Crítica

A febre dos Tokusatsus japoneses, que teve seu auge na década de 80, rendeu alguns frutos, ainda que tardios, também nos EUA. O principal deles foi Power Rangers, versão da série nipônica homônima, lançado em 1993, que se tornou um sucesso mundial, gerando dois longas cinematográficos – Power Rangers: O Filme (1995) e Turbo: Power Rangers 2 (1997) – além de inúmeros derivados que, mesmo perdendo fôlego ainda nos anos 90, continuam sendo produzidos até hoje. Vinte anos após a última incursão da franquia nos cinemas, este Power Rangers busca se adaptar ao novo cenário dos filmes de super-heróis hollywoodianos e dialogar com o público contemporâneo, tentando fundamentar e modernizar a mitologia do universo Ranger.

É nesta ambição de abranger reverência, expansão e remodelação que o longa se perde, preso ao impasse entre a nostalgia e o que se supõe novidade, o que gera um produto sem personalidade. A trama segue a premissa do primeiro seriado. Cinco jovens moradores da cidade de Alameda dos Anjos, Jason (Dacre Montgomery), Kimberly (Naomi Scott), Billy (RJ Cyler), Trini (Becky G.) e Zack (Ludi Lin), são escolhidos como os Power Rangers, guerreiros intergalácticos que defendem o universo há milhões de anos. Sob a tutela de Zordon (Bryan Cranston) e ajudados pelo robô Alpha 5 (voz de Bill Hader), eles devem impedir que o Cristal Zeo – mineral protetor de todos os planetas, incluindo a Terra – caia nas mãos da vilã Rita Repulsa (Elizabeth Banks).

Quem comanda a empreitada é o sul-africano Dean Israelite, que emprega parte do estilo utilizado em sua estreia, Projeto Almanaque (2015), emulando a estética found footage. Tal característica surge, amenizada, no uso de câmera na mão, zooms repentinos e cortes bruscos, particularmente nas sequências em que os jovens tentam controlar seus superpoderes recém-adquiridos. Uma escolha que já no trabalho anterior soava derivada do ótimo Poder Sem Limites (2012) e aqui fica ainda mais gritante. Ao longo da projeção, o cineasta investe em outras abordagens para filmar a ação, por vezes tentando demonstrar virtuosismo – no plano-sequência de movimento circular da fuga/acidente automobilístico de Jason – ou enveredando pelo registro frenético similar ao da dupla Mark Neveldine e Brian Taylor, de Adrenalina (2006), porém, sem o mesmo domínio para extrair impacto dessas opções estilísticas.

Tantas variações se estendem também ao tom geral da película, que em certos momentos assume sua veia cartunesca escancarada, como no prólogo na Era Cenozóica que revela a origem dos Zords em forma de dinossauros, de Zordon e de Rita Repulsa. A vilã, aliás, é o principal exemplo dessa aura caricatural, com a qual Elizabeth Banks parece se divertir. Apesar disso, a composição por vezes beirando o grotesco, com toques de horror, destoa do clima inofensivo e cômico da trama. Esse timing humorístico se mostra outro ponto problemático, com piadas nem sempre bem encaixadas. No quesito drama pessoal, que tenta construir para cada Ranger, o tratamento não é muito diferente, soando bastante raso.

Não que se esperasse um estudo de personagem aprofundado, ou um roteiro primando pela lógica, sem soluções fáceis – como a vilã permitindo, inexplicavelmente, que os heróis saiam vivos de uma emboscada. No entanto, para que isso fosse relevado seria necessária uma construção realmente envolvente, o que não ocorre. Mesmo apresentando boas referências ao cinema oitentista para fortalecer a relação entre os Rangers – o grupo de renegados reunidos na detenção escolar, Clube dos Cinco (1985), a aventura na caverna, Os Goonies (1985), ou a utilização de uma versão de Stand By Me, trilha de Conta Comigo (1986), numa passagem emotiva – Israelite não consegue injetar a mesma naturalidade na dinâmica. Os atores não comprometem, mas também não possuem maior carisma para se destacar, formando um grupo cuja diversidade se mostra um cumprimento bem-vindo de exigência atual, porém protocolar, sem grandes desdobramentos.

Se alongando na tentativa falha de criar a ligação entre os protagonistas e o público, o diretor concentra praticamente todas as sequências de ação num grandiloquente ato final, apressado e mal resolvido, particularmente no que tange aos atributos estéticos. O design das armaduras do Rangers, assim como o de Goldar – o capanga dourado de Rita – e do Megazord são questionáveis, não impressionando como deveriam. Alguns efeitos especiais deixam a desejar – no que até poderia, mas não parece, ser uma homenagem ao visual “kitsch” da série original – e a destruição em massa da batalha com os Zords, que remete à franquia Transformers, com direito a piada, não chega a empolgar. Em raros momentos Israelite busca dar peso ao embate, nos movimentos lentos do Megazord e de Goldar, mas, ainda assim, fica muito distante da noção de escala, proporção e poder de encantamento de Círculo de Fogo (2013), por exemplo.

Assim, resta apenas o apelo à memória afetiva dos fãs, que encontram deleite nos bonecos de massa, na luta na pedreira, em frases como o “Ai ai ai”  de Alpha ou “Hora de Morfar”, na menção a um querido personagem na cena pós-créditos, na participação relâmpago de dois atores do elenco original ou no uso do tema Go Go Power Rangers. Porém, essas recompensas nostálgicas não são suficientes para sustentar o longa, que tenta alcançar diversos públicos sem se agarrar plenamente a algum, já que espectadores mais jovens desapegados das citações clássicas não encontram diferenciais cativantes. Enquanto determinados remakes/reboots atingem um bom equilíbrio entre o culto ao clássico e a inovação, como os novos Star Wars, Star Trek’s ou até Creed: Nascido Para Lutar (2015), Power Rangers cai na vala da genericidade, sem forças para se erguer como algo distinto.

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é formado em Publicidade e Propaganda pelo Mackenzie – SP. Escreve sobre cinema no blog Olhares em Película (olharesempelicula.wordpress.com) e para o site Cult Cultura (cultcultura.com.br).
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