Crítica
Leitores
Onde Assistir
Sinopse
Em Justiça Artificial, num futuro próximo, um detetive se vê no centro do próprio sistema que ajudou a criar. Acusado de assassinar a esposa, ele dispõe de apenas 90 minutos para provar sua inocência diante de uma instância máxima de justiça comandada por uma Inteligência Artificial avançada, implacável e lógica. À medida que o tempo corre, verdades pessoais, falhas humanas e os limites da tecnologia entram em choque, colocando em xeque a ideia de julgamento perfeito. Ação/Ficção científica.
Crítica
A proposta não é necessariamente nova. Porém, é na embalagem em que Justiça Artificial coloca suas fichas em sua aposta para conquistar o público. Afinal, a trama é ambientada em um futuro não muito distante, com inovações suficientes para justificar o avanço tecnológico proposto, mas nada radicalmente distinto a ponto de se tornar irreconhecível ao espectador. Esta aparência high tech aproxima o resultado de algo imaginado por Philip K. Dick, como visto em Minority Report: A Nova Lei (2002), mas infelizmente sem a profundidade e as repercussões que o mesmo tinha como hábito inserir em suas alegorias. O embate dessa vez é mais direto, eliminando quaisquer dúvidas sobre se tratar de apenas um whodunit, ou seja, um quem matou?, um enredo detetivesco não muito inspirado, conduzido por um diretor que apela à estética quando não tem o que dizer e por meio de um protagonista incapaz de ampliar sua gama de reações faciais.

Portanto, quanto menores forem as expectativas, maior será a probabilidade de desfrutar do que está sendo oferecido. Histórias como essa até costumam entreter durante o desenrolar dos seus acontecimentos, por mais que dificilmente se sustentem uma vez revelado a origem do mistério perseguido. O russo Timur Bekmambetov estava há uma década sem realizar um longa em Hollywood – o último havia sido o inócuo Ben-Hur (2016) que só fez algum barulho no Brasil por contar com Rodrigo Santoro como Jesus Cristo – o que o deixou cada vez mais distante da época que comandava títulos capazes de gerar algum tipo de comoção, como O Procurado (2008). Mas Chris Pratt está longe de ter o carisma de uma Angelina Jolie, e sem esse tipo de suporte o cineasta vê gradualmente seus esforços irem esmaecendo, um após o outro. Muito, é preciso observar, por não conseguir driblar das armadilhas contidas no roteiro do irlandês Marco van Belle, que também estava há tempos sem se envolver com projetos de maior renome (desde a fantasia Arthur e Merlin, 2015, para sermos mais precisos).
Para começar, Chris Raven (Pratt, tentando convencer como bom moço, mesmo que todos os indícios estejam contra ele) está sendo acusado de ter assassinado a própria esposa, Nicole (Annabelle Wallis, sem muito o que fazer, pois aparece apenas em flashbacks). Quando a história começa, Raven já foi capturado e está diante de uma juíza fruto da inteligência artificial (Rebecca Ferguson, que se mostra ainda mais cerceada, pois é vista o tempo todo em uma tela diante dos demais, impossibilitada de arriscar mudanças de humores, vendo-se atada a uma imparcialidade falha). Essa lhe oferece 90 minutos para provar sua inocência, o que ele deve fazer sem se levantar da cadeira a qual está preso. Ao seu alcance há tudo o que se encontra no ambiente virtual: arquivos armazenados na nuvem, registros de câmeras e de ligações telefônicas, investigações que partem apenas do olhar do personagem – ele próprio um policial – e por um instinto não baseado em fatos, mas em sua experiência pessoal. Ou seja, mais uma vez o antigo dilema do homem contra a máquina.
Dadas as regras do jogo, é natural perceber o surgimento de uma certa excitação na audiência frente ao que irá acontecer desse ponto em diante. Ou seja, o oposto do conselho dado no início desse texto: aumenta-se as expectativas, da mesma forma como crescem as frustrações conseguintes. Pois a inocência do protagonista nunca chega a ser colocada em dúvida, por mais que haja um direcionamento exagerado primeiro em culpá-lo, para logo em seguida tratar de absolvê-lo sem tantas ressalvas. Eis, portanto, um conjunto que não consegue respeitar as diretrizes por eles mesmos criadas. Pratt fugindo de dinossauros ou enfrentando super-heróis até pode ser engraçado ou capaz de aumentar a adrenalina, mas quando do início ao fim se mostra confinado a um único ambiente tendo ao seu dispor apenas uma expressão de desespero controlado, embarcar ao seu lado se mostra tão árduo, quanto decepcionante. Passageiros (2016) que o diga!

Se ao menos se confirmasse restrito ao ambiente digital, como uma variante do muito mais criativo Buscando… (2018), talvez Justiça Artificial conseguisse dizer a que veio e agregar algo de minimamente inovador a uma discussão que rapidamente tem tomado conta do cotidiano. Mas são tantas reviravoltas forçadas, não construídas de forma orgânica dentro do roteiro, mas impostas por mudanças radicais no comportamento dos personagens, que mesmo os mais adeptos ao gênero deverão estranhar o resultado. Sem esquecer que nesse processo nomes talentosos, como Kali Reis (True Detective: Night Country, 2024) e Chris Sullivan (This Is Us, 2016-2022), se veem perdidos entre participações que não conseguem ir além do clichê, por mais que potencial para tanto ambos tivessem o bastante para compartilhar com seus colegas mais famosos. Um desperdício de uma ideia de fácil assimilação, elaborada por meio de uma estrutura já conhecida e combinada a um elenco popular e capaz de se mostrar à altura do exigido. Faltou, no entanto, combinar esses elementos na medida certa. O que, de fato, não acontece.
Últimos artigos deRobledo Milani (Ver Tudo)
- Max Walker-Silverman :: “Um grande ator, como Josh O’Connor, sempre traz algo verdadeiro ao personagem”, revela diretor de Depois do Fogo - 24 de fevereiro de 2026
- Socorro! - 24 de fevereiro de 2026
- Depois do Fogo - 23 de fevereiro de 2026
Grade crítica
| Crítico | Nota |
|---|---|
| Robledo Milani | 4 |
| Francisco Carbone | 1 |
| MÉDIA | 2.5 |

Deixe um comentário