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Sinopse
Em Um. Natal. Surreal., Claire Clauster é quem mantém a família unida nas festas de fim de ano. Mas, desta vez, depois de organizar um passeio especial, a família comete um erro e acaba esquecendo a matriarca sozinha em casa. Cansada e sentindo-se pouco valorizada, ela decide embarcar numa aventura inesperada. Comédia.
Crítica
Das grandes estrelas de Hollywood de algumas décadas atrás que parecem ter “perdido o bonde” e falhado em obter o reconhecimento que de fato mereciam, talvez nenhum exemplo seja melhor do que Glenn Close (Amy Adams, ainda chegará a sua vez). Há algumas que simplesmente parecem ter ficado pelo caminho, ou mesmo desistido. Michelle Pfeiffer, a verdadeira razão de existir desse Um. Natal. Surreal., é, inegavelmente, uma delas. Dona de três indicações ao Oscar, todas recebidas em um intervalo de cinco anos, entre 1989 e 1993, prometia alcançar um respeito crítico até hoje não se confirmou.
E não que tenha deixado de tentar. Seu último esforço nesse sentido foi Saída à Francesa (2020), que lhe rendeu uma indicação ao Globo de Ouro. E mesmo que durante todo esse período volta e meia tenha perdido seu tempo com projetos descartáveis como Nunca é tarde para amar (2007) ou Noite de Ano Novo (2011), nada parece ser pior do que esse Um. Natal. Surreal., que pode ser tranquilamente citado como o ponto mais baixo de uma carreira estelar. E não por culpa dela. A atriz só não recebe chances suficientes para, sozinha, elevar o conjunto de uma inevitável mediocridade.
Para começar, há uma absoluta ausência do que ambiciona ser dito por parte do diretor Michael Showalter. Se no passado ele conseguiu oferecer um carinho à Sally Field com Doris: Redescobrindo o Amor (2015) e garantiu até mesmo atenção do Oscar com Doentes de Amor (2017) e o irregular Os Olhos de Tammy Faye (2021), os seguintes Alerta de Spoiler (2024) e Uma Ideia de Você (2024) apenas prometeram, sem entregar resultados à altura. O mesmo se repete nesse Um. Natal. Surreal., cujo maior espanto foi ter conseguido angariar um grupo de nomes notáveis a partir de um fiapo de história mal elaborada e apoiada quase que inteiramente em clichês e em uma diversidade forçada, colocada apenas para evitar protestos, mas sem função na trama.

Pfeiffer aparece como a mãe que se dedica por semanas a fio para oferecer a melhor festividade natalina possível para a família, mas nunca é reconhecida por tamanha entrega. O filme, no entanto, primeiro se apresenta como se estivesse disposto a discutir essa relação tóxica, até mesmo abusiva, e as exigências que reencontros de final de ano acabam gerando. Qual seria o verdadeiro sentido da festa, portanto? Mas assim que essa dúvida se estabelece, o roteiro coescrito pelo diretor em parceria com a estreante Chandler Baker dá uma guinada em outra direção. A pauta, agora, é a independência feminina e a valorização daquela que, sozinha, mantém a casa – e seus agregados – juntos. Muito peso para pouca consequência.
Na metade inicial, Claire (Pfeiffer, que nesse momento se esforça em defender um tipo que nada tem a ver com ela) perdoa a desatenção do marido (Denis Leary, com quem não tem a menor química), a postura ranzinza da filha mais velha (Felicity Jones, cujas atitudes se resumem a um “nunca recebi atenção suficiente da minha mãe”), o comportamento atrapalhado do genro (Jason Schwartzman, desconfortável do início ao fim), as atitudes erráticas do caçula (Dominic Sessa, repetindo o tom arrogante do recente Truque de Mestre: o 3º Ato, 2025) e a inconstância amorosa da filha do meio (Chlöe Grace Moretz, em mais uma personagem queer, após O Mau Exemplo de Cameron Post, 2018).

Ou seja, como essa rápida descrição atesta, ninguém em cena é uma presença real: são apenas propósitos limitados, rasos em intenções e efeitos, contentando-se com as facilidades imediatas que lhes são destinadas. Quando a turma parte para conferir um espetáculo natalino escolhido pela matriarca, mas em meio a confusão terminam por esquecer da autora da ideia – a proposta aqui é emular a mesma ‘bagunça’ de Esqueceram de Mim (1990), sem, é claro, alcançar tais notas – essa se revolta a foge sozinha de casa, em uma reação nada madura e bastante exagerada. Há ainda um programa televisivo e uma vergonha nacional pela qual a família inteira será sujeita, aumentando o tom do constrangimento.
Pfeiffer, a partir do momento em que decide assumir as rédeas de sua história, cresce no enredo e toma para si o protagonismo que desde o início esteve ameaçado pela profusão de filhos e parentes. Porém, nada ganha o desenvolvimento esperado. A rivalidade com a vizinha da casa da frente (Joan Chen, resignando-se apenas a sorrisos e caretas) nunca vai além de uma mera ameaça – qual o sentido do imbróglio envolvendo o roubo de uma vela aromática no shopping? – assim como a participação de Eva Longoria (outra que também não recebe o espaço merecido) fica restrita a um desabafo coletivo, sendo retirada da trama de modo tão inusitado quanto sua inserção. E o que dizer da ótima Danielle Brooks, cuja participação seria vergonhosa, não fosse apenas irrelevante?
As três, como se percebe, ficam responsáveis pela cota racial do elenco, ainda que suas presenças em cena não tenham a menor relevância para o desenrolar dos acontecimentos. Enfim, espantoso mesmo em Um. Natal. Surreal. é ter quem ache que um amontoado de péssimas ideias poderia geral algo minimamente divertido – conceito esse que passa longe de tudo que é exibido. Sem sustentar as bandeiras que tenta sem sucesso levantar, incapaz de explorar os talentos reunidos e frustrando até mesmo como passatempo de férias, a única certeza aqui é que tanto Michelle Pfeiffer, quanto seu público, merecem mais do que algo tão tolo e descartável quanto o que aqui se apresenta.
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Grade crítica
| Crítico | Nota |
|---|---|
| Robledo Milani | 3 |
| Ticiano Osorio | 6 |
| Maria Caú | 2 |
| Alysson Oliveira | 2 |
| Pedro Strazza | 3 |
| MÉDIA | 3.2 |

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