Crítica


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Sinopse

Bernard Madoff é um ex-consultor financeiro norte-americano que criou uma das maiores empresas de investimentos de Wall Street. Condenado por fraude, ele foi responsável por uma sofisticada operação, nomeada Esquema Ponzi, que é considerada o maior golpe financeiro da história dos EUA.

Crítica

A parceria entre o diretor Barry Levinson e o ator Robert De Niro rendeu alguns frutos interessantes no passado, com Mera Coincidência (1997) sendo a joia da coroa realizada pela dupla. Em seu estilo rápido, contando uma história que podia muito bem ser real (por mais absurda que seja), Levinson e De Niro nos mostraram naquela produção o quanto uma mentira bem contada, com convicção, pode fazer até os mais espertos, os mais safos, caírem como patos. Vinte anos depois, a mentira volta a ser o tema central para esses dois talentosos e oscarizados artistas. A trama é novamente absurda, mas infelizmente real, sobre um golpe que deixou milhares de pessoas sem suas economias, e incontáveis sem suas vidas. Essa é a história de O Mago das Mentiras, telefilme da HBO indicado a quatro prêmios Emmy.

Robert De Niro é Bernie Madoff, sujeito respeitabilíssimo no mercado de ações, tendo sido presidente da NASDAQ e o cabeça de uma firma de investimentos em Wall Street. Seu negócio fazia girar bilhões de dólares, algo que tornava um dos nomes mais quentes do país. Em 2008, quando o mercado entra na famosa crise que colocou o mundo em colapso financeiro, é descoberto que Madoff orquestrou, desde o apagar das luzes dos anos de 1980, um esquema Ponzi – que nada mais é que um golpe do tipo pirâmide. Sua esposa, Ruth (Michelle Pfeiffer), e seus filhos, Andrew (Nathan Darrow) e Mark (Alessandro Nivola), não sabiam daquelas contravenções. Foram os filhos, inclusive, quem entregaram o pai à justiça, ao descobrirem o que havia se passado. No filme, acompanhamos de forma não linear o desenrolar desse caso, a partir do momento em que Madoff dá uma entrevista à jornalista do New York Times Diana B. Henriques, que vive ela mesma no longa. O livro de Diana deu origem ao roteiro do longa-metragem, criado por Sam Levinson, Sam Baum e John Burnham Schwartz.

Diferente das parcerias anteriores entre Levinson e De Niro, O Mago das Mentiras não dá espaço para ironias ou piadas. É um conto bastante sério a respeito daquele golpe e das pessoas que o perpetraram. Em dados momentos, o cineasta beira o documental, quando temos o depoimento de algumas pessoas que trabalhavam com Bernie e que, assim como tantos, não sabiam do esquema. Com exceção de Frank DiPascalli (Hank Azaria), que desde o início tinha ciência das maracutaias e ajudou seu patrão nos planos escusos. Levinson é hábil em, primeiramente, nos mostrar o lado consternado dos personagens, vivendo um momento difícil em suas vidas, para só depois nos apresentar como eram durante os anos de bonança. Assim, vemos o lado autoritário e prepotente de Madoff, da mesma forma como acompanhamos o sexismo repulsivo de Frank.

Depois de amargar alguns papéis fracos no cinema, De Niro encontra neste telefilme um belo personagem para trabalhar. Novamente dividindo a tela com Michelle Pfeiffer, com quem atuou em quatro oportunidades anteriores, o ator se desprende de alguns cacoetes – principalmente quando está na prisão, mostrando um lado vulnerável e desolador. Nos flashbacks, temos o De Niro clássico, com seu padrão de fala conhecido e seu gestual intacto. Mas, por conseguir se libertar disso no momento em que o personagem precisa se encolher, De Niro demonstra estar muito imbuído no papel. Pfeiffer tem menos tempo em tela, mas só cresce conforme a história progride. Tendo vivido na sombra daquele homem durante 50 anos, Ruth se vê consternada ao perder seu porto seguro e o apoio dos filhos. A atriz transmite a tristeza daquela mulher e a força que ela precisou encontrar dentro de si para passar por duros baques que aquela situação causou em sua família.


Embora tenha momentos interessantes e consiga transpor a barreira dos jargões de Wall Street com certa facilidade, O Mago das Mentiras perde pontos por repetir ideias constantemente, fazendo com que os 131 minutos de duração surjam inchados. Levinson martela o quanto os filhos não sabiam de algo, o quanto Bernie fez tudo sozinho, o quanto toda a opinião pública colocou a família como responsável, etc. Era possível ser mais econômico ou até mais contundente. Mas a trama gira em círculos em alguns momentos, com gorduras que poderiam ser cortadas sem prejuízo para a história.

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é crítico de cinema, membro da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul. Jornalista, produz e apresenta o programa de cinema Moviola, transmitido pela Rádio Unisinos FM 103.3. É também editor do blog Paradoxo.
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