O Frio da Morte

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Sinopse

Em O Frio da Morte, Barb é uma viúva e proprietária de uma pequena loja de artigos de pesca que parte em uma peregrinação até o Lago Hilda, no remoto norte de Minnesota, EUA, onde viveu momentos marcantes com o marido falecido e pretende espalhar suas cinzas. No caminho, uma forte nevasca a faz se perder pelas estradas da região. Em busca de abrigo, ela encontra uma cabana isolada na floresta e descobre que uma jovem chamada Leah está sendo mantida em cativeiro. Ação/Suspense

Crítica

Ao término de O Frio da Morte, dois caminhos soam possíveis ao espectador em busca por um filme melhor. O primeiro aponta para a opção original dos realizadores para interpretar a protagonista. Se ao invés de Emma Thompson, que é muito boa de papo, mas não tão habilidosa em termos de ação, Sharon Stone tivesse aceitado o convite, seria possível que essa história se resolvesse em menos de 20 minutos, e ao invés de torturar a audiência por mais de uma hora e meia de duração, um simples curta-metragem teria resolvido tudo. Bastaria que a estrela de Instinto Selvagem (1992), que segue dura na queda, como visto no recente Anônimo 2 (2025), encarnasse mais uma vez sua versão badass para que muito dos choramingos, trapalhadas, promessas de última hora, tentativas de salvamento e outros desvios de rota fossem eliminados, apostando numa abordagem direta como solução do problema apresentado. Ou, então, que fosse esse mais um capítulo das aventuras da babá encantada defendida já duas vezes por Thompson. Algo como Nanny McPhee e o Sequestro no Gelo, uma comédia mágica na qual tudo se resolve mesmo diante das piores possiblidades. Pois somente investindo no excesso catártico, ou na fantasia desenfreada, para que tal trama fizesse algum sentido. De outra forma, tal qual se apresenta, o descarte e o absurdo andam lado a lado.

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Senão, vejamos. Emma Thompson segue trabalhando bastante, mas não seria surpresa se revelasse que, ainda assim, está com alguns boletos atrasados. Pois qual outra explicação minimamente razoável que justifique ter concordado em fazer parte de tamanho desastre como esse O Frio da Morte? Nem o título faz algum sentido, quanto mais todo o resto. A atriz vencedora do Oscar faz o que pode com o pouco material que lhe é oferecido, e ainda assim, não consegue evitar a sensação de miscasting, ou seja, de ter sido escalada de forma equivocada para um papel ao qual ela simplesmente não consegue se adequar. Uma Frances McDormand, ou mesmo uma Hilary Swank, poderia ter feito milagre defendendo a viúva Barb, ainda que os maiores problemas desse pacote – a direção insegura de Brian Kirk e o roteiro esquizofrênico da dupla Nicholas Jacobson-Larson e Dalton Leeb – seguissem os mesmos. Entretanto, Thompson segue por outro caminho, dotando sua presença de uma empatia que talvez encontrasse espaço em um drama verborrágico, mas não em um thriller sobre sequestro, assassinatos e agressões em meio a um cenário de pura neve.

Mas não é apenas isso. Kirk, cuja parte mais notável do seu histórico até o momento foi ter dirigido episódios de séries como Game of Thrones (em 2011, durante a primeira temporada) e o recente O Dia do Chacal (2024), não se decide em contar uma história sobre uma garota que se envolve contra sua vontade em um roubo de órgãos humanos que recebe a ajuda de uma idosa sem muito expertise no assunto, e que mesmo assim as duas conseguem lidar de igual para igual com seus oponentes, ou investir em um melodrama romântico dividido entre a mulher solitária enfrentando a dor da despedida e o desespero da profissional doente que recorre a uma solução extrema por meio de uma lógica invertida para tentar se salvar de uma condição aparentemente sem chances de cura. Ou quase isso. Afinal, como tem virado trend nas redes sociais com outros exemplos similares, O Frio da Morte também é um filme cujo enredo não se sustentaria no Brasil, país que possui o SUS, um serviço único de saúde gratuito e universal.

No caminho do lago onde foi pedida em casamento décadas atrás para despejar as cinzas do marido há pouco falecido, Barb se perde e acaba parando para pedir orientações em uma casa caindo aos pedaços. Lá descobre Leah (Laurel Marsden, de O Exorcista do Papa, 2023) trancafiada no porão, amordaçada e algemada. Decidida a salvar a garota, se coloca em rota de colisão com os sequestradores. Porém, esses não fazem parte de um tráfico internacional humanos. Não, são “pessoas do bem”, obrigadas a algo horrível por se verem em desespero. O homem (Marc Menchaca, de Acompanhante Perfeita, 2025) só quer ajudar a esposa, enquanto essa, vivida com gana por Judy Greer, tem suas razões: enfermeira com anos de experiência, está em fase terminal de uma doença que irá matá-la. Sem condições de esperar – ou mesmo bancar – por um transplante, decide reter uma jovem que havia tentado suicídio semanas antes. “Ela não merece viver”, afirma aos gritos ao expor suas ações. E no meio de todo aquele gelo ela presente extrair, sozinha, os órgãos vitais de sua vítima, para que com eles consiga se salvar. Mas é claro que a senhora solitária que cruzou seu caminho não irá permitir que isso aconteça.

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Jacobson-Larson é um compositor experiente em Hollywood, tendo atuado nas trilhas de filmes como O Mundo Depois de Nós (2023) e O Ódio que Você Semeia (2018). Leeb, por sua vez, possui quase duas dezenas de créditos como intérprete em sua filmografia, inclusive fazendo parte do elenco de O Frio da Morte. Não causa espanto descobrir, porém, que este é o primeiro projeto dos dois enquanto roteiristas. Sem desviar de clichês desgastados, abusando de flashbacks que apenas investem numa visão cafona de um romantismo que nada acrescenta ao enredo proposto e incapazes de lidar com erros grotescos que estes personagens jamais cometeriam – deixar uma mensagem explícita na janela? Acreditar na boa fé do bandido? Abrir todas as torneiras com qual propósito? Jogar o próprio carro no lago por qual motivo? Se aliar a dois desconhecidos que surgem no meio da estrada e sem identificações? – eles respondem pelo maior desafio que esse projeto enfrenta em sua tentativa de se conectar com o público. Algo que, por fim, acaba acontecendo por meio do constrangimento e do risível, e não por um eventual envolvimento pontual. Como se percebe, eis um conjunto dominado por emoções rasas, nada frio nessas escolhas, mas de fato uma fria para aqueles que por esse caminho optarem por se aventurar.

As duas abas seguintes alteram o conteúdo abaixo.
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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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