A competição brasileira de longas da 15ª edição do Olhar de Cinema: Festival Internacional de Curitiba recebeu, na noite da última quarta-feira, 10, uma das propostas mais singulares desta seleção. Em Adulto/Homem, o cineasta cearense Pedro Diogenes deixa momentaneamente de lado estruturas narrativas mais convencionais para apostar em um exercício cinematográfico marcado pela escuta, pela presença e pela reflexão sobre o próprio fazer artístico.
Exibido no Museu Oscar Niemeyer, o filme reuniu o público para uma experiência minimalista que transforma atores e atrizes em narradores de suas próprias inquietações, expectativas e frustrações diante da profissão. Conhecido por trabalhos como O Inferninho (2018) e A Filha do Palhaço (2022), Diogenes constrói aqui um projeto radicalmente simples em sua forma, mas carregado de significados.

Na manhã seguinte à exibição, o diretor conversou com o Papo de Cinema sobre o processo de criação do longa, sua trajetória nos festivais e o significado desta obra dentro de sua filmografia. Confira!
OLHAR DE CINEMA 2026 :: PEDRO DIOGENES
O CAMINHO DOS FILMES
Ao refletir sobre a circulação de seus filmes em festivais e mercados internacionais, Diogenes afirmou que nunca constrói seus projetos pensando em estratégias de posicionamento ou reconhecimento futuro. “Nunca penso que, se fizer determinada escolha, o filme vai chegar a tal lugar ou ter mais chances em determinado festival. Durante o processo, a preocupação é apenas com a feitura. Só depois que o filme está pronto é que começamos a entender onde ele pode se encaixar. E, curiosamente, quase todos os meus trabalhos tiveram um reconhecimento muito maior no Brasil do que no exterior”.
Na sequência, revelou que essa trajetória o levou a compreender melhor o lugar ocupado por suas obras dentro do cenário audiovisual. “Foram tantos ‘nãos’ ao longo do caminho e, ao mesmo tempo, uma recepção tão calorosa no Brasil, que passei a entender que talvez o lugar natural desses filmes seja realmente aqui. Hoje, quase nem consigo olhar para o campo internacional da mesma maneira porque percebo que eles encontram seu público e seu sentido principalmente dentro do país”.
GRITO DE LIBERDADE
Questionado sobre o papel de Adulto/Homem em sua filmografia, ele definiu o novo trabalho como uma espécie de libertação artística. “Vejo esse filme quase como um grito de liberdade. A possibilidade de realizar uma obra sem edital, sem grandes estruturas e sem depender de recursos externos foi muito importante para mim. Fazer um filme em uma única tarde, em um único plano, reunindo pessoas que admiro, trouxe uma leveza enorme como realizador”.
O diretor explicou ainda que a experiência serviu para reafirmar a possibilidade de criar mesmo fora dos longos ciclos de produção que costumam marcar o cinema brasileiro. “Continuo acreditando nos editais e tenho projetos que talvez levem dez anos para acontecer. Mas também existem ideias, desejos e urgências que caminham em paralelo. Adulto/Homem talvez seja o exemplo mais radical disso: um filme realizado muito mais pelo desejo de existir do que pela espera das condições ideais”.
OLHAR DE CINEMA
Ao comentar a estreia da obra no Olhar de Cinema, Pedro destacou a importância de festivais que abrem espaço para propostas mais experimentais dentro da produção nacional. “Foi uma estreia muito bonita e, sinceramente, uma surpresa para mim. É um filme que exige um tipo diferente de relação com o espectador. Talvez peça mais paciência, mais tempo de escuta. É uma experiência marcada pelos silêncios e por uma construção distinta daquela presente em trabalhos mais narrativos”.
Para o cineasta, a existência de mostras dedicadas a esse tipo de linguagem é fundamental para a diversidade do audiovisual brasileiro. “É muito importante ter um festival grande, sério e bem organizado como o Olhar de Cinema atento a esse tipo de produção. O cinema brasileiro também é feito de filmes mais experimentais, mais ousados, mais independentes. O pouco que vi aqui já mostra uma quantidade enorme de obras inventivas, criativas e vindas de diferentes regiões do país”.

ELENCO CONSTRUÍDO PELA AFINIDADE
Diogenes também falou sobre a formação do elenco, composto majoritariamente por atores com quem já possuía alguma relação profissional ou afetiva. Como o projeto foi realizado em poucos dias e sem orçamento, a escolha precisou acontecer de forma rápida e intuitiva. “Ligamos para muitos dos atores em uma quinta-feira para filmar na segunda seguinte. Foi tudo muito rápido. Procuramos pessoas com quem já havíamos trabalhado, artistas que admiramos ou que acompanhamos em Fortaleza. A ideia era reunir quem topasse embarcar nessa experiência”.
Apesar do grande número de participantes, o diretor admite que gostaria de ter incluído ainda mais nomes na produção. “Ficou muita gente de fora. Houve pessoas que foram convidadas e não puderam participar, além de outras que simplesmente não cabiam dentro do limite que estabelecemos. Poderia facilmente fazer um filme com noventa atores, porque talento é algo que não falta. Foi apenas um recorte de artistas que admiro profundamente”.
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