Crítica


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Sinopse

Mike é um surfista de 12 anos. Ele pratica o esporte contra a vontade do pai e do avô, dois austeros astronautas. Porém, quando descobre um plano do maléfico milionário Richard Carson para colonizar a Lua, ele vai ter de usar os conhecimentos científicos dos dois para viajar até lá com seus amigos e impedir o vilão.

Crítica

O diretor Enrique Gato teve uma interessante estreia em longas-metragens de animação com o divertido As Aventuras de Tadeo (2012). Produção espanhola com alto padrão técnico, conquistava o espectador por beber na fonte de personagens como Indiana Jones e Lara Croft, fazendo uma homenagem ao mesmo tempo em que se apropriava de características dos heróis arqueólogos. Agora, em sua segunda produção, No Mundo da Lua, o foco é outro. Saem os caçadores de relíquias e entram os astronautas, outra profissão que costuma ser o sonho de muitas crianças. Embora tenha qualidades técnicas superiores ao trabalho anterior, aqui faltou mais sustância ao roteiro e personagens menos arquetípicos para que pudéssemos curtir a pleno a história a ser contada.

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Mesmo que a Espanha seja o país de origem de No Mundo da Lua, a trama se passa nos Estados Unidos. Quando um inescrupuloso milionário chamado Richard Carson decide empreender uma jornada espacial para a lua desejando provar que o homem nunca lá pisou, a NASA corre para liberar fundos para uma missão na tentativa de desmentir essa falácia. Um dos tripulantes dessa jornada é Scott Goldwing, filho de Frank, um ex-astronauta que, por pouco, não pisou na lua na Apollo 11 e, desde então, se afastou da família, amargurado. Essa cisão familiar pesa para o jovem Mike Goldwing, filho e neto destes astronautas. Ele não parece tão interessado em seguir a carreira da família, visto que seu lugar não é o espaço, mas o mar. Surfista, passa o tempo com seus amigos Marty e Amy, com quem se diverte brincando de pegar a bandeira em meio às ondas. Quando um contratempo acontece e Scott se vê obrigado a deixar a missão, Mike decide reverter a “maldição Goldwing”, de que nenhum homem daquela família conseguiria pisar na lua. Usando de sua esperteza (e de muita sorte), ele tentará assumir essa missão e acabará ganhando a ajuda de um insuspeito parceiro na tarefa.

A questão é a seguinte: diferente de boa parte das animações produzidas atualmente, No Mundo da Lua é, na verdade, um filme para crianças. É bem provável que o público-alvo curta bastante as aventuras de Mike e seus amigos e até consiga se imaginar pilotando uma nave espacial. Mas a plateia adulta, mal-acostumada com a produção atual de filmes para toda a família, tende a não se empolgar tanto com o que vê. Afinal de contas, não estamos falando aqui da Pixar.

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É difícil não fazer comparações com as animações daquele estúdio quando vemos uma produção feita em computador almejando tanto se aproximar do seu padrão de qualidade. O estilo do desenho lembra muito o feito pela Disney. Mas por mais parecido que seja, falta um elemento para que embarquemos nessa história de No Mundo da Lua. Um algo a mais que nos ajude a suspender a descrença e comprar a ideia de que brinquedos ganham vida quando ninguém os está olhando, ou que um rato pode vir a cozinhar, ou que uma casa pode alçar voo amarrada a balões. Situações bastante inusitadas e que aceitamos de bom grado. Aqui, no entanto, é muito difícil acreditar que uma criança de 12 anos conseguiria realizar os feitos vistos no filme. É mais fácil crer que um grupo de jovens construiria uma nave e voaria para um local distante da Terra (como acontece em Viagem ao Mundo dos Sonhos, 1985) do que uma criança conseguir invadir uma propriedade da NASA. Mais ainda virar, de uma hora para outra, um astronauta.

Se isso não importar para os espectadores, existem os velhos arquétipos tão conhecidos de aventuras infanto-juvenis que dão as caras aqui. O amigo engraçado e supertecnológico, a amiga parceira das brincadeiras que se revela um interesse amoroso, um vilão megalomaníaco que deseja poder (e, neste caso, conquistar a lua). E, claro, o protagonista esperto, corajoso e boa gente, que conseguirá não só embarcar na aventura proposta como também resolver questões familiares muito mais complicadas. Apenas um personagem chama a atenção pelo seu desenho de caráter – e este é o avô Frank. Amargurado por problemas do passado, quando não pode embarcar na missão espacial para a lua, Frank se desligou totalmente do filho e de seus outros entes queridos. Aqui não cabe revelar os motivos que o levaram a isso, mas existe algo ali que não vemos em qualquer animação. E isso é um ponto positivo para No Mundo da Lua.

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Outras características a ressaltar são algumas boas tiradas de humor. Em uma delas, a gravação do primeiro pouso lunar conta com a direção de Stanley Kubrick (uma das mais famosas teorias da conspiração sobre a presença humana na lua); os capangas do grande vilão da história são baseados (e se parecem) com Steve Jobs e Bill Gates; e as aparições do simpático camaleão da turma também divertem. Entretém, mas é muito pouco para uma animação que venceu o prêmio da categoria no Goya (o Oscar espanhol) e que parecia almejar voos mais altos.

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é crítico de cinema, membro da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul. Jornalista, produz e apresenta o programa de cinema Moviola, transmitido pela Rádio Unisinos FM 103.3. É também editor do blog Paradoxo.
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