Crítica


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Sinopse

Enquanto o marido viaja a trabalho no Chile, Liz luta para cuidar sozinha do filho pequeno. Sentindo-se deslocada em meio ao grupo fechado de pais no parque, ela se aproxima de Rosa, operária e mãe solteira. A diferença social cada vez maior entre elas, assim como rumores estranhos sobre a família de Rosa, fazem Liz suspeitar que sua nova amiga seja uma influência negativa em sua já frágil vida.

Crítica

São louváveis as intenções de apresentar um lado menos romantizado da maternidade em Minha Amiga do Parque. A protagonista, Liz (Julieta Zylberberg), tem sua rotina completamente tomada pelo filho ainda bebê, o que é ressaltado por meio da câmera nervosa e geralmente próxima, quando não colada nos personagens, da diretora Ana Katz. Simples afazeres do dia, atividades corriqueiras tais como ir ao banheiro ou tomar banho, tem de ser adaptadas à presença do pequeno que lhe demanda toda a atenção. O pai da criança está viajando, ocupado em gravar um documentário, fazendo-se presente apenas nas ligações esporádicas via internet. Os passeios no parque próximo ajudam a aliviar essa angústia, muito porque neles há interação. Tudo começa a mudar para essa mulher visivelmente combalida por um cansaço físico e mental assim que ela encontra Rosa (a diretora Ana Katz), cujo comportamento difere totalmente do seu e, por isso mesmo, suscita uma aproximação.

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Desde o primeiro programa das duas juntas, um almoço permeado por conversas sobre as agruras da maternidade, fica evidente que elas possuem personalidades destoantes. Enquanto Liz está visivelmente à beira de um ataque de nervos, culpando-se recorrentemente por não conseguir amamentar Nicanor (Andrés Milicich), gastando bastante energia buscando ser uma mãe o mais próximo da perfeição possível, a então desconhecida se mostra pragmática, não tão disposta a problematizar sequer alguma coisa. Diversos eventos que se seguem instauram dúvidas a respeito do caráter de Rosa, como a apropriação do dinheiro que serviria para pagar determinada conta, a insistência para que a protagonista ajude sua irmã Renata (Maricel Álvarez) a se deslocar para encontrar o namorado, as constantes ações que podem, dependendo do ponto de vista, soar como impertinências, a descoberta de uma arma de fogo e a opinião dos colegas de parque, que veem com ressalvas as novas amizades de Liz.

O fato de Liz e Rosa pertencerem a esferas sociais diferentes, sendo a primeira uma mulher de classe média, financeiramente estabelecida, e a segunda alguém que precisa ralar em dois empregos para manter-se, é decisivo para a distinção de suas condutas. Infelizmente isso não é abordado com muita contundência, permanecendo escondido nas entrelinhas, nunca emergindo como algo realmente importante. Em Minha Amiga do Parque, a diretora Ana Katz demonstra um olhar bastante sensível à condição feminina, às complexidades da maternidade, ao torvelinho de sentimentos que decorre do sentir-se abandonada, já que, mesmo casada, Liz tem um marido ausente.  Contudo, a reincidência de certos procedimentos, principalmente a aposta numa insistente desconfiança da idoneidade de Rosa e de Renata como forma de estabelecer tensão, enfraquece o longa, já que ele fica andando em círculos, não oferecendo um desenvolvimento a contento para os temas abordados desde o início.

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Minha Amiga do Parque é mais bem resolvido quando focado no drama de Liz, na dificuldade que ela tem para lidar com a solidão, com o fardo demasiado pesado de criar o filho. A amizade com Rosa lhe permite desencanar um pouco da necessidade de permanecer 24 horas ao lado de Nicanor. Todavia, mesmo delegando a função de cuidadora parcial a Yazmina (Mirella Pascual), suas angústias são tão imperativas que provocam um desgaste também nessa relação. Uma pena que a diretora Ana Katz, a despeito do manifesto talento para aproximar-se da intimidade das personagens, dando relevo às suas áreas cinzentas, não consiga desvencilhar-se de um itinerário marcado pela repetição, por um martelar contraproducente em pontos de fricção já devidamente explorados, o que vai minando qualidades, tornando a progressão narrativa truncada por um constante ir e vir entre os mesmos assuntos e pontos nebulosos.

As duas abas seguintes alteram o conteúdo abaixo.
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é crítico de cinema, membro da ACCRJ (Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro) e da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema,). É, também, professor da Escola de Cinema Darcy Ribeiro/RJ.
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