Crítica


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Sinopse

Após os eventos de Capitão América: Guerra Civil (2016), o príncipe T’Challa volta para sua casa na isolada e tecnologicamente desenvolvida nação africana de Wakanda, para assumir seu lugar como Rei. Entretanto, quando um velho inimigo reaparece, a fibra de T’Challa tanto como Rei quanto como o herói Pantera Negra é testada. Ele é levado a um conflito que coloca o destino de Wakanda e do mundo em risco.

Crítica

O cineasta Ryan Coogler tangencia a realidade após ilustrar a história lendária que o então monarca de Wakanda conta ao filho para revelar-lhe as origens desse misterioso reino africano. Numa quadra de basquete dos Estados Unidos, meninos negros estão em plena recreação enquanto um episódio importante acontece nas cercanias. As ressonâncias e consequências dele são vistas, paulatinamente, durante o desenvolvimento de Pantera Negra. O primeiro mérito deste longa-metragem, a ser amplamente ressaltado, é a dispensa de expedientes que promovam uma ligação constante com o Universo Marvel. Portanto, não espere easter eggs espalhados ao longo do filme ou a aparição de outros super-heróis para dar conta do conflito. A ameaça, tampouco, é global ou grandiloquente, como em outros exemplares que levam o selo do estúdio/editora, todavia possuindo potencial para influenciar o destino da humanidade. Embora estejamos falando de uma superprodução, cara e repleta de efeitos especiais, há um cuidado visível com o enredo.

Esse esmero não é apenas imagético, mas dramaturgicamente reconhecível e louvável, haja vista a disposição de Coogler em criar um robusto filme de origem, especificamente no que tange ao reinado de T’Challa (Chadwick Boseman), jovem convocado a assumir o trono assim que seu pai morre num atentado – fatalidade testemunhada em Capitão América: Guerra Civil (2016). Antes de utilizar as dúvidas inerentes ao ganho repentino de responsabilidade para desenhar os dilemas que atravessam o protagonista, de cunho tanto administrativo quanto pessoal, o cineasta capricha na construção da mítica de Wakanda, reino altamente tecnológico que aos olhos do mundo não passa de uma nação terceiro-mundista e subdesenvolvida. Novamente buscando dados na realidade, Coogler celebra as tradições africanas, principalmente as de ordem tribal, obviamente as adaptando para a dimensão pop à qual Pantera Negra está subordinado. É sintomático disso o ritual do desafio, à beira do precipício, em que digladiam os aspirantes ao trono.

A personalidade de Pantera Negra advém exatamente dos detalhes e das bem-vindas pontes com o real, sem, contudo, permitir que estas entravem o entretenimento. Klaue (Andy Serkis) cumpre bem a função de vilão de primeira instância, se apresentando como mero e violento produto do submundo, sem motivações além das financeiras. Mas, assim que Erik (Michael B. Jordan) se revela o verdadeiro antagonista do longa-metragem, há um acréscimo de densidade, sobretudo no que diz respeito às engrenagens palacianas. A consanguinidade, a partir daí, acrescenta drama aos movimentos de guerra, às visões de mundo diametralmente opostas. De um lado, um rei dividido entre a tradição da autossuficiência e a urgência de expandir fronteiras para compartilhar sabedoria. Do outro, um postulante ao trono, cuja tragédia é genuína, o que lhe confere camadas substanciais. A ação permanece quase sempre circunscrita nos limites de Wakanda.

Erik é o personagem que estabelece os elos mais sólidos entre a delineação ficcional e a realidade. Sua índole corrompida é, de certa maneira, fruto de séculos de violência contra a população negra. Sua ira é, embora absolutamente reprovável, digna de algum grau de compreensão. Pantera Negra não é somente comandado por um cineasta negro e interpretado por um elenco praticamente todo negro, já que traz para o âmbito mainstream, em meio a sequências de batalha, algumas empolgantes, outras mais protocolares, traços de uma cultura poucas vezes contemplada dessa forma, em produtos de massa. Nakia (Lupita Nyong'o), interesse amoroso de T’Challa, Okoye (Danai Gurira), general do exército de Wakanda, e Shuri (Letitia Wright), princesa que detém o conhecimento, são mulheres fortes, de contribuição vital ao conturbado processo de sucessão que transcorre durante a trama. Em suma, a urgência pela ampliação da representatividade, inclusive no que concerne às figuras heroicas, aqui é contemplada com qualidade e vigor.

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é crítico de cinema, membro da ACCRJ (Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro) e da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema,). É, também, professor da Escola de Cinema Darcy Ribeiro/RJ.
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