Crítica


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Sinopse

Um serial killer acredita que Mindhorn seja uma pessoa real, e não o personagem protagonista da série de televisão homônima. Com isso, o ator que deu vida ao personagem vai precisar trabalhar junto à polícia, afinal, o criminoso só quer falar com o detetive Mindhorn.

Crítica

Mindhorn parte de uma premissa interessante, mesmo que não necessariamente original, para criar suas piadas. Histórias sobre atores fracassados existem aos montes, mas esta produção britânica traz algumas novidades, aqui e acolá, que dão um pequeno verniz de ineditismo, com potencial para prender a atenção do público. Ainda mais se o espectador em questão curtir o estilo de humor britânico empregado pelo diretor de teatro e cineasta de primeira viagem Sean Foley, a partir do roteiro dos também atores Julian Barratt e Simon Farnaby.

Barratt assume o papel principal desta comédia de ação interpretando Richard Thorncroft, um bem-sucedido ator (fictício) da televisão britânica do final dos anos 80, protagonista da série Mindhorn – uma espécie de O Homem de Seis Milhões de Dólares (1973-1978), popular série norte-americana da década de 70. Com seu sucesso na TV, Thorncroft tenta voos mais altos em Hollywood. A trama pula 25 anos à frente e descobrimos que ele não vingou na Meca do cinema, tendo voltado para sua terra natal, amargando pequenos papéis em comerciais. Sua sorte parece mudar quando um suposto assassino (Russell Tovey) caçado pela polícia deseja negociar termos de rendição com Mindhorn, não entendendo que o sujeito é um personagem de série. Thorncroft, sem nada melhor no horizonte, resolve retornar ao papel para ajudar a polícia e, de quebra, voltar aos holofotes. Esse movimento o coloca em contato novamente com sua antiga namorada e parceira de tela Patricia (Essie Davis), seu ex-dublê Clive (Simon Farnaby), e Peter Eastman (Steve Coogan), coadjuvante de Mindhorn e que atualmente é o protagonista de um spin-off mais bem-sucedido que a série original.

Produção britânica distribuída pela Netflix ao redor do mundo, Mindhorn é um daqueles filmes que nasceram talhados para a TV. Não somente pelo escopo da produção, mas pela temática, bebendo na fonte das populares séries da década de 70, como a já citada O Homem de Seis Milhões de Dólares e outras como Starsky e Hutch (1975-1979) e Kojak (1973-1978), sem falar de muitos shows britânicos que nunca chegaram por aqui. Dito isso, o longa deve funcionar melhor com um público mais experiente, que conheça essas séries e entenda as referências inclusas no roteiro. Sem a bagagem, a maior parte das piadas tende a não funcionar.

Em relação ao elenco, Julian Barratt consegue carregar bem o filme, não se levando a sério como o decadente Richard Thorncroft. O ex-astro não desce do salto mesmo estando longe dos holofotes há anos. Sua forma de agir e seu ego inflado não são nada condizentes com sua carreira – e por diversos momentos ficamos sem saber se ele não consegue entender sua realidade ou se veste uma carapaça na frente dos outros. Os melhores momentos de Mindhorn são suas poucas cenas com Steve Coogan, ambos com ótimo timing, vivendo uma rivalidade ora velada, ora completamente aberta. Também são dignas de nota algumas participações-surpresa, como a de Kenneth Branagh e Simon Callow, ambos vivendo versões de si mesmos. O primeiro faz um teste de cena estranhíssimo com Thorncroft, já o segundo tem a agente do fracassado ator.

Com alguns twists interessantes no roteiro, clima divertido e bom ritmo, Mindhorn é um passatempo que tem tudo para divertir um nicho específico de assinantes da Netflix, já apontado acima. Feito especialmente para quem sente falta da TV dos anos 70 e 80 e deseja matar a saudade daquele estilo de programa. Não espere dar gargalhadas, mas ser entretido com um personagem adoravelmente perdedor.

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é crítico de cinema, membro da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul. Jornalista, produz e apresenta o programa de cinema Moviola, transmitido pela Rádio Unisinos FM 103.3. É também editor do blog Paradoxo.
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