O Menino da Calça Rosa

Crítica


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Sinopse

Em O Menino da Calça Rosa, a vida de Andrea Spezzacatena, um adolescente de 15 anos, é marcada por episódios de bullying e cyberbullying que começam após um incidente aparentemente banal envolvendo uma calça que mudou de cor. Inspirado em história real e no livro escrito por sua mãe, o filme acompanha os desafios enfrentados pelo jovem. Drama.

Crítica

A história é trágica, e uma vez ciente disso, a diretora Margherita Ferri não trata de esconder seu desfecho: quem narra os acontecimentos de O Menino da Calça Rosa é justamente o protagonista, que de imediato deixa claro seu lamento por não estar mais junto aos seus para lidar com o imenso desafio que marcou sua vida. Sim, Andrea Spezzacatena se suicidou logo após ter completado 15 anos de idade, e sua morte gerou uma comoção por toda Itália, a ponto de repercutir até os dias de hoje. Portanto, não faria sentido, de qualquer forma, ainda mais diante do espectador italiano, esconder ou mesmo criar algum tipo de suspense em relação ao seu fim. Porém, a experiência das audiências internacionais, que muito provavelmente estarão estabelecendo o primeiro contato com esse episódio justamente por meio do filme, segue forte, e se por um lado essa antecipação ameniza a crueldade do ocorrido, deixa-se de lado essa busca por “vítimas e culpados”, em nome de uma reflexão mais profunda a respeito. Eis um ganho inesperado que merece ser pontuado.

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Andrea é o primogênito de um casal que, aos trancos e barrancos, consegue preservar o sentimento que tempos atrás o uniu. Eles nem sempre estão em sintonia, e essas discordâncias entre os pais, de um modo ou de outro, terminam por afetar o filhos. São dois, há ainda o caçula. Mas se o segundo pode muito bem ter sido aquela criança que surge numa família como num esforço de cura para uma relação já não tão estável como uma vez fora, o mais velho é o fruto da paixão inicial, aquele desejado pela mãe e pelo pai como resultado de um querer que talvez não mais exista, mas que no menino se manifestou como uma personificação concreta. Bom filho, irmão atencioso e dedicado aos estudos, se mostra uma criança perfeita. Mas são justamente esses, aqueles que soam como mar em calmaria, que melhor escondem a turbulência emocional que afeta a todos durante estes anos de desenvolvimento. E com Andrea não foi diferente.

Inseguro em relação a como se abrir com os pais, vai se fechando em si, aprendendo a ser quieto, tímido, calado. Na escola a situação é similar, e a única conexão que consegue estabelecer é com outra “ovelha desgarrada”, por assim dizer. Sara é independente, segura de si e aparenta não se importar com o que os outros pensam. Sabe-se bem que, em casos assim, a fortaleza que demonstra é resultado de um esforço gigante para não sucumbir em suas próprias incertezas. Mas, ao menos por enquanto, parece ser o suficiente não apenas para ela, mas também para servir de abrigo ao menino que percebe estar sempre sozinho. Ela o acolhe, e os dois se tornam melhores amigos. Compartilham idas ao cinema e se encontram um no outro na hora de matar a aula de educação física. Esse frágil refúgio, no entanto, poderá facilmente se desfazer. Basta um receber de outra fonte qualquer migalha de atenção que nunca ousou imaginar ser possível.

Andrea tem voz de anjo, seus pais têm certeza. Motivada por essa crença, um dia a mãe o leva para um teste num coral. É quando ele conhece outros meninos com a mesma sensibilidade vocal. Entre esses está Christian. O garoto é mais alto, atlético, louro, de rosto fechado e esconde bem suas emoções. O típico bad boy, mas afeito ao canto, dono de uma delicadeza insuspeita, portanto. Uma combinação que muitos encontrariam dificuldade em resistir. E Andrea certamente se vê entre esses que irá sucumbir aos encantos do novo amigo. Uma amizade que parece ser mútua, mas se vê sendo alimentada apenas por um lado. Principalmente após o outro perceber que talvez exista naquela vontade de relação uma intenção mais forte. E o que poderia ser apenas natural, se confirma uma armadilha. Christian arma, calcula, planeja. Não tem pressa, e uma vez com o ego ferido, dedicará à execução de sua vingança cada um dos seus próximos passos. Tecendo a teia que terminará por sufocar seu destinatário. Focado no intuito, sem pesar as consequências. Por piores que essas possam ser.

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Samuele Carrino, o intérprete de Andrea, não é novato – já esteve em uma dezena de projetos, entre longas, séries e curtas-metragens – e se sai bem em dar vida aos dilemas do garoto, por mais que em certas passagens se mostre por demais emotivo. É quase como se compartilhasse com a audiência a certeza de seu destino – ainda que, nesses momentos, esse ainda não fosse uma possibilidade. Andrea Arru (Éramos Crianças, 2024), como Christian, se mostra mais convincente, tanto na sedução, como ao colocar em prática suas reais motivações, manipulando com efeito as atenções do público. Os dois estão no centro de uma dinâmica que envolve a ponto de se ansiar por um desvio, por mais que se saiba bem para o qual lado se encaminha. Ferri e seu roteirista, Roberto Proia (Demais pra Mim, 2020), demonstram cuidado em fazer do processo algo tão rico quanto o início, ou inevitavelmente trágico como o término. O bullying, a incompreensão quanto à homossexualidade na infância e adolescência e a carência emocional que estes personagens enfrentam, sem as ferramentas necessárias para com elas lidar, tornam O Menino da Calça Rosa – o título é uma referência a um episódio menor dentro de um contexto mais complexo – uma obra não apenas urgente, mas necessária para qualquer um com um mínimo de empatia (e preocupação) pelo outro.

Filme visto durante o 13o 8 ½ Festa do Cinema Italiano por Generali, em julho de 2026

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.

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