Crítica

Os retratos cinematográficos das comunidades periféricas afro-americanas, em geral, apresentam um ambiente predominantemente masculino, onde a cultura das gangues – sua hierarquia, códigos morais particulares e violência intrínseca – exerce um forte papel influenciador e propagador desses símbolos de masculinidade. Tais características configuram um cenário hostil à formação de qualquer jovem, especialmente para um ainda não plenamente convicto de sua sexualidade, caso de Chiron, protagonista deste Moonlight: Sob a Luz do Luar. Em seu segundo longa-metragem, o diretor Barry Jenkins utiliza as memórias da própria infância em Liberty City, bairro negro de Miami onde também cresceu Tarell Alvin McCraney, autor da peça In Moonlight Black Boys Look Blue, na qual o filme se baseia, para narrar uma jornada de amadurecimento e autodescoberta.

A narrativa se divide em três atos, cada um tendo como título uma das identidades impostas ao personagem pelo meio que o cerca. Meio este que demonstra já perceber, e repreender, as escolhas do garoto (Alex R. Hibbert), ainda aos 9 anos, quando nem o próprio é capaz de compreendê-las. Chamado de “Pequeno” pelos colegas que o perseguem por seu físico frágil, comportamento introvertido e trejeitos delicados, algo percebido também pela mãe, Paula (Naomie Harris), Chiron vive em um universo de estereótipos que Jenkins busca subverter e humanizar. A começar pelo traficante Juan (Mahershala Ali), que assume uma posição de figura paterna/mentor, contrariando as expectativas por apresentar um comportamento ético bem definido e uma estrutura familiar concreta ao lado da namorada, Teresa (Janelle Monáe).

Surpreende também o modo compreensivo como trata a questão da sexualidade do menino, incentivando-o a não se envergonhar da mesma, não tentando transformá-lo e ajudando-o a se encontrar. Uma relação sensível, que ganha forma em belas sequências, como quando Juan ensina Chiron a nadar. A representação do traficante é muito bem desenvolvida pelo roteiro, lhe oferecendo dilemas próprios como ter a consciência de que seu trabalho pode destruir a vida de outras pessoas - vide a mãe de Chiron, uma de suas clientes viciadas em crack. Essa construção de Juan ganha força devido ao ótimo trabalho de Mahershala Ali que, mesmo em curta participação, confere grande carisma e peso ao personagem, permanecendo como uma presença oculta que serve de modelo para Chiron, do mesmo modo que a casa de Teresa permanece como seu refúgio.

Ainda que possa ser demasiadamente literal em certas passagens – o confronto entre Juan e Paula, por exemplo – o cineasta demonstra sutileza para tratar dos temas na maior parte do tempo. Optando por uma abordagem sempre crível, Jenkins evita, porém, o realismo fatalista e exagerado de outras obras similares. Os efeitos da pobreza, das drogas e da violência na dura vida dos personagens são perceptíveis nos detalhes, mas sempre permitindo espaços para a poesia. A fotografia luminar e as notas clássicas da trilha sonora original transportam o longa para esses respiros, de traços quase oníricos, como se fossem lembranças das descobertas filtradas pela inocência da juventude. Assim, os movimentos inquietos, circulando ou acompanhando personagens, gradativamente dão lugar a planos mais contemplativos, imagens em câmera lenta e closes que ressaltam também a fisicalidade de corpos e rostos.

É no segundo segmento, intitulado “Chiron”, que o protagonista (agora vivido por Ashton Sanders) começa a explorar sua sexualidade, externando seus desejos em uma noite à beira mar ao lado de Kevin (Jharrel Jerome), cuja relação de amizade já carregava uma grande tensão sexual. Mas, como Jenkins afirma ao longo de toda a projeção, o meio obriga o indivíduo a se camuflar, o que ocorre com Kevin desde quando mantém as aparências, relatando a Chiron sua transa com uma garota, até quando é obrigado pelos bullies que dominam o colégio a espancar o amigo, mesmo após terem compartilhado a cena de intimidade já citada. Esse acontecimento leva ao segundo momento transformador do segmento, quando Chiron manifesta toda a sua raiva sufocada numa ação que resultará em uma grande reviravolta em sua vida.

Agora atendendo pelo apelido de “Black” (interpretado por Trevante Rhodes) e vivendo em Atlanta, Chiron se utiliza da imagem que dele é esperada como forma de proteção. Assim, tenta aparentar força com a mudança física drástica, o carro tunado e os dentes de ouro, adotando o estilo de vida de Juan, em quem se espelha. Mas, por trás dessa armadura, o personagem ainda esconde uma personalidade frágil, que transparece na visita à mãe na clínica de reabilitação – cena que reforça a entrega de Naomie Harris ao papel – e, principalmente, no reencontro com Kevin, agora um cozinheiro (André Holland em tocante atuação). Esse confronto com o passado faz efervescer a culpa e a atração, mas, especialmente, um sentimento de afeto extremamente delicado, sublinhado pela utilização da canção Hello Stranger, de Barbara Lewis.

Assim como o próprio Chiron, calado e introspectivo, Jenkins imprime um tratamento mais leve e menos incisivo, evitando cair no sentimentalismo forçado, mas também amenizando certos aspectos que poderiam ganhar com uma maior intensidade. Felizmente, essa opção não esvazia o discurso do cineasta sobre descobrir-se e ser quem se quer ser, como já afirmava Juan. E, ao final de sua jornada, Chiron parece conseguir se libertar das máscaras criadas pelos outros, caminhando para a aceitação de si próprio.

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é formado em Publicidade e Propaganda pelo Mackenzie – SP. Escreve sobre cinema no blog Olhares em Película (olharesempelicula.wordpress.com) e para o site Cult Cultura (cultcultura.com.br).
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