A 15ª edição do Olhar de Cinema: Festival Internacional de Curitiba abriu espaço, no último sábado, 06, para uma das obras mais pessoais e inquietas da competição brasileira de longas. Olhe Para Mim, de Rafhael Barbosa, chegou ao festival como uma mistura de drama, suspense e horror atravessada por memória, infância, sonho e subjetividade. Depois da sessão, o diretor conversou com o Papo de Cinema sobre o processo de construção do filme, a força de suas imagens e a relação muito íntima que estabeleceu com o projeto. Siga o fio e confira!
OLHE PARA MIM, DE RAFHAEL BARBOSA
No filme, a ausência da mãe de Marcelo, desaparecida quando ele tinha 10 anos, abre uma ferida que nunca se fecha. Já jovem, ele vaga por cemitérios e se refugia em memórias inventadas para suportar a realidade. A chegada de dois seres misteriosos transforma essa travessia e empurra o personagem para uma jornada entre os limites do mundo dos vivos e dos mortos. No elenco, estão Rejane Faria, Ulisses Arthur, Luciano Pedro Jr. e Aura do Nascimento.

Rafhael, cineasta negro e queer nascido em Arapiraca, no interior de Alagoas, voltou a explorar no longa elementos que já atravessavam sua trajetória desde o documentário Cavalo (2020), seu primeiro longa. Em Olhe Para Mim, ele leva adiante essa busca por imagens que deem forma ao deslocamento, à invenção e ao desejo de existir em um espaço ainda pouco aberto a determinadas vozes.
O NASCIMENTO DO FILME
Ao comentar o caráter autobiográfico de Olhe Para Mim, Barbosa revelou que o longa nasceu de um processo profundo de investigação pessoal, alimentado por memórias de infância, sonhos recorrentes e pela própria formação cinéfila construída longe dos grandes centros urbanos.
“Foi um processo difícil e, em certa medida, doloroso, porque se colocar dentro de uma obra nunca é algo simples. Ao mesmo tempo, o filme foi construído a partir de muita subjetividade. Cheguei a fazer psicanálise para discutir meus sonhos, porque existe um pesadelo recorrente que me acompanha há muitos anos e, em determinado momento, decidi que queria abordá-lo em um filme. Havia um material pessoal interessante e a busca passou a ser entender como transformá-lo em linguagem cinematográfica.”
FORMAÇÃO FORA DO CENTRO
Na sequência, ele explicou que o projeto também revisita sua relação com o cinema, construída durante a adolescência em videolocadoras, já que cresceu em uma cidade sem salas de exibição. “Minha formação cinéfila aconteceu muito cedo, especialmente durante a pré-adolescência. Cresci em uma cidade que não tinha cinema, então a videolocadora virou meu principal espaço de descoberta. Eu saía da escola e passava horas lá. Foi assim que conheci muitos dos filmes que ajudaram a formar meu imaginário”.

TRABALHO COM O ELENCO
Questionado sobre o trabalho com o elenco, Barbosa destacou que busca cercar-se de artistas capazes de participar ativamente da construção criativa dos personagens e das cenas. “A principal característica que procuro em um ator é a capacidade de colaborar. Gosto de trabalhar com pessoas que se envolvam profundamente com o projeto e tragam algo de si para o processo. A escolha do elenco passa muito por esse comprometimento e pela disposição para construir coletivamente”.
Segundo o diretor, a preparação dos atores teve papel fundamental para o resultado final do longa. O processo foi conduzido pelo mesmo preparador de elenco de seu filme anterior e buscou explorar elementos subjetivos ligados ao universo dos sonhos.
“O trabalho de preparação foi essencial. Queríamos encontrar caminhos menos convencionais para acessar a subjetividade dos personagens. Como o sonho é um dos elementos centrais do filme, propusemos um exercício em que os atores mantinham diários de sonhos. Eles recebiam cadernos e, ao acordar, registravam imediatamente imagens, sentimentos, anotações ou desenhos relacionados ao que haviam sonhado.”

O método acabou influenciando diretamente a narrativa, gerando imagens e situações que mais tarde foram incorporadas ao roteiro e às filmagens. “Muitas ideias surgiram desse processo. Algumas cenas inteiras nasceram durante a preparação. Ao acompanhar os encontros, era possível perceber movimentos, imagens e sensações muito especiais emergindo daqueles relatos. Em vários momentos, essas descobertas acabaram se transformando em cenas do filme”.
INSPIRAÇŌES
Por fim, ao falar sobre suas referências, Rafael reconheceu a importância de ninguém mesmo que David Lynch em sua trajetória artística e revelou que o cineasta teve influência direta na construção de um dos personagens centrais da obra.
“Sempre admirei David Lynch e outros realizadores que exploram um cinema mais onírico e poético. Curiosamente, neste filme não houve uma obra específica funcionando como referência direta, mas a figura de Lynch foi muito importante, principalmente na construção do personagem Ivan. Era o personagem mais complexo do filme e, durante o processo, assisti a documentários sobre sua obra e sobre seu trabalho como artista visual. Aquilo acabou oferecendo uma chave para compreender o personagem. De certa forma, Ivan também funciona como uma homenagem ao próprio David Lynch. E acredito que o filme, em seu conceito, também dialoga com alguns elementos presentes no cinema dele.”
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