Crítica


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Sinopse

Um professor leciona ciências em uma escola dos Estados Unidos. Ele é discriminado e demitido após um de seus perfis em uma rede social gay ser descoberto pela diretoria. Querendo se vingar, assume uma nova identidade e consegue ser recontratado como a drag queen Bianca del Rio, que vai brigar com tudo e todos para honrar seu direito de exercer sua profissão.

Crítica

Bianca Del Rio é, até hoje, uma das participantes mais emblemáticas do reality show RuPaul's Drag Race. Seu humor ácido, seus shades com as colegas e até os jurados, seus looks e o timing cômico, além da solidariedade com as outras participantes, a fizeram a grande vencedora da sexta temporada. Dois anos depois, ela conseguiu levantar fundos em um financiamento coletivo para estrelar seu primeiro filme como protagonista. O resultado é Hurricane Bianca, uma comédia que conta com o grande talento de sua protagonista, mas peca pelo roteiro calçado apenas nisso.

Roy Haylock, o homem por trás de Bianca Del Rio, aqui faz Richard Martinez, professor substituto de química em Nova York que recebe uma bela proposta: ser efetivo no cargo no Texas. Lá vai ele, sem se dar conta que a região é um atraso em questões sexuais. Logo descobrem que ele é gay e o rapaz acaba demitido. A solução vem da amiga transexual (Bianca Leigh), e ele retorna ao colégio para ocupar sua antiga vaga e se vingar. O nome vem graças ao furacão Bianca, anunciado pelo homem do tempo da TV (ninguém menos que o próprio Ru Paul). Ela coloca a peruca, o rímel, o salto e se dirige à escola. Mas é claro que nem tudo vai ser tão simples assim.

É nítida a intenção do roteiro em tratar tudo de forma fantástica sem se preocupar com a realidade. A dica já é dada no início, com o livro intitulado “O Conto de uma Fada”. E aí aceitamos também Bianca sendo a professora mais megera possível, insultando os alunos com vários nomes possíveis, estereotipando a patricinha do colégio, o atleta bonitão, e por aí vai. O único que se salva desta lista, é claro, só poderia ser Bobby (Kaleb King), o aluno gay espancado pelos colegas ao fim de cada aula. Mas não pense que o assunto é aprofundado de forma trágica. Tudo é tratado como um cartoon em que Bianca é a heroína com sua história de superação e, assim, ajuda a quebrar os preconceitos de uma cidade que parou no início do século passado.

Bianca é um talento inquestionável em esquetes, shows, programas televisivos. Mas, como intérprete, sua composição acaba virando papel de uma nota só. Não que ela deixe de ser divertida. Muito pelo contrário. O dedo na cara dos outros com seu deboche e insultos inconfundíveis só fazem rir. E a história? Acaba perdida. Não é pelo fato de ser simples. A trama é quase irrisória, com soluções fáceis, aquela velha cena do discurso que toda comédia de escola tem. Porém, falta emoção, falta consistência, sobram várias pontas soltas e diversos clichês. A montagem malfeita não ajuda em nada, ainda mais com erros de continuidade extremamente amadores. Realmente, é um furacão, mas não no melhor sentido do termo.

Acima de tudo, não tem como negar a importância de um filme como esse, por menor que seja seu custo, na representatividade de gênero. Afinal, quantos longas estrelados por drag queens existem? Mais ainda, que sejam populares? É um passo relevante para uma maior abertura a quem é excluído sumariamente, mesmo num ambiente dito tão democrático quanto se preza o cinema. Porém, cinematograficamente falando, trata-se de um grande fan service que não amplia seu público para além dos adoradores do reality show e das drag queens. Quem sabe na continuação, que parece estar acertada, os erros sejam mais limitados e o prazer de assistir a uma bela comédia do início ao fim seja de verdade? Talentos envolvidos existem. Só falta um pouco mais de direcionamento no caminho certo.

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é crítico de cinema, apresentador do Espaço Público Cinema exibido nas TVAL-RS e TVE e membro da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul. Jornalista e especialista em Cinema Expandido pela PUCRS.
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