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Sinopse
Em Marty Supreme, a trajetória improvável de Marty Mauser ganha forma ao acompanhar sua passagem do submundo das ruas ao topo do tênis de mesa. Dono de talento e personalidade fora do padrão, o rapaz desafia expectativas ao construir uma carreira marcada por reinvenção. Biografia.
Crítica
Há uma urgência em Marty Surpreme, o filme, que fala tanto sobre a ânsia de seu protagonista em ser reconhecido, a respeito do estilo de fazer cinema do seu realizador e, aparentemente, em última instância, como referência ao próprio personagem colocado no centro dessa questão. Tanto Timothée Chalamet quanto Josh Safdie, por diferentes motivos, acabam por se mostrar maiores, mais barulhentos e catalizadores de mais atenção do que o longa que entregam, ofuscando um debate que deveria ser essencialmente fílmico, mas termina por se debruçar em meio a questões paralelas, como temporada de premiações, valor e poder enquanto artista e posição de referência em uma indústria que, como bem se sabe, vem enfrentando profundas – e cada vez mais frequentes – revoluções.

Após uma carreira iniciada em 2002 que atravessou mais de uma dezena de curtas-metragens, Josh Safdie estreou no formato de maior visibilidade com O Prazer de ser Roubado (2008), filme que pouca gente viu ou sequer tomou conhecimento. A notoriedade veio alguns anos depois com Bom Comportamento (2017), o quinto projeto em longa-metragem dirigido em parceria com o irmão Benny Safdie. Os dois fizeram mais um filme em conjunto – Joias Brutas (2019) – e desde que se separaram – algo, portanto, não inédito em suas carreiras – ambos têm se esforçado para mostrar que são mais do que uma dupla, capazes de aparecer por seus talentos individuais. Curiosamente, lançaram novos filmes quase ao mesmo tempo: Josh com Marty Supreme, Benny com Coração de Lutador: The Smashing Machine (2025). O primeiro conseguiu ser indicado ao prestigioso prêmio do Sindicato dos Diretores da América (DGA), enquanto que o segundo ganhou o Leão de Prata de Melhor Direção no Festival de Veneza. E o mais engraçado? Cada um ao seu modo fazendo o mesmo filme.
Tanto Marty Supreme, quanto The Smashing Machine, tinham como ponto de partida grandes nomes não reconhecidos por esportes pouco – ou nada – populares em suas épocas. Se um era exímio no tênis de mesa, o outro foi campeão no MMA, ou Artes Marciais Mistas. Marty Mauser, assim como Mark Kerr, poderiam ter sido gigantes, se os tempos fossem outros, assim como suas vidas privadas. A derrocada, que se mostrou inevitável para ambos, veio a passos lentos, mas dos quais se percebeu ser impossível desviar. Mark sofreu pela instabilidade emocional da namorada e pelo abuso de medicamentos viciantes. Marty, por sua vez, tinha em si uma moralidade dúbia, de ética questionável e uma visão de mundo absolutamente deturpada. Por maiores que fossem as evidências contrárias aos seus anseios, a decisão consciente de ignorá-las sempre o guiou em cada ato. O sofrimento, assim como a decepção, estava agendado desde o início.
Três foram as mulheres que ditaram muitos dos imbróglios enfrentados por Marty. Primeiro, a mãe, personagem de Fran Drescher (a eterna The Nanny, 1993-1999), que tanto com ele se preocupava, como também agia para sabotar cada iniciativa do rapaz em seguir por caminhos distintos daqueles por ela planejados. Sem apoio familiar, foi na rua onde encontrou o afeto que lhe fazia falta. A namorada/amante vivida por Odessa A’zion (I Love LA, 2025) é tão mergulhada no sonho quanto ele, com a diferença de que o dela vinha do encontro com o homem pelo qual estava apaixonada – e não com o marido com quem dividia a cama – enquanto que a ambição de Marty estava em se provar ser o melhor em algo com o qual ninguém, basicamente, se importava. Por isso que quando o destino o coloca diante de Kay Stone, uma atriz que já foi popular, mas que há anos se encontra no ostracismo, é como se um estivesse ali para preencher o vazio que ocupa o outro. Gwyneth Paltrow oferece glamour com melancolia a uma figura que já teve tudo aquilo pelo qual Marty tanto aspira, mas deixou escapar por entre os dedos. Ela conhece a decepção que ele irá descobrir somente mais adiante.

Impossível dissociar a figura de Timothée Chalamet de Marty Supreme. O ator duas vezes indicado ao Oscar passou por um processo de mimetização e imersão nesse novo personagem a ponto de se apresentar durante a campanha de divulgação do filme como se o tal fosse. Porém, mesmo deixando de lado esse esforço de marketing, há, sim, um intérprete desesperado por se mostrar válido. Ele corre, sua, se submeteu a uma maquiagem depreciativa, foge por janelas, enfrenta diversas humilhações, tudo pela desculpa de oferecer a Marty Mauser um retrato à altura de suas qualidades. Mas estaria mesmo falando apenas dessa caricatura ficcional, ou tamanha confusão abrangeria também o homem que existe nos bastidores? Uma leitura difusa que não agrega nada a ele, menos ainda a obra que defende. Assim como Josh não conseguiu ir além do que já havia exibido ao lado do irmão, Timothée também não se permitiu desaparecer na ficção, lembrando a todo instante que a discussão é mais sobre ele, e menos sobre o filme.
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