Crítica

Apocalípticos de plantão já pregaram que a animação em 2D está com seus dias contados. Uma opinião que poderia ser abalizada pelo sucesso dos filmes realizados por computador, feitos de forma mais rápida. No entanto, se o mercado do bom e velho desenho rabiscado em um papel que ganha vida com os 24 quadros por segundo do cinema não é tão comum quanto era antigamente, a culpa não é da plataforma.

Por essas e outras que é tão louvável uma produção como Wood & Stock: Sexo, Orégano e Rock'n'Roll. O longa-metragem dirigido por Otto Guerra, baseado nos personagens clássicos de Angeli, prova que é possível fazer filmes interessantes usando poucos recursos e boas ideias. Não espere ver uma animação Disney ao conferir o desenho animado produzido no Sul. Muito longe disso. Os traços dos personagens são bastante limitados e não temos bichinhos cantando músicas alegres (o porco não conta). E é por estar tão distante de uma animação padrão que Wood & Stock diverte tanto. O linguajar rasteiro e a total inconsequência dos personagens são motivos suficientes para boas risadas. E a dublagem, então, é um show a parte.

Rita Lee interpreta Rê Bordosa com uma voz rouca que encaixa perfeitamente com a personagem. Ninguém mais faria um trabalho tão preciso quanto a cantora. Outro destaque fica para Júlio Andrade como o filho careta Overall. Já Zé Victor Castiel e Sepé Tiaraju defendem bem seus Wood e Stock, respectivamente. Fechando os elogios sonoros, a trilha com diversas músicas de Júpiter Maçã acerta em cheio por casar a psicodelia do ex-cascavelette com a loucura hippie do longa-metragem. Faixas dos Mutantes foram pensadas originalmente para figurar na trilha, mas o valor proibitivo dos direitos das músicas fizeram com que os produtores seguissem outro caminho - acertado, felizmente.

Para quem ficou curioso quanto a sinopse, lá vai: Em 1972, durante a festa de ano novo, os ripongas Wood, Stock, Rê Bordosa, Lady Jane, entre outros, estão comemorando a virada, com muito sexo, drogas e rock'n'roll. Trinta anos depois, as coisas estão um pouco mudadas. Com responsabilidades, os hippies de meia idade não sabem direito como se virar. Para relembrar os velhos tempos, Wood e Stock resolvem remontar sua banda da juventude, para ver se descolam uma grana. Enquanto isso, uma serial fucker tem acabado com a população masculina do local. Quem será a pervertida por trás disso?

Bem escrito e com algumas piadas que funcionam, a falta de ritmo é o único problema de Wood & Stock. Em alguns momentos, a narrativa quase rasteja. Mesmo tendo apenas 81 minutos, a impressão que fica é que o longa poderia ter uma duração ainda mais curta, para não perder tanto o fôlego. De qualquer forma, é magnífico ver que uma produção adulta deste calibre tenha sido produzida no Brasil.

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é crítico de cinema, membro da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul. Jornalista, produz e apresenta o programa de cinema Moviola, transmitido pela Rádio Unisinos FM 103.3. É também editor do blog Paradoxo.
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