Crítica


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Sinopse

O raro talento de se meter em problemas é o legado da família de Kai e Gerda. O que mais você poderia esperar de quem foi criado em montanhas nevadas por trolls? Crescidos, os irmãos se metem em um desastre de proporções globais, tudo para encontrar seus pais, que estão desaparecidos após serem levados pelo Vento do Norte.

Crítica

A franquia russa baseada no conto de Hans Christian Andersen poderia ter sido eclipsada pelo gigantesco sucesso de Frozen: Uma Aventura Congelante (2013), ainda mais depois do sucesso de bilheteria e crítica da aventura da Disney. O primeiro filme, lançado meses antes na Rússia e em outros países, agradou ao público e garantiu uma sequência no ano seguinte. O longa tem uma história desastrosa, mas conseguiu manter a audiência, o que possibilitou a realização desta terceira parte. O Reino Gelado: Fogo e Gelo mescla um pouco da trama dos capítulos anteriores, tanto em suas qualidades quanto seus defeitos. Para as crianças, pode ser divertido. Mas os adultos, provavelmente, acabarão dormindo durante a narrativa.

Nesta nova aventura, Gerda e Kai são lendas no mundo por terem derrotado a Rainha do Gelo em O Reino Gelado (2012). Só que, ao invés de riquezas, eles sobrevivem com pequenos trabalhos, escondendo ao máximo suas identidades. O segredo vai por terra quando os irmãos encontram uma trupe de piratas em suas andanças, em que um deles, Roni, descobre a natureza da dupla e seduz Gerda com a história da Pedra do Desejo, uma antiga lenda dos trolls que ninguém nunca comprovou a veracidade. Porém, a vontade da garota em encontrar seus pais é maior que qualquer coisa, levando-a a se separar do irmão. As coisas ficam ainda mais complicadas quando, sem explicação aparente, Gerda e o jovem pirata adquirem poderes sobre gelo e fogo, respectivamente.

A ideia até parece interessante, mas assim como O Reino Gelado 2 (2014), sofre do mal desenvolvimento da história. A boa notícia é que os irmãos voltam a ser protagonistas do enredo. O foco é na relação familiar. Ou deveria. Assim que Kai e Gerda brigam, pois o garoto quer continuar a vida na incógnita enquanto ela acredita que os pais estejam vivos e pretende descobrir a verdade, a intenção é explorar como eles seguem suas jornadas em separado. Na verdade, não há muito o que contar sobre Kai, já que ele apenas anda pelo mundo ao lado da amiga pirata. O protagonismo fica por conta de Gerda, que vai viver vários percalços ao lado do revoltado Roni, que teve uma infância dura e também quer entender o que houve com sua família. O garoto sofreu bullying e vive tentando comprovar sua coragem perante o mundo. Dos novos, ele é o personagem mais interessante, ainda que caia num clichê mais próximo à conclusão do enredo que quase estraga sua trajetória. Orm, o troll, aqui deixa de lado um pouco suas palhaçadas habituais (ainda que mantenha o bom humor) para explorar mais o passado de seu povo, que tem ligação direta com a tal Pedra do Desejo. Talvez o arco mais eficiente da trama.

Porém, os pontos são mal aprofundados. Ninguém espera um tratado filosófico em um filme voltado para menores, mas o diretor Aleskey Tsitsilin parece não ter entendido em que ponto estão as animações de hoje. Se a fonte principal da história gerou o já citado Frozen, como não esperar algo, no mínimo, próximo das questões levantadas pelo fenômeno da Disney? Até dá pra captar que a relação de Elsa e Anna é emulada através de Kai e Gerda pelo amor entre irmãos, assim como o protagonismo da garota eleva a questão das meninas à frente de produções atuais. Mas as soluções rasas para o desenvolvimento da história colocam tudo a perder. Ainda mais quando ela só se sobressai após os rapazes falharem, sem quase nunca tomar a iniciativa. Ou seja, o longa tenta ser contemporâneo, mas acaba preso no mesmo formato em que as mulheres precisam ser salvas pelos homens.

Além de tudo, a montagem do filme acaba tendo um efeito contrário e pouco proveitoso à qualidade das imagens. Se O Reino Gelado: Fogo e Gelo é a melhor em termos técnicos às sequências anteriores da saga, com mais elementos em cena e cores vivas em relação aos frios cenários de gelo, por outro, alguns amadorismos (como os excessos desnecessários de fade out) prejudicam o andamento da história e causam um efeito de animação feita para a televisão, como um grande episódio estendido. Não é de todo ruim, mas, assim como cada capítulo da franquia, é perceptível que havia mais o que explorar. No entanto, o que fica é que a trilogia virou apenas um caça-níquel pouco preocupado com o encantamento de uma bela história, e sim atrás apenas em soltar o filme nos cinemas numa concepção mercadológica de linha de montagem. Não duvide que faça sucesso por aqui também, ainda mais com a dublagem de nomes conhecidos como Larissa Manoela, mas vai se tornar outro exemplar esquecível num ano em que o gênero está em baixa. Resta aguardar que numa nova continuação (algo que não deve ser difícil de acontecer) os produtores consigam elevar a série a notas mais altas. Sonhar não custa nada.

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é crítico de cinema, apresentador do Espaço Público Cinema exibido nas TVAL-RS e TVE e membro da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul. Jornalista e especialista em Cinema Expandido pela PUCRS.
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