Crítica


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Sinopse

Ruy Guerra já era um famoso diretor quando teve um encontro casual com John Wayne. A confissão desse assassinato metafórico abre a caixa de Pandora da obra do mais singular realizador latino-africano de nosso tempo.

Crítica

Um documentário sobre o cineasta Ruy Guerra não poderia ser convencional. Moçambicano radicado no Brasil, o diretor é conhecido por filmes que fogem ao lugar comum, que não entregam tudo de bandeja para o espectador. Longas-metragens como Os Cafajestes (1962), Os Fuzis (1964), Os Deuses e Os Mortos (1970), A Queda (1978), Eréndira (1983), Ópera do Malandro (1986), A Bela Palomera (1987), Kuarup (1989), Estorvo (2000) e Veneno da Madrugada (2005) firmaram Guerra como um dos mais autorais cineastas em atividade no país, com trabalhos sendo exibidos (e premiados) em festivais como o de Berlim e o de Cannes. Com tamanha ficha corrida, e com obra inédita ainda por estrear, Quase Memória (2016), o cineasta serviu como ponto focal do olhar dos seus pupilos Diogo Oliveira e Bruno Laet. Entrevistando o mestre e algumas figuras importantes de sua história, a dupla constrói um ótimo relato intitulado O Homem que Matou John Wayne.

O título é curioso por si só. Em um encontro imaginário entre Ruy Guerra e o astro dos faroestes americanos, o cineasta junta todo seu ódio pelo cinema realizado por lá, com seu discurso colonizador, e desfere um golpe de misericórdia contra o velho Wayne. Explicar mais sobre esse embate estragaria a surpresa de quem conferir o resultado. Mas, não se preocupe. Os documentaristas são claros a respeito do título até seu desfecho. Muito mais do que Ruy Guerra costuma ser em seus filmes, diga-se. O próprio revela que seu cinema pode ser visto como hermético por ele não se preocupar em mastigar tudo para o espectador. Ele quer que o seu público pense através das imagens que mostra – e que não mostra, construindo desta forma o sentido de sua filmografia.

Além de entrevista interessantíssima com Ruy Guerra, O Homem que Matou John Wayne conta com depoimentos de parceiros do artista, sejam gravados para o doc, sejam de arquivo. Dessa forma, vemos o escritor Gabriel Garcia Marquez, o músico Chico Buarque, o cineasta Werner Herzog e o crítico Michel Ciment comentando pontos importantes a respeito da obra de Guerra. O saudoso Gabo, por exemplo, tece comparações entre autores que deixam tudo explícito na tela, construindo assim uma “arte comprometida”, com artistas que não procuram esse didatismo exagerado. O biografado, claro, está nesta segunda categoria. Já Chico relembra a parceria na peça Calabar, escrita pelos dois em 1973. Herzog, por sua vez, pontua a influência criativa que Guerra tem em seu trabalho. São momentos pinçados a dedo, com a fala dos depoentes não se desenrolando por muitos minutos.

Até porque, o personagem principal é Ruy Guerra. Em entrevista gravada para o documentário, ou em imagens do passado, o diretor se mostra em controle absoluto de seu ofício, provando ter a coragem que ele vê ser necessária para realizar sua obra. Oliveira e Laet costuram suas falas com cenas marcantes dos clássicos do diretor, fazendo qualquer cinéfilo ficar com vontade de revisitar sua carreira. Quando não ilustram dessa forma, uma espécie de alterego do homenageado surge em tela, interpretado por Júlio Adrião, em uma performática e poética atuação.

Em um dos momentos irônicos de O Homem que Matou John Wayne, Ruy Guerra diz que cinema é e sempre será uma mentira, com documentários não sendo propícios para mostrar a realidade de forma alguma. “Cinema manipula a realidade”, afirma, observando isso como uma das tantas qualidades da arte. Portanto, não esperem observar o verdadeiro Ruy Guerra neste longa-metragem. Mas, sim, uma versão montada por Diogo Oliveira e Bruno Laet que, com talento e coragem (como dito pelo mestre), produziram uma obra que tem tudo para ser uma porta de entrada para o cinema deste diretor.

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é crítico de cinema, membro da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul. Jornalista, produz e apresenta o programa de cinema Moviola, transmitido pela Rádio Unisinos FM 103.3. É também editor do blog Paradoxo.
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