Crítica


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Sinopse

Chantageados e enganados por um ambicioso tranbiqueiro, Toinho, Ray Van, Pilôra e Romeu precisam organizar uma festa inesquecível de casamento sem nenhum dinheiro no bolso. Caso falhem, terão que lidar com o maior contrabandista da famosa rua 25 de Março em São Paulo, que é também o pai da noiva.

Crítica

Não há nada de errado com o humor absurdo, aquele que se dá em meio a situações ilógicas, subversivo à ordem natural das coisas. Todavia, para que esse tipo de abordagem funcione, não basta apenas apostar no disparate puro e simples, é preciso uma construção ampla que respalde a instauração das incongruências. Os Parças, mais recente realização do cineasta Halder Gomes, quer apostar na descrença em qualquer nexo, não por conter impulsos anárquicos, mas por enfileirar situações completamente ridículas, formando uma desabalada e cansativa carreira de piadas sem graça, quando não de muito mau gosto. Portanto, é uma pontinha de esperança logo esvaída a montagem instigante que abre o filme, na qual imagens de pessoas trabalhando como podem na rua são intercaladas com as da desigual São Paulo. Esse lampejo de inspiração é uma centelha fugaz que sequer consegue iluminar de maneira precária o percurso errático iniciado com o improvável encontro no centro da capital paulista.

Para ilustrar a falta de tato predominante em Os Parças, basta uma análise do episódio que promove o ajuntamento dos quatro protagonistas. Toinho (Tom Cavalcante) é um funcionário terceirizado que anuncia as promoções de uma loja na famosa Rua 25 de Março. A revelação de seu caso com a esposa do patrão – numa cena cuja prevalência do viés atrapalhado se dá de forma a acentuar a sua fragilidade – provoca a ira do marido traído que, então, pega uma arma e sai disparando no encalço do amante. Inexplicavelmente, uma horda de pessoas se junta à perseguição, formando um comboio que faz Ray Van (Whindersson Nunes), Pilôra (Tirullipa) e Romeu (Bruno de Luca) se refugiarem na empresa de casamentos do picareta Mário (Oscar Magrini). Dali para todos serem recrutados à produção do enlace da filha do rei da contravenção local é um pulo. Tudo acontece rápido demais neste longa-metragem que nos solicita um desprendimento hercúleo para soar mínima e insuficientemente coerente.

O cardápio de besteiras de Os Parças inclui grandes marginais contratando serviços de casamento pela internet, sem a mínima preocupação com sua segurança ou vulnerabilidade; a estrutura da festa sendo conseguida, a despeito das passagens que tencionam apresentar a penúria de recursos e o jogo de cintura dos protagonistas; a inserção de personagens e situações completamente deslocadas, haja vista a cena com Milhem Cortaz, um óvni de seriedade dentro de um filme norteado pelo humor rasteiro e, muitas vezes, chulo. Tom Cavalcante, a bem da verdade, é a figura central, aquela que chama para si a responsabilidade de liderar um time de garotos. O excesso de caretas e a necessidade de “brilhar” em momentos servidores de veículo ao cômico como imitador tornam o todo refém de um esquema frágil demais para permanecer em pé. Whindersson e Tirullipa são meras escadas, enquanto Bruno está no time somente para dar algum contraponto de seriedade aos demais.

No que tange à representação da mulher, Os Parças é igualmente problemático. Na telona há simplesmente a adúltera, a patricinha, a loira burra, ou seja, arquétipos sem subjetividade. Em que pese, ainda, a grosseria de determinados momentos, no que concerne tanto à concepção quanto ao conteúdo, temos um filme tentando acessar a tradição das comédias absurdas, mas fazendo-o pelas vias mais simples. Destituído de graça, excessivamente focado nos instantes, como se eles fossem esquetes praticamente isolados, o filme caminha inexoravelmente à vala comum dos exemplares bem abaixo da média de qualidade. Halder força a barra ao nos propor que acreditemos, por exemplo, na semelhança entre Tom Cavalcante e Fábio Júnior ou na possibilidade de Tirullipa e Whindersson se passarem por mulheres fazendo strip-tease. Além de tudo isso, existe, também, uma fajuta recorrência de citações à operação Lava Jato, às delações premiadas, numa tentativa de alinhamento com a atualidade, tão malfadada quanto o esforço para provocar riso no espectador.

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é crítico de cinema, membro da ACCRJ (Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro) e da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema,). É, também, professor da Escola de Cinema Darcy Ribeiro/RJ.
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