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Sinopse

Hassan Fazil está em busca de um refúgio, após ter sido forçado a deixar o Afeganistão, em razão da realização de um documentário televisivo com um líder do Taleban que resolveu abandonar a violência. Usando telefones celulares, ele e sua família registraram suas experiências enquanto passavam de um país para outro, geralmente aguardando meses pelo resultado de mais um pedido de visto.

Crítica

O simples fato de fazer cinema constitui, para os diretores Hassan Fazili e Fatima Hossaini, um ato de resistência. Como Fazili está jurado de morte pelos Talibãs após fazer um filme sobre um membro do grupo extremista, ele se vê obrigado a fugir do Afeganistão sem destino preciso. Em resposta ao filme proibido, faz outro filme, sobre si mesmo e sua família, utilizando apenas três telefones celulares caseiros. Assim, registra dia após dia o calvário da fuga, a necessidade de dormir com as filhas pequenas em florestas escuras, em campos de refugiados, em prédios abandonados. Viajante da Meia-Noite pode parecer um road movie no início, mas como lembra a filha mais velha do casal, esta é “uma viagem à beira do inferno”.

As imagens, a princípio, podem soar descritivas e lineares demais. A câmera busca o arrumar de malas, as crianças brincando, as pausas para refeições, os longos trajetos no carro. Uma das meninas comporta-se como num descompromissado passeio de férias através das cidades descobertas. Aos poucos, no entanto, a dura realidade toma conta da narrativa. É preciso abandonar cada novo país, os pedidos de asilo são negados, as condições de estadia são precárias, o preconceito contra refugiados representa uma ameaça real, sem falar nos contrabandistas que extorquem a família durante as passagens. Gradativamente, o tempo começa a pesar, a indefinição quanto ao pedido de asilo provoca um desgaste psicológico considerável, e os personagens se ressentem de terem uma casa para onde voltar.

O fato de representar a si mesmo e à família oferece um desafio ético considerável ao diretor que, felizmente, possui consciência de sua responsabilidade enquanto artista e personagem. Graças à intimidade com os familiares, Fazili mantém a câmera ligada o tempo inteiro, em busca de boas cenas que representem sua trajetória, enquanto indaga o valor destas imagens – vide a cena emocionante em que cogita desligar a câmera para privilegiar a família em detrimento do filme. Ao invés de se posicionarem enquanto vítimas, resistentes a um sistema opressor ou representantes da liberdade de expressão, os cineastas se fazem discretos, narrando a trajetória de modo fatual, uma vez que os percalços carregam por si próprios um peso emocional considerável. Qualquer reforço destes instantes com trilha sonora ou depoimentos lacrimosos, por exemplo, tornaria óbvio um conteúdo suficientemente claro.

Enquanto isso, o projeto insere discretamente alguns elementos de atrito, como uma sequência de imagens turísticas, para evidenciar o abismo existente entre a viagem voluntária e o exílio imposto à família, e símbolos destinados a representar o estado de clausura do grupo nômade. A falsa impressão de liberdade é diluída pelos quartos minúsculos dos campos de refugiados, as zonas de transição entre países, cercadas de arame farpado, e a necessidade de se esconder nas casas temporárias devido às ameaças xenofóbicas nas ruas. Paralelamente, a trilha sonora oferece leves distorções eletrônicas e efeitos de estática, em teor minimalista. Talvez o grande trunfo conceitual do documentário seja narrar o calvário político nos moldes do “filme de férias”, com direito a letreiros de países e contagem de dias exibidos na tela.

Deste modo, os criadores obtêm o máximo de distanciamento possível dentro de um projeto tão pessoal – os letreiros referem a eles mesmos como “a família”, na terceira pessoa – enquanto esta trajetória específica se transforma numa representação metonímica. Através desta família específica, retrata-se um grupo muito maior de artistas, políticos e livre pensadores obrigados a saírem de seu país por pressões políticas. Dentro de uma narrativa surpreendentemente leve para um tema tão grave, Fazili e Hossaini discutem a religião, as diferenças culturais, a questão das fronteiras, a livre expressão cultural e artística, a família patriarcal, as diferenças entre gerações... Viajante da Meia-Noite foge assim à mera intenção de homenagem ou registro para a posteridade, inscrevendo-se numa realidade urgente.

Filme visto na 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em outubro de 2019.

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Crítico de cinema desde 2004, membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema). Mestre em teoria de cinema pela Universidade Sorbonne Nouvelle - Paris III. Passagem por veículos como AdoroCinema, Le Monde Diplomatique Brasil e Rua - Revista Universitária do Audiovisual. Professor de cursos sobre o audiovisual e autor de artigos sobre o cinema. Editor do Papo de Cinema.
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