Crítica


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Sinopse

O sensível Elio é o único filho de uma família norte-americana com ascendência italiana e francesa. O garoto está enfrentando outro verão preguiçoso na casa de seus pais na bela paisagem italiana. Nesse cenário, Oliver, acadêmico que veio ajudar a pesquisa de seu pai, chega para despertar sentimentos ainda desconhecidos.

Crítica

Me chame pelo seu nome que te chamarei pelo meu”. Assim, de forma bastante singela, porém de entrega inegável, os amantes Elio e Oliver declaram não mais pertencerem apenas a si mesmos, mas, a partir daquele instante, também um fazendo parte do outro. Abrem mão até mais da profunda intimidade, doando seu bem mais pessoal – o próprio nome – àquele no qual se enxergam, vivenciando nas profundezas daquele em sua frente a sua total plenitude. Me Chame Pelo Seu Nome é mais um atestado da busca pela beleza empreendida pelo cineasta italiano Luca Guadagnino, porém não só, e, sim, muito mais do que isso. Longe de apresentar um apuro estético vazio e sem propriedades de reflexão, tem-se em cena uma delicada e sensível análise a respeito de amor e perda, liberdade e confiança, tendo como ponto de partida a atração que se desenvolve de forma tão imperiosa entre estes dois rapazes.

O americano Oliver (Armie Hammer) chega na casa de férias do professor Perlman (Michael Stuhlbarg) para um estágio durante o verão. Para a família, a visita não representa nada demais – afinal, já estão acostumados com estas companhias sazonais. Para Elio (Timothée Chalamet, de Interestelar, 2014), filho do casal, a mudança começa cedo a mexer com sua rotina. Primeiro, é deslocado de seu quarto para o dormitório adjacente. Depois, a presença do recém-chegado vai interferindo em suas relações: com as meninas das redondezas, com os amigos, até na pretensa estabilidade do ambiente familiar. No começo, é quase uma questão de competitividade: Oliver é mais velho, mais alto, mais bonito. Todos só têm olhos para ele. Mas quem tem os olhos dele?

Elio quer estar perto. Decide acompanhá-lo a cada visita ao vilarejo, durante os banhos de rio e está ao seu lado na hora das refeições. Tem ciúmes, tem inveja, tem desejo. Não sabe o que está sentindo, mas também não é garoto de perder tempo com indagações que não levam a lugar nenhum. Estamos em um ambiente de literatos, em que as questões práticas da vida podem ser tão urgentes quanto as filosóficas. Mas entre a dúvida e a confirmação, é preciso agir. O jogo entre eles está posto, e não há mais tempo para dissimulações ou desencontros. O olhar os acompanha – de um para o outro, dos demais para eles – e, cientes de cada passo a ser dado e das consequências que estes acarretam, se preparam para viver. Juntos. Uma experiência da qual ninguém sai igual.

Guadagnino é mestre nessa investigação da influência do belo na existência dos que o circundam. Foi assim em seu primeiro sucesso, com o irregular e polêmico 100 Escovadas Antes de Dormir (2005), sobre uma garota que experimentava o sexo de modo livre e despreocupado, ou com o intenso e arrebatador Um Sonho de Amor (2009), sobre uma família que lutava contra a desintegração. Me Chame Pelo seu Nome dá continuidade à essa jornada, demonstrando a mesma preocupação. Aqui, no entanto, o encanto vai além da superfície. E ao invés de destruir ou separar, o que é bonito serve para unir, aproximando os protagonistas não há ponto de se tornarem um só, mas, sim, possibilitando uma troca de identidades. O que parecia despreocupado e atraente se revela pequeno, inseguro. Ao outro, dono de suas decisões, o mundo pode estar apenas começando, mas já ciente da rede de segurança que se articula ao seu redor: em casa, na cama, no abraço e no coração.

Se por um lado Armie Hammer tem o melhor desempenho de sua vida – ainda que Oliver seja um personagem de função estratégica – a grande revelação é mesmo Timothée Chalamet, em uma performance calorosa e envolvente. De beleza clássica, dono de um rosto esculpido e postura esguia, o garoto deixa todos ao seu redor embevecidos por suas atitudes concisas e postura dona de si. Ele sente, e não tem vergonha. Assume o que faz, sem medo ou vergonha, pois vem de um ninho de educação e amor. Me Chame Pelo seu Nome é um romance de formação, testemunho de um momento específico que ficará marcado na memória dos que viveram, dos que sentiram ou mesmo presenciaram. Impossível permanecer indiferente, mais difícil ainda querer demonstrar qualquer reação contrária. Um aperto de mãos pode ter mil significados, ou apenas um toque despreocupado. Mas o selo que se estabelece a partir do primeiro contato, este segue vivo. Indelével e permanente.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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