Crítica

Vida foi feito por fãs de Alien: O Oitavo Passageiro (1978). Isso está muito claro em cada frame do longa-metragem de Daniel Espinosa. Espanta, inclusive, que não tenhamos sete tripulantes na estação espacial para que a soma seja igual a do clássico de sci-fi e horror de Ridley Scott. Até onde vai a homenagem, e a partir de que ponto começa a cópia? Para os produtores deste longa, os limites parecem ser bem maleáveis.

Com roteiro de Rhett Reese e Paul Wernick, os mesmos dos sucessos Zumbilândia (2009) e Deadpool (2016), Vida mostra a descoberta de vida em Marte, numa estação espacial internacional. Nela, trabalham seis astronautas: os americanos Rory Adams (Ryan Reynolds) e David Jordan (Jake Gyllenhaal), os britânicos Miranda North (Rebecca Ferguson) e Hugh Derry (Ariyon Bakare), o japonês Sho Murakami (Hiroyuki Sanada) e a russa Ekaterina Golovkina (Olga Dihovichnaya). Essa “vida” é um organismo diminuto, concebido em laboratório por Hugh, que se espanta com a velocidade de crescimento do seu novo “amigo”. A notícia dessa conquista chega à Terra com grande estrondo. Um concurso escolar dá ao primeiro marciano seu nome: Calvin. Com a progressão da pesquisa no espaço e a evolução impressionante do novo tripulante, não demora para os astronautas descobrirem que esse achado da ciência, na verdade, é uma ameaça às suas vidas.

O filme começa muito bem. Uma das primeiras cenas é um grande plano-sequência no qual conhecemos os seis personagens centrais e entendemos um pouco da dinâmica do grupo. Eles precisam interceptar o material extraído de Marte e têm apenas uma chance para tanto. Na tarefa, o falastrão Rory realiza seu trabalho com perfeição. Muitos cineastas se sentiram impelidos a colocar suas câmeras fora da estação especial e mostrar com detalhes essa função. Com os efeitos visuais de hoje em dia, tarefa fácil. Espinosa, no entanto, nos deixa junto do restante da tripulação, com apenas uma pequena janela para acompanharmos a ação. Já assistimos a zilhares de filmes no espaço e, tudo indica, o diretor sabia que não surpreenderia apontando suas lentes para esse momento. Outra ideia que funciona são as dicas falsas inclusas no roteiro, para que tenhamos a impressão de que a história penderia para um lado – indo para outro, diverso. O desfecho é um bom exemplo disso. Sabemos que uma continuação sempre está nos planos dos produtores atuais. Portanto, já esperávamos um gancho. Mas não, necessariamente, o que nos é entregue.

Quanto ao elenco, temos ótimos atores defendendo seus personagens, mas nenhum deles causa uma impressão muito forte no espectador. Eles nem chegam a ser estereótipos, pois não há tempo para conhecê-los muito bem. O que importa para o filme é a concepção daquela forma de vida alienígena que exterminará os tripulantes. Calvin, ao menos, parece realmente ameaçador. Veloz e extremamente ágil, o marciano é todo músculos, cérebro e olhos – como uma das pessoas o define. Temos algumas boas cenas de horror com aquele marciano caçando os humanos na estação espacial. Vida, no fim das contas, não chega a ser um filme ruim. É bastante derivativo, mas pode agradar a quem nunca assistiu às produções para as quais ele paga tributo. Ou mesmo a quem as assistiu e não se importa de conferir um trabalho um tanto requentado. Por não conseguir atingir as notas altas das obras que, vá lá, homenageia, Vida fica no meio do caminho. Se fizer dinheiro, a futura continuação pode seguir uma trilha diferente e surpreender positivamente.

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é crítico de cinema, membro da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul. Jornalista, produz e apresenta o programa de cinema Moviola, transmitido pela Rádio Unisinos FM 103.3. É também editor do blog Paradoxo.
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