Crítica

Domingos Oliveira nunca utilizou tão descaradamente Woody Allen como fonte. Desta vez, até os créditos são tais quais os do cineasta em todos os seus filmes, aquela letra branca com serifa sobre um fundo preto. Porém, é esta mesma inspiração assumida que acaba por tirar um pouco do encanto que o novo Paixão e Acaso (2012) poderia ter, lembrando obras menores do autor hollywoodiano e do próprio Oliveira. Há aquela máxima que “um Allen mediano é melhor que muita coisa”, mas aqui a mão ficou pesada demais, deixando um resultado aquém do esperado.

A simples trama neurótica travestida de comédia romântica conta a história de Inês, uma psicanalista que há três anos sem namorar ou ter qualquer tipo de relação sexual acaba apaixonada por dois homens de idades completamente diferentes. O detalhe é que Fábio (Pedro Furtado) e Bento (Aderbal Freire Filho) são filho e pai. E a ironia maior é que nenhum dos dois sabe da existência um do outro na vida da namorada, assim como a própria Inês também não: ela só sabe que deve jogar com as duas relações alternando dias e horários para que tudo dê certo. O que, obviamente, não durará muito tempo.

Para completar o jogo de personagens desajustados e continuando as referências ao diretor norte-americano, Oliveira apresenta ainda dois pacientes de Inês: Tavares, um endividado marido que não sabe como agradar a esposa e realizar os sonhos do filho, e Otávio, um quase idoso que vive de acordo com sua agenda e que se altera quando toca no assunto da filha, que tem um caso com o vizinho casado. Ambos pretendem servir de contraponto às relações de Inês, mas apesar de divertidos (especialmente Tavares), não contribuem muito com o roteiro além de uma simples “encheção de linguiça”. Para fechar este ciclo, há ainda o chato narrador que é para ser “engraçadinho”, mas não tem graça nenhuma, e o melhor deles: o pai de Inês, um fantasma que dá conselhos para a filha.

Com um roteiro (do próprio diretor) repleto de falhas, apesar de diálogos interessantes, ora engraçados, ora provocativos, Paixão e Acaso termina por se tornar um filme de algumas cenas que valem o ingresso. Desde o primeiro encontro de Inês e Fábio na livraria onde o rapaz trabalha, em que a paixão entre os dois é contada através de capas de livros, ao stand up comedy da melhor amiga da protagonista, uma cantora e atriz bêbada que conta sua vida ao público de forma extremamente sarcástica. Apesar de alguns destaques, o elenco está irregular e, por vezes, parece mais ler as falas do que interpretá-las.

Talvez estas falhas do filme se reflitam pelo modo de produção de Domingos Oliveira desde o início dos anos 2000. Em 12 anos foram seis filmes, uma média que pouquíssimos cineastas brasileiros conseguem. Porém o que poderia ser um privilégio acaba esbarrando na dura realidade do nosso cinema, que tende à escassez de recursos e a demora no lançamento dos projetos. Ao conseguir esta “facilidade” (na falta de palavra melhor), a condução de seus últimos projetos parece apressada demais, transformando o que poderia ser uma original comédia romântica em apenas mais um passatempo. Assim como Woody Allen, que lança um filme novo a cada ano, alguns bons, outros nem tanto, Domingos Oliveira pode até fazer rir com este Paixão e Acaso, mas nada que vá durar mais que seus quase noventa minutos de tela.

As duas abas seguintes alteram o conteúdo abaixo.
avatar
é crítico de cinema, apresentador do Espaço Público Cinema exibido nas TVAL-RS e TVE e membro da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul. Jornalista e especialista em Cinema Expandido pela PUCRS.
avatar

Últimos artigos deMatheus Bonez (Ver Tudo)

Veja também

Comentários