Crítica


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Sinopse

Uma moça se muda para o estado da Carolina do Norte, nos Estados Unidos. Lá, vive durante um ano sempre insatisfeita. Amigos, amores e aventuras fazem parte de sua jornada na nova cidade.

Crítica

Duas mulheres estão no setor de roupas de uma loja de departamentos. A mais velha fala para a jovem: “se você está cansada, podemos sentar”. A outra responde que não precisa. Uma simples pergunta gera uma discussão em que ambas levantam o tom de voz. E até um vestido rosa mudar o rumo do debate. Esta cena tão cotidiana e banal é uma das principais para entender o espírito de Lady Bird: A Hora de Voar e a intrincada relação entre mãe e filha que permeia o roteiro e que poderia ser a de qualquer um da plateia. A estreia na direção de Greta Gerwig é particularmente feliz ao tratar de um tema tão universal como a passagem para a vida adulta com um frescor que poucos filmes do gênero conseguem injetar na audiência nos dias de hoje.

Christine McPherson (Saoirse Ronan) é uma adolescente que está em vias de terminar os anos de colégio na pequena cidade de Sacramento e quer algo mais da vida. Só não sabe o que. Ela adota para si a alcunha de Lady Bird numa forma de protesto. Não quer nenhuma universidade que não tenha Artes. Apesar de tudo, Christine/Lady Bird também não é tão diferente das outras garotas de sua idade. Suas notas são medianas, seu dia a dia não tem grandes emoções. Não é popular, mas também está longe de ser excluída dos grandes grupos. É inteligente, mas não um gênio. Talvez, genial à sua maneira. Por isso sua trajetória se torna tão apaixonante. A mãe, Marion (Laurie Metcalf), não quer que a filha abandone suas metas, mas também não gostaria de vê-la frustrada. A matriarca é a realidade batendo na porta da sonhadora a toda hora. Por isso a convivência das duas vai do sublime ao insuportável em poucas palavras.

O roteiro semiautobiográfico de Gerwig acompanha este último ano de Lady Bird antes de se lançar para outros prados. Aliás, se ela vai mesmo ou não são outros quinhentos, o que importa é que a garota tem a ideia fixa na mente. A roteirista e diretora não queima etapas. A personagem de Saoirse passa por tudo que é preciso: o namoro frustrado com um rapaz que guarda um segredo (Lucas Hedges), a amizade com a inseparável Julie (Beanie Feldstein) que começa a se deteriorar por conta da cisma com uma suposta popularidade, a primeira vez frustrante na cama, as tentativas de ser independente – mesmo que só na própria mente. A todo momento Lady Bird é lembrada de suas limitações pelos outros (os diálogos com a diretora do colégio e a orientadora vocacional são impagáveis). Porém, os adultos não são vistos como os vilões aqui, muito pelo contrário. Os questionamentos servem para as próprias perguntas que a protagonista faz para si a todo momento e fazem com que ela amadureça (ou não).

Há uma sinceridade pungente em cada passo da personagem e dos que a norteiam, tornando as situações básicas do dia a dia divertidas e até engraçadas, mas nunca um cacoete de roteiro. É justamente a forma de Gerwig lidar com a banalidade que torna tudo tão leve e interessante na mesma medida. E, claro, as atuações naturalistas do elenco ajudam ainda mais. Laurie Metcalf, mais conhecida por seus trabalhos em TV e teatro (talvez os balzaquianos lembrem dela como a mãe psicótica de Pânico 2, 1997), realmente parece uma mãe classe média como muitas outras do lado de cá da tela. Alternando a dureza de ter conquistado tudo na vida com seu trabalho, os xingamentos que dá na filha e o próprio amor que exala, ela é aquela que puxa Lady Bird pro chão, assim como as nossas progenitoras fazem aqui fora – mesmo que não gostemos disso, muitas vezes.

Há ainda a presença de outros no elenco que fazem o filme fluir, seja a enérgica Feldstein, a simpatia de Hedges ou a estranheza de Timothée Chalamet (num papel completamente oposto ao de seu incrível Enio de Me Chame Pelo Seu Nome, 2017). Porém, o show é de Saoirse Ronan. Aos 23 anos, a nova-iorquina acumula três indicações ao Oscar, incluindo pela performance aqui. A atriz consegue conciliar os aspectos mais mundanos da adolescência através de sua verborragia e até irritante inquietação. Porém, o que poderia tornar a personagem detestável, na pele da intérprete acaba sendo mais um motivo para criar a empatia necessária para que o filme seja mais do que um reles relato das dificuldades de ser um jovem adulto.

Lady Bird é a prima mais nova – ou até versão juvenil, já que o longa se passa no início dos anos 2000 – de Frances Ha, personagem do filme homônimo estrelado por Greta Gerwig em 2012. Se lá a atriz dava voz a uma trintona com sonhos adolescentes, aqui a situação se inverte, mas encontra paralelos no mesmo sentido. O filme de Noah Baumbach é a geração Y e suas decepções com a vida adulta. Já Lady Bird é a história do rompimento do cordão umbilical. Do fim da juventude. Porém, para sua autora, musa do mumblecore, também é uma forma de dizer que ela não é apenas o maior nome feminino atual dos filmes independentes norte-americanos. Como sua personagem, Gerwig prova que pode, realmente, alçar voos muito maiores. Nem que seja pulando de carros em movimento.

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é crítico de cinema, apresentador do Espaço Público Cinema exibido nas TVAL-RS e TVE e membro da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul. Jornalista e especialista em Cinema Expandido pela PUCRS.
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