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Sinopse

Funcionários de um supermercado se expressam em meio a rotina de atividades repetitivas. Nesse local convidativo à inércia, homens e mulheres não permitem que a rotina aprisione as suas imaginações e os seus desejos.

Crítica

O título deste projeto e a informação de que se passa 100% dentro de um supermercado despertar uma impressão errada sobre o filme. O primeiro contato do espectador com o espaço-título ocorre por meio de um gigantesco galpão vazio, onde se constrói, azulejo a azulejo, prateleira a prateleira, um novo supermercado. Ao invés da correria, dos barulhos de caixas registradas, dos anúncios de produtos ao microfone e de pessoas transitando por todos os lados, encontramos um local silencioso. Mesmo quando o comércio inaugura suas atividades diárias, a diretora Tali Yankelevitch busca os recantos mais tranquilos, mesmo entediantes. Ao invés de mergulhar nos corredores, ela prefere os bastidores, a cozinha, o vestiário, o local onde os funcionários descansam durante o almoço. Há certa fascinação em descobrir o que existe por trás de um gigantesco setor alimentício. Como se organiza uma empresa deste porte, e de que maneira os trabalhadores encaram a rotina repetitiva, fazendo o mesmo pão, cortando os mesmos frios, ou passando os mesmos produtos no caixa? No que pensam as pessoas que executam funções mecânicas e sequenciais?

Ao invés do habitual retrato da desumanidade no setor comercial, a cineasta encontra um mundo poético, seu próprio País das Maravilhas. Esqueça a crise alimentícia que eleva os preços de produtos básicos, esqueça a reforma trabalhista que precariza empregos, esqueça os cadáveres cobertos por guarda-chuvas porque o serviço não pode parar. (Certo, muito desses fatos vieram depois das filmagens, mas ainda assim refletem um modelo de negócios predatório cujas raízes existiam antes da penúria atual). Meu Querido Supermercado (2019) efetua uma ponte entre o mundo como ele é e o mundo como poderia ser. A ostensiva trilha sonora, com melodias de balé e dedilhados aventurescos no piano, sugerem um universo colorido de aventuras, amores e ficções. O teor é adocicado de tal modo que transmite uma ironia, um aceno ao absurdo e ao surrealismo. Enquanto registra a simetria dos corredores idênticos, dos caixas em paralelo, a cineasta atribui a si mesma a tarefa inesperada de enxergar neste local um palco de diversões e grandes acontecimentos. Em outras palavras, ela se mune dos recursos do documentário para descobrir de que maneira aquele microcosmo transpira um desejo de ficção.

A montagem busca os instantes em que a mente dos funcionários se presta a devaneios. O homem responsável pelos frios, leitor voraz de romances distópicos, se mostra propenso a teorias da conspiração sobre grandes corporações apagando pessoas do dia para a noite. O padeiro, apaixonado pela cultura japonesa, sugere que Goku seria mais importante do que Deus, além de ter uma mensagem mais coesa à civilização. A funcionária da sala de controle, cujos dias são dedicados a observar pessoas através de dezenas de câmeras de segurança, se revela uma fã inveterada de histórias de suspense, “contanto que tenham investigação”. Ela acredita que sua função, em busca de possíveis furtos na loja, se comunica com aquela dos investigadores do cinema. O homem das empilhadeiras, com suas peças mecânicas, pensa com videogames. Fala-se em bruxas, magia, assombrações. Enquanto as pessoas sonham com espaços distantes, a câmera contribui à imersão, criando através da montagem uma possibilidade de romance entre dois trabalhadores do balcão de frios. Ela gosta dele, mas não admite. Ele talvez saiba disso, mas passa a flertar com outra garota. Um enquadramento milimetricamente calculado sugere o ciúme da protagonista, a possível raiva do amado que se deixa encantar por outra moça. A linguagem cinematográfica se torna ao mesmo tempo muito astuta e jovial. Há humor e leveza como dificilmente se esperaria de um projeto sobre o dia a dia num supermercado.

No entanto, a estrutura do roteiro se presta a alguns questionamentos. O primeiro ato se concentra no espaço do supermercado em formação, voltando-se às peças necessárias para montar este mecanismo. O segundo ato desloca o foco do lugar às pessoas que o ocupam, investigando a subjetividade dos funcionários. Qual seria o terceiro ato? O olhar aos clientes? Aos diretores, donos e acionistas? Talvez o desencantamento a respeito deste trabalho? Nada disso. A priori, não há um terceiro ato. A dinâmica de sonhos e pequenas anedotas se multiplica até o final da projeção, tornando-se repetitiva nos vinte minutos finais. Não há problema algum em levantar uma construção assumidamente lúdica, contanto que a realidade se mantenha em firme contraponto. Ora, Meu Querido Supermercado poderia ser interpretado como um projeto cujo aspecto fantasista se converte em conformismo, e também em ingenuidade quanto às condições de trabalho pouco recompensadoras (vide o ataque de pânico do atendente do caixa, algo que não surte efeito no restante da narrativa). A percepção daquele espaço se mostra homogênea entre os personagens: eles estão contentes, sem mencionarem questões salariais, hierárquicas, ou projetos pessoais para o futuro. (O padeiro sugere a possibilidade de encontrar outro emprego, no entanto, dentro deste universo de satisfação generalizada, fica difícil compreender o porquê).

Esteticamente, Yankelevitch aposta no cinema do controle. Os enquadramentos fixos captam exatamente aquilo que desejam, com cuidado impressionante de profundidade de campo, luz e som. Não há grande abertura ao acaso: a câmera apreende do ambiente elementos que já a interessavam anteriormente. Na dicotomia (simplória, talvez) entre cineastas que adequam a imagem ao mundo, e cineastas que tentam adequar o mundo à sua imagem, a cineasta se encaixaria na segunda opção. O resultado é tão impecável, em termos de produção, quanto austero no que diz respeito às sensações e surpresas do dia a dia – exceção feita à pequena borboleta sobre a câmera. A conversa do padeiro com o colega sobre casamentos é registrada por mais de um enquadramento, em tamanho zelo imagético que os personagens parecem reproduzir aquela conversa para as necessidades da câmera. Talvez o estilo tão composto servisse a ressaltar a brutalidade do espaço do comércio (os planos simétricos de câmeras de segurança permitem tal leitura). No entanto, o filme aborda o supermercado enquanto espaço de afetos reunidos – de onde se justifica o “querido” do título -, ao invés de um contexto profissional ou empresarial. Ingênua ou não, pertinente ou não, a obra possui o mérito de enxergar naquele espaço uma ambientação que poucas pessoas enxergariam: um mundo de fantasias.

Filme visto no 25º É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários, em setembro de 2020.

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Crítico de cinema desde 2004, membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema). Mestre em teoria de cinema pela Universidade Sorbonne Nouvelle - Paris III. Passagem por veículos como AdoroCinema, Le Monde Diplomatique Brasil e Rua - Revista Universitária do Audiovisual. Professor de cursos sobre o audiovisual e autor de artigos sobre o cinema. Editor do Papo de Cinema.
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