O Beijo da Mulher Aranha

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Sinopse

O Beijo da Mulher Aranha se passa na Argentina de 1983. Enquanto a ditadura militar trava uma campanha brutal contra seus inimigos políticos, dois prisioneiros são forçados a dividir a mesma cela. Valentín, um revolucionário. Molina, um vitrinista gay que cumpre pena por atentado ao pudor. Conforme os dias se transformam em semanas, Um deles começa a contar em detalhes a história de seu filme favorito. Musical.

Crítica

Em tempos de Ainda Estou Aqui (2024) e O Agente Secreto (2025) fazendo bonito em Hollywood, importante lembrar que, muito antes de Walter Salles e Kleber Mendonça Filho, um outro cineasta brasileiro capturou as atenções dos norte-americanos. Sim, pois embora Hector Babenco tenha nascido na Argentina, foi no Brasil que se naturalizou e construiu sua carreira. E se O Beijo da Mulher Aranha – esse ou a versão de 1985 – tem como base o livro do argentino Manuel Puig, o longa que conquistou o Oscar de Melhor Ator para o saudoso William Hurt fora filmado em São Paulo, com personagens coadjuvantes falando em português e com um elenco de apoio formado por grandes nomes nacionais, como Milton Gonçalves, Herson Capri e, obviamente, Sonia Braga. Eis, enfim, um círculo que se completa, fazendo sentido ter agora Jennifer Lopez no papel que rendeu à brasileira uma indicação ao Globo de Ouro – as duas atuaram juntas, como mãe e filha, em Olhar de Anjo (2001) e em Casamento Armado (2022), além de terem dividido a cena também em Cidade do Silêncio (2007). JLo, portanto, seria uma herdeira natural de La Braga. Mas o que aqui faz é mais do que prestar uma homenagem: eis uma verdadeira reinvenção. E muito disso vem da fonte de origem, numa apropriação que combinou respeito com criatividade.

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Se Babenco se ocupou de uma adaptação mais tradicional, transpondo o drama literário para o meio audiovisual, o oscarizado Bill Condon (Melhor Roteiro Adaptado por Deuses e Monstros, 1999) teve outra fonte da qual beber: a versão musical levada à Broadway em 1993 e vencedora de 8 Tonys (o maior prêmio do teatro nos Estados Unidos). Eis, portanto, um filme diferente do anterior, ainda que compreenda a mesma trama. E principal: ainda mais corajoso no desenho de seus protagonistas, suas motivações e consequências de seus atos. Segue tendo como foco dois prisioneiros em um país vivendo sob a exceção de uma ditadura militar. Um é um guerrilheiro oposicionista ao novo regime, o outro é um homossexual cujo crime foi classificado como “atentado ao pudor” (foi pego fazendo sexo com outro homem em um banheiro público). No mundo de hoje, em grande parte do planeta nenhum dos dois estaria atrás das grades. Mas tempos sombrios já foram regra – como ainda são em alguns cantos que insistem em se manter nas trevas. Por isso, voltar à mesma tecla como lembrete e alerta nunca é demais.

Valentin (Diego Luna, no papel que foi de Raul Julia, mantendo a mesma sobriedade e elegância do falecido ator) tem muito o que esconder, e o silêncio faz parte de sua estratégia de sobrevivência. Molina (a revelação Tonatiuh, visto antes em Bagagem de Risco, 2024, e por este desempenho indicado ao Gotham Awards), por sua vez, não se ocupa em apenas reprisar a performance repleta de nuances oferecida por Hurt quatro décadas atrás. Seu personagem é tanto luz quanto trevas, há dor em si, mas também uma ânsia pela vida que por vezes acabará lhe aproximando justamente do sentido oposto. É ele quem acaba sendo subornado pela diretoria do presídio para se aproximar do seu colega de cena e descobrir os segredos que esse guarda consigo. A proximidade de dois homens tão diferentes se mostrará transformadora, não apenas para o período que estarão convivendo lado a lado, mas também para suas ambições futuras.

A chave determinante para que um se permita ser envolvido pelo outro é justamente essa figura tão mística, quanto enigmática: a Mulher Aranha, por vezes vista como Aurora, transbordando glamour de uma velha Hollywood capaz de elevar sonhos e alterar pontos de vista, ou Ingrid Luna, a lutadora que não irá desistir de suas paixões. São diferentes personas de uma só criação, levada à tela com graça e energia por uma Jennifer Lopez imersa nas diversas facetas desta personagem. Seja cantando, dançando ou mesmo envolvendo seus parceiros de cena, cada movimento seu é no mínimo hipnotizante. Seu desdobramento nessas diferentes imagens se mostra ainda mais rico e completo do que a composição permeada por Sonia Braga tantos anos antes. É certo, no entanto, que as missões que ambas receberam eram distintas. Se antes a mulher deveria permanecer nas sombras e servir como o mistério que tanto afasta quanto conecta estes dois homens, agora é ela o deslumbre e o fascínio que estes mesmos precisam mais uma vez redescobrir, para que possam, enfim, continuar.

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É de se lamentar que nos bastidores o andar desse O Beijo da Mulher Aranha tenha se mostrado mais tortuoso do que o da coprodução brasileira e totalmente independente que, mesmo contra todas as possibilidades, garantiu uma até então inédita indicação ao Oscar de Melhor Filme para um título realizado na América do Sul. Pensado como veículo para o estrelato de JLo – e que ela de fato entrega em cena – e produzido por ela em parceria com o namorado da época, Ben Affleck, tais ambições vieram abaixo após a separação do casal, cujo ponto final foi justamente em janeiro de 2025 – quase que em simultâneo com a première mundial do filme no Festival de Sundance. Bill Condon, ele próprio um habitué do gênero – foi responsável pelo roteiro de Chicago (2002) e dirigiu os bem-sucedidos Dreamgirls: Em Busca de um Sonho (2006) e A Bela e a Fera (2017) – não frustra em uma reimaginação atenta ao original e inventiva o suficiente para se mostrar altiva pelos próprios méritos. Mas quando o barulho ao redor de mostra ensurdecedor, há pouco o que fazer para enaltecer o talento em meio a tantas distrações.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.

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