Gary

Crítica


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Sinopse

Em Gary, episódio especial da série O Urso, Richard “Richie” Jerimovich e Michael “Mikey” Berzatto partem para uma viagem de trabalho até uma cidade no estado de Indiana. Durante o percurso, os dois lidam com tensões pessoais e situações que colocam à prova a relação entre eles. 

Crítica

O Urso chegou em 2022 sem grandes ostentações. Levou algum tempo até encontrar público maior, mas bastaram duas temporadas para que a produção se transformasse em fenômeno de crítica, audiência e premiações. Entre Emmys e Globos de Ouro, encontrou na cozinha de um restaurante caótico o terreno perfeito para falar de vidas quebradas e ansiedade. O centro gravitacional sempre foi Carmy, personagem que levou Jeremy Allen White a se tornar um ícone da Hollywood atual. Mas a verdadeira riqueza da obra talvez esteja justamente em seus arredores. Em figuras como Richie, vivido por Ebon Moss-Bachrach, e Michael, irmão mais velho de Carmy interpretado por Jon Bernthal, que aparece sempre como fantasma emocional por meio de flashbacks. Todos já sabemos, a morte de Michael é o motor silencioso do seriado. Só que, em Gary, este episódio especial, ele está mais vivo do que nunca. Ou talvez apenas vivo o suficiente para que a tragédia pareça ainda mais inevitável.

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Aqui, Mike e Richie recebem uma “missão”. Pouco importa exatamente qual. A trama nos revela rapidamente que o verdadeiro deslocamento não é físico, mas emocional. O que interessa é colocar esses dois homens atolados em frustrações adultas dentro de um carro por algumas horas, longe do caos cotidiano de Chicago. Durante a viagem até Gary, cidade fria e quase fantasmagórica no noroeste de Indiana, eles voltam a se comportar como adolescentes tardios: falam besteiras, usam drogas, bebem, riem alto e fazem piadas deslocadas no tempo. Há algo profundamente melancólico, com a própria cidade ajudando a construir isso. Cinza, vazia e estranhamente silenciosa, é quase como se David Lynch estivesse rondando cada esquina industrial abandonada daquele lugar. Tudo parece fora de eixo. Como se aqueles homens tivessem atravessado não apenas uma estrada, mas algum tipo de limbo emocional.

E é justamente aí que Gary cresce, com pistas e silêncios. Nada está dito de maneira frontal. Mike e Richie ainda carregam espírito juvenil: jogam basquete, debocham da nova geração, falam sobre planos grandiosos e tentam sustentar energia de quem acredita que a vida ainda está começando. Só que o enredo esconde algo doloroso sobre envelhecer: chega um momento em que certos sonhos já não morreram oficialmente, mas também já não são possíveis. O que vemos aqui é ensaio sobre depressão, estagnação e masculinidade atrofiada em dois homens tentando fingir leveza enquanto carregam dentro de si a sensação permanente de fracasso.

E talvez seja nesse ponto que Gary se torne um dos capítulos mais interessantes de O Urso. Porque, sem nunca recorrer ao didatismo, o diretor Christopher Storer encosta em algo muito contemporâneo: a chamada “machosfera”. Mike e Richie são homens formados dentro de lógica brutalmente masculina, criados para trabalhar, suportar pressão e seguir em frente sem elaborar emoções. Não estudaram muito, não aprenderam a olhar para dentro e tampouco desenvolveram ferramentas emocionais para compreender os próprios vazios. E Michael, como irmão mais velho, carregava peso ainda maior: precisava ser referência. Só que ninguém ensinou esses homens a existir para além desse papel. O resultado é devastador. Richie ainda tenta sobreviver no improviso; Mike, como já sabemos desde o início da série, flerta perigosamente com a desistência. E o episódio nos faz entender exatamente o por quê.

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No fim, a tal “missão” pouco importa. Gary nunca esteve interessado em destino concreto, mas na impossibilidade desses personagens encararem os próprios vazios. Em meio à nostalgia, às risadas e à falsa sensação de liberdade, fica claro que certas amizades funcionam quase como abrigo contra a vida real. Há algo profundamente triste na maneira como Mike e Richie tentam congelar o tempo, como se permanecer adolescentes fosse mais fácil do que aceitar tudo aquilo que não conseguiram se tornar. No frigir dos ovos, fica a lição: perceber que algumas pessoas não desistem da vida de maneira abrupta. Elas apenas vão ficando cansadas demais de sustentá-la.

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Fanático por cinema e futebol, é formado em Comunicação Social/Jornalismo pela Universidade Feevale. Atua como editor e crítico do Papo de Cinema. Já colaborou com rádios, TVs e revistas como colunista/comentarista de assuntos relacionados à sétima arte e integrou diversos júris em festivais de cinema. Também é membro da ACCIRS: Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul e idealizador do Podcast Papo de Cinema. CONTATO: [email protected]

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