Crítica

O grande problema de Não tenha medo do escuro é a assinatura de Guillermo Del Toro na produção. Se fosse um projeto só de Troy Nixey (o diretor, um completo desconhecido aqui em sua estreia cinematográfica) provavelmente a recepção teria sido mais calorosa. Como não é o caso e o nome do realizador dos ótimos e perturbadores A Espinha do Diabo (2001), O Labirinto do Fauno (2006) e os dois Hellboy (2004 e 2008) é o principal destaque do cartaz, quem o conhece já chega cheio de expectativas – somente para vê-las sendo frustradas uma a uma com soluções apressadas, interpretações exageradas e por um enredo que ao invés de brincar com o suspense o elimina já na primeira metade da trama, apostando mais no terror simples e explícito do que no poder da sugestão e, principalmente, da imaginação do público.

Apesar dos tropeços, entretanto, Não tenha medo do escuro se baseia num argumento muito interessante. Há uma mitologia por trás dos acontecimentos aqui vivenciados, e ela afirma que há séculos demônios das profundezas existem entre nós, apesar de condenados pela Igreja Católica às profundezas da escuridão. Estes seres monstruosos querem vingança, e o alimento principal que os fortalecem são dentes e ossos de crianças. E é claro que não tardará muito para que uma deles se torne a próxima vítima.

Guy Pearce (Amnésia) e Katie Holmes (Batman Begins) são o jovem casal que adquire uma antiga mansão – ele é arquiteto, ela decoradora – com o propósito de reformá-la e revendê-la em seguida. No começo do filme acompanhamos a chegada da pequena Sally (Bailee Madison, a filha de Jennifer Aniston em Esposa de Mentirinha, 2010), filha do primeiro casamento dele. A menina, além de antipatizar de imediato com a madrasta, rejeita também a nova casa, refugiando-se no amplo jardim ou no próprio quarto. Uma nova motivação surge com a descoberta de um porão escondido na casa, e apesar dos alertas do caseiro, a família decide explorar o cômodo até então ignorado. Mas o pior está reservado para a pequena, que passa a ouvir vozes vindas de uma lareira trancada. São chamados, convites de aproximação e pedidos de liberdade. Completamente iludida e dominada pela curiosidade, a garota atende às solicitações – e isso é somente o início de um pesadelo que a partir daquele momento não terá hora para acabar.

A mão de Del Toro fica evidente no tema assustador – trata-se de um remake de uma produção homônima de 1973, com o diferencial de que se no primeiro filme o alvo dos demônios era a esposa, a vítima em potencial agora é a criança, potencializando o perigo para toda a família – e no controle do orçamento. Dono de um visual envolvente e assustador, esse Não tenha medo do escuro é um filme relativamente barato, que custou cerca de US$ 25 milhões. Mesmo assim, não chegou a arrecadar nas bilheterias americanas valor suficiente para compensar o investimento, atingindo uma soma ligeiramente superior somente com o acréscimo dos resultados no exterior. E se no geral a experiência não compensa, ao menos há algo que se salva como exercício estético e pela comprovação de que a Sra. Tom Cruise não passa de um conjunto de caretas e beiços. Se para alguns isso é suficiente, tenho certeza que para muitos está longe de ser considerada uma interpretação minimamente razoável.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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