposentadoria para reviver seu alter-ego: um agente especial do serviço secreto. Nesta jornada, ele vai reencontrar Vanessa, sua antiga parceira de trabalho e grande amor que escapou de sua vida.

Crítica

E se Jean-Claude Van Damme, astro maiúsculo do cinema norte-americano de ação, fosse, na verdade, um agente disfarçado que sempre utilizou a carreira como álibi para trabalhos ultrassecretos? Essa é a curiosa premissa de Jean-Claude Van Johnson, série original da Amazon, cuja primeira temporada tem seis episódios de aproximadamente 30 minutos. Estamos diante de uma metanarrativa nutrida por filmes oitentistas/noventistas do gênero ação. Não são apenas as situações propostas pelo roteiro que deflagram essa filiação, já que o DNA do programa é justamente tal homenagem, inclusive formal, aos exemplares responsáveis por tornar célebre o astro belga que fez fortuna na América distribuindo socos e, principalmente, pontapés em adversários dos mais diversos tipos. Passados 10 minutos da primeira parte, entendemos os motivos que fazem o Van Damme ficcional voltar da aposentadoria. Interessado em colaborar novamente com Vanessa (Kat Foster), ele retorna às telas e à briga.

Jean-Claude Van Johnson possui um ritmo acelerado, deliberadamente sem espaços para “entraves”, como excessos de estrita realidade. Dave Callaham, o criador da série, enche o desenvolvimento de elementos familiares a quem passou boa parte da infância e/ou da juventude em locadoras, consumindo as fitas que Van Damme e os derivados de sua fama despejavam semanalmente nas prateleiras de lançamentos. A produção dentro do filme, aliás, é uma brincadeira perspicaz com os absurdos de algumas realizações desse passado recente (?). Para acobertar a investigação sobre um cartel de drogas na Bulgária, Van Damme aceita encarnar uma versão tiro-porrada-e-bomba de Tom Sawyer, um dos personagens célebres de Mark Twain. Paralelo às filmagens conduzidas por um cineasta tão espalhafatoso quanto egocêntrico, temos as peripécias de Van Damme “de verdade”, como na invasão do armazém que acaba, inexplicavelmente, numa explosão estrondosa, própria à nostalgia predominante.

Claro que não poderiam faltar inúmeras referências a filmes protagonizados, de fato, por Jean-Claude Van Damme. É particularmente inteligente e jocosa a comparação entre Timecop: O Guardião do Tempo (1994) e Looper: Assassinos do Futuro (2012), com personagens seguidamente medindo os méritos desses longas-metragens que possuem um mote similar. Aliás, o longa-metragem noventista fornece elementos que adicionam novas camadas de bem-vindo absurdo à série, como a participação literal de um agente do futuro. Van Damme se coloca à disposição da sátira, fazendo parte desse jogo de espelhos que reflete boa parte de sua carreira de sucesso. Em certa cena, por exemplo, ele se depara com uma gangue numerosa, mas enfrenta um capanga por vez. Não é, claro, para ser uma dinâmica realista, já que ela está ligada diretamente à metalinguagem que substancia toda a série. Há, também, a ótima piada com uma cadeia de locadoras fechada, que outrora, provavelmente, deu lucros polpudos ao ator.

Jean-Claude Van Damme, a todo o momento, está disposto a extrair graça de si mesmo, a tirar sarro dos elementos que fizeram dele um fenômeno de locações, já que seus filmes, com raras exceções, tiveram mais sucesso no home vídeo que necessariamente no cinema. O famoso espacate, movimento que o ator utilizou em vários papéis para demonstrar suas habilidades impressionantes, aqui é alçado quase à categoria de superpoder, não sem antes servir para proporcionar a troça sobre a idade de Van Damme que complica a execução. Outro motivo de piada são as caras e os gritinhos característicos do lutador, sobretudo nos momentos dos chamados “golpes finais”. Quem se lembra com carinho de, por exemplo, O Grande Dragão Branco (1988), top três entre os longas-metragens mais lembrados do belga, produção da mítica Cannon Films, com certeza vai identificar a homenagem na cena em que o protagonista encerra uma luta dramaticamente, exibindo a expressão indefectível, semelhante a do filme.

Reverente até o último minuto, Jean-Claude Van Johnson utiliza com bastante propriedade os códigos que cativaram os espectadores dos filmes de ação dos anos 80/90. Van Damme, por sua vez, parece divertir-se interpretando a si próprio, às vezes inclusive duplamente. Outro ingrediente saboroso é o coadjuvante Filip, vivido igualmente por Van Damme como uma espécie de duplo/vilão humilde, indignado quando alguém diminui as qualidades de Timecop: O Guardião do Tempo, seu filme favorito. Kat Foster desempenha bem a função de interesse romântico do protagonista, contudo, não se limitando a ser a donzela em perigo, pelo contrário, partindo à pancadaria quando a situação pede. Vilões caricatos, plot twist canhestros, revelações revestidas com um verniz de canastrice, são componentes dos quais a equipe criativa lança mão intencionalmente nesta deliciosa metanarrativa, assim posta, pois absolutamente condicionada pelos cânones das obras às quais abertamente presta tributo.

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é crítico de cinema, membro da ACCRJ (Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro) e da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema,). É, também, professor da Escola de Cinema Darcy Ribeiro/RJ.
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