Obsessão

Crítica


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Sinopse

Em Obsessão, um jovem romântico quebra o misterioso “One Wish Willow” na tentativa de conquistar a pessoa por quem é apaixonado. Embora o desejo pareça se realizar, ele passa a perceber que a mudança traz consequências inquietantes e cada vez mais perigosas. Suspense.

Crítica

Há duas verdades universais nas quais a trama de Obsessão, filme-fenômeno de 2026, se baseia. A primeira vem direto do clássico – clichê, meloso, mas ainda assim referência – O Pequeno Príncipe, de Saint-Exupéry, que afirma que “você é responsável por aquilo de cativa”, seja esse envolvimento intencional (principalmente) ou não. Já a segunda vem do ditado popular “cuidado com o que você deseja”, geralmente seguido por um “pois você pode acabar conseguindo”. Quando se quer muito alguma coisa, o empenho pessoal estará direcionado a alcançar tal resultado. Porém, uma vez no domínio desse desejo, o que fazer com ele? Como tratá-lo? E qual passo deve ser dado a seguir? Pois é esse o dilema vivido por Bear (Michael Johnston), um rapaz tímido apaixonado pela melhor amiga. O que tinha tudo para ser apenas mais uma história de amor, se transforma em um desespero aterrorizante por meio de um toque de mágica. No recheio, porém, estão doses de crítica social, reflexões sobre misoginia e masculinidade tóxica e apontamentos sobre politicamente correto. Detalhes que elevam o conjunto a outro patamar pela coragem e objetividade em abordar tais elementos.

20260615 obsessao filme papo de cinema

Bear não queria, mas acabou sendo relegado a uma friend zone – sendo visto apenas como amigo, e não como possível interesse romântico – por Nikki, sua colega de trabalho e companhia constante. Os dois estão sempre juntos, ele alimentando carinho, admiração e desejo que, por timidez ou insegurança, simplesmente não se permite manifestar de forma explícita. Ela, por sua vez, tinha nele um confidente, um parceiro de conversas, planos e sonhos. Quando a angústia que toma conta do rapaz não pode mais ser contida, passa a ficar visível também a ela, que o questiona abertamente: “você tem algo a me dizer? Você gosta de mim?”. Sim, ela pergunta com todas as letras. Mas o covarde, temeroso por perder aquilo que, enfim, nem mesmo tem, nega. A garota vira as costas e o deixa para trás. Frustrado, ele murmura para si mesmo: “quero que Nikki goste de mim mais do que qualquer outra coisa nessa vida”. Como qualquer apaixonado na mesma situação já fez antes. A diferença é que, dessa vez, estava em sua mão um apetrecho mágico, um ‘One Wish Willow’ – conhecido por aqui como ‘Salgueiro dos Desejos’ – que comprou numa loja de bugigangas. Nunca pensou que fosse, de fato, funcionar. Mas seu desejo acabou sendo, enfim, atendido.

Filmes que partem da mesma premissa são muitos, e de diversos gêneros. Não está aqui, portanto, a originalidade esperada em Obsessão, primeiro longa do diretor e roteirista Curry Barker a ser lançado nos cinemas (ele dirigiu um outro, Milk & Serial, de 2024, que foi disponibilizado diretamente na internet, e um punhado de curtas). O que despertou tamanho interesse por esse projeto recente é a abordagem direta do realizador de apenas 26 anos, que evita clichês comuns ao gênero do terror, ao mesmo tempo em que faz uso deliberado de outros sem recair em armadilhas facilitadoras. Por exemplo, a iluminação é por demais escura, enviesada, oblíqua. Mas não para proporcionar mais um jumpscare, e sim posta em cena para incentivar a imaginação do espectador, que se descobre tão preso quanto o protagonista no pesadelo ao qual esse se vê submetido. Pois a partir do momento em que Nikki declara seu novo e recém-descoberto amor, nada mais será capaz de fazê-la mudar de ideia. Nem mesmo o autor do pedido.

Michael Johnston, que até então havia participado de alguns episódios de séries como Teen Wolf (2015-2017) e Supergirl (2018), faz de Bear o retrato do jovem que se acredita inocente, dono de boas intenções e profundamente dedicado, mas que por trás de toda essa cortina de fumaça é apenas mais um macho dominador que anseia por estar no controle do que lhe acontece – e se isso incluir a pessoa mais próxima, que assim seja. A obstinação de Nikki em estar ao seu lado vai se tornando progressivamente doentia, assustadora e até mesmo violenta. Mas nada que o leve a um arrependimento capaz de se responsabilizar pelo que está acontecendo. Nem mesmo quando descobre que a mulher por ele envolvida é apenas uma máscara, um produto obrigado por esse contexto fantasioso, e que dentro dela, abafada a ponto de quase deixar de existir, ainda resiste a verdadeira Nikki. Essa, em relances iniciais, tenta se expressar em busca de ajuda. Quando esses esforços esporádicos se confirmam nulos, a ela resta apenas desistir. E nem mesmo diante disso ele lhe será misericordioso. Vilões e mocinhos, porém, não se fazem presentes de forma declarada. Os que por aqui transitam assim o fazem por meio da dissimulação. É preciso estar atento para identificar suas verdadeiras cores – e intenções.

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É importante não desviar os olhos de Inde Navarrette (Superman e Lois, 2021-2024), a intérprete de Nikki. Está na habilidade da atriz o quão profundo será o mergulho no caos e desespero dessa personagem, indo do medo à ameaça em uma mesma cena, sem recorrer à efeitos de maquiagem ou edição. Sem contar com diálogos por demais expositivos – certas motivações entre os personagens apenas mais adiante na trama serão esclarecidas – e abrindo mão de ocorrências paralelas que poderiam gerar ruídos desnecessários, Obsessão se mostra certeiro pelo pouco que apresenta – um tiro apenas, mas objetivo e transformador – sem perder tempo em abranger discursos ou temáticas que aqui pouco iriam agregar. O mocinho tem o que merece, à vítima praticamente não lhe restam esperanças, e os demais ao redor de ambos ou não acreditam, ou pouco lhes sobra em termos práticos capaz de fazer algum tipo de diferença. E num cenário tão restrito, até mesmo sobreviver pode levar ao pior dos desfechos.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.

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