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Sinopse
Em Quinze Dias, Felipe, um garoto tímido que sofre bullying na escola, aguarda ansiosamente pelas férias para se afastar dos colegas e se dedicar aos próprios interesses. Seus planos de tranquilidade mudam quando sua mãe decide hospedar Caio, um vizinho que marcou sua infância e por quem ele ainda nutre sentimentos confusos. Comédia romântica.
Crítica
Felipe está, como dizia a velha canção, “há dois passos do paraíso”. Ou ao menos isso é o que ele pensa. Começadas as férias, tudo o que almeja é ficar no seu quarto, comendo coisas gostosas, assistindo aos seus programas favoritos no computador e não sendo incomodado por ninguém. Nem mesmo pelo calor infernal que faz no verão. Muito menos pelo barulho dos vizinhos que estarão marcando presença quase que diária na piscina do condomínio. E em hipótese alguma pelo Caio, o garoto que mora que andar debaixo e que nem o cumprimenta quando se encontram no elevador do prédio, por exemplo. Mas, como dito acima, isso era o que o menino tímido, de barriga proeminente e gula maior ainda, incerto de suas ambições e próprias belezas, imaginava. E como a vida se encarrega de propor suas ironias por meio de coincidências e acasos, nada do planejado acontecerá durante Quinze Dias, tanto o filme quanto o período de duas semanas ao qual estes personagens terão que conviver um com o outro e, enfim, se (re)conhecer. Um trajeto que é percorrido com cuidado, atenção e uma boa dinâmica, fazendo do conjunto uma surpresa a ser descoberta.

Mais do que uma narrativa voltada a um público de nicho, o longa dirigido por Daniel Lieff assume desde o princípio um discurso universal, permitindo o alcance de sua história aos mais diversos espectadores. Sim, pois se insegurança na adolescência não chega a ser exatamente uma novidade, adiciona-se ao conjunto outros elementos urgentes, como homossexualidade, descoberta do amor, bullying, amor maternal (e paternal), autoestima e a necessidade (ou não) de se assumir, tanto para si, como também para o mundo. Lieff estreou como cineasta com o pouco visto Alice & Só (2020), e recentemente passou por séries como Últimas Férias (2023) e Tremembé (2025), o que aponta para sua diversidade como realizador. Dessa vez assume o partido do seu protagonista, mas evita fazer de Felipe uma vítima. Este é o primeiro dos acertos de um projeto que conta com várias investidas como essa.
Sem seu conhecimento, as mães dos dois combinam de uma receber o filho da outra durante os dias nos quais os pais de Caio irão viajar – e que ele, por algum motivo qualquer, não irá acompanhá-los. Rita é a maior – e melhor – companheira de Felipe, mas ela é mais do que apenas uma “mãe-amiga”: é também uma provedora, que sabe ser autoridade quando preciso, da mesma forma como se mostra disposta a ouvi-lo sempre que necessário. Ou seja, não é ausente. Mas a dinâmica que interessa é entre os dois, e não precisa ser nenhum gênio para que o público se dê conta que será uma jornada do tipo “enemies-to-lovers”, ou seja, inimigos que se tornam amantes. Felipe sente uma antipatia quase gratuita por Caio, e por mais que flashbacks expliquem a origem do sentimento, a relação entre eles é mais longínqua – assim como são profundas as causas do afastamento que eventualmente acabou acontecendo.
Se a direção de arte – que realmente enriqueceu os poucos (e limitados) cenários da trama, dando-lhes personalidade e riqueza em detalhes – e a trilha sonora – que combina um pop contemporâneo que vai de acordo com a audiência jovem ao qual o projeto se dirige – merecem ser observadas como elementos que contribuem para o sucesso da empreitada, há de se falar também da pós-produção (o modo como marcam as passagens dos dias é não apenas criativo, como dialoga com o andar dos acontecimentos) e, é claro, do elenco. Debora Falabella impressiona tanto pela segurança, como pelos (poucos) momentos de fragilidade aos quais permite acesso, e outros nomes igualmente experientes – Mariana Santos, Silvio Guindane, Marcio Vito, Augusto Madeira – se apresentam como sustentação e garantia de espaço para os intérpretes principais.

Pois são esses – e por esses – afinal, que Quinze Dias consegue se elevar de um possível lugar-comum e se colocar como uma aposta não apenas que surpreende pelos altos que entrega, como também pela urgência dos temas que abraça – e defende, sem demagogia ou falso moralismo, mas com franqueza e abertura. Miguel Lallo (Felipe) e Diego Lira (Caio) são ambos estreantes no cinema, e se seguirem mostrando o entrosamento, desenvoltura e carisma que aqui revelam, é de se esperar com boas expectativas o que farão a seguir. Evitando estereótipos fáceis, não fugindo das armadilhas prováveis – e, sim, brincando com elas – ao mesmo tempo em que confirmam um imenso carinho por figuras tão distintas, mas ainda assim donas de uma sintonia fina desejada por muitos, eles são não apenas o coração do filme, mas também o motivo para se envolver – e torcer, é claro – por um final feliz, por mais que se saiba que este há de chegar. Se não na realidade (para tantos, afinal, os números de homofobia registrados no Brasil são alguns dos maiores do mundo), que seja na ficção. Pois é aqui onde os sonhos nascem, e este é um terreno que merece tal plantio. Que assim seja!
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Grade crítica
| Crítico | Nota |
|---|---|
| Robledo Milani | 7 |
| Francisco Carbone | 8 |
| MÉDIA | 7.5 |

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