Onde Assistir
Sinopse
Em plena Guerra de Independência Argelina (1954-1962), o pensador, psiquiatra e filósofo político Frantz Fanon ousou enfrentar o sistema colonial francês. Corajoso, ele acabou por redefinir não só a psiquiatria e a luta anticolonial, mas a própria ideia de liberdade. Biografia.
Crítica
O psiquiatra francês Frantz Fanon não inseriu seu nome na História apenas por sua atuação médica, pelo ativismo político, por ser um representante quando vivo dos efeitos do colonialismo europeu ou por sua luta antimanicomial de inspiração filosófica-humanista. Foi por tudo isso junto, é certo, mas mais. A atenção que dedicava aos pacientes, o tratamento humanizado que empregava junto àqueles que eram descartados e vistos como párias pela sociedade, a forte formação familiar e o fato de ter levado adiante – até o fim dos seus dias – um casamento inter-racial visto com desconfiança e preconceito pela maioria dos lugares por onde transitou e pelas autoridades com as quais fora obrigado a lidar, o enfrentamento de sua própria doença e a herança que deixou, como profissional e homem, de modo a repercutir até os dias de hoje, fazem do esforço em adaptar tal jornada para o cinema um desafio destinado às mais diversas frustrações. Afinal, seria no mínimo impossível dar conta de todos estes vieses concedendo um mínimo de profundidade a cada âmbito, ao menos na medida que estes aspectos de fato merecem. O diretor e roteirista Jean-Claude Flamand-Barny está ciente do desafio, e por mais que vez ou outra incorra em algum excesso ou desvio desnecessário durante o desenrolar dos eventos vistos em Fanon, na maior parte do tempo cumpre sua função de resgate e justiça histórica.

Nascido na ilha de Guadalupe, território caribenho pertencente à França, Flamand-Barny tem lugar de fala, para usar uma expressão bastante em voga, para falar de Fanon. O pensador possuía origens similares, sendo natural da Martinica. Ou seja, ambos franceses no registro, mas não em identidade, pois essa está mais ligada ao Caribe do que à Europa. Após estrear como diretor com o curta-metragem Putain de porte (1994), estrelado por uma dupla que nos anos seguintes confirmaria qualquer aposta – Vincent Cassel e Mathieu Kassovitz – foi chamado na sequência pelos dois para assinar a produção de elenco do projeto seguinte deles, o longa O Ódio (1995), que viria a ganhar os prêmios de Melhor Direção no Festival de Cannes e de Melhor Filme no César (o ‘Oscar’ da França). O sucesso destes dois trabalhos teria sido suficiente para abrir as portas de diversos produtores para Barny rumo a trabalhos mais comerciais e populares. Ele, no entanto, preferiu se manter fiel aos seus intuitos originais. Fanon é mais uma consequência desse direcionamento.
Por mais que seja uma cinebiografia estruturada por meio de arquétipos convencionais, a força de suas imagens e do discurso que carrega se mostra suficiente para justificar um olhar mais detalhado. Quando Fanon é designado para assumir o comando do Hospital Blida, na Argélia, não imaginava que sua vida estaria prestes a sofrer uma guinada radical. Primeiro, pelo estado das coisas que o esperam e o grau de envolvimento que teria que demonstrar nos meses seguintes para, enfim, fazer diferença, não apenas na estrutura, mas em toda a lógica de atendimento. Depois, a partir da entrada de um paciente em particular – que posteriormente fora levado pelo exército e cujo paradeiro não mais se teve notícias – o seu consequente envolvimento com os esforços (às vezes não tão pacíficos) pela independência da região em relação à França. Ele também vinha, enfim, de um ‘não-lugar’, de uma colônia abduzida por outros e cujas tradições e costumes lhes foram negados. Propor tais registros, por mais lineares que se mostrem, é uma tarefa que o longa cumpre com dedicação e envolvimento.
Mas a curiosidade do espectador poderá levá-lo adiante, e se assim fizer, Fanon terá alcançado o maior dos seus objetivos: servir de ponto de partida para um estudo e entendimento que o cinema até pode percorrer e atravessar, mas nunca se dar por satisfeito. Eis, portanto, a necessidade de se perceber uma figura como essa por todo o seu conceito e influência, algo que aqui é visto apenas dentro dos limites já propostos. Frantz ficará ao lado daqueles que estarão sob seus cuidados e se recusará a aceitar a “loucura” (assim mesmo, entre aspas) como uma causa perdida e sem solução, da mesma forma como não abrirá mão de um caráter firme e de um direcionamento objetivo em sua postura política, independente dos enfrentamentos e embates que marcarão sua trajetória. Repercussões familiares são minimizadas (o primeiro casamento dele, por exemplo, é citado apenas em um rápido diálogo), mas o conjunto oferece a dimensão sentida por ele e nos seus como consequência dos atos e decisões que lhe cabem, fazendo do conjunto um processo a se desenrolar em meio a uma tensão crescente, oscilando entre a narrativa biográfica e o thriller social.

Se Alexandre Bouyer (O Maquinista, 2022), como o personagem-título, se mostra não mais do que correto, evitando deslizes e atento a uma postura estoica, a grande surpresa está no desempenho assustador – e hipnotizante – de Stanislas Merhar (Caso 137, 2025) como o violento sargento Rolland. Ao invés de se comportar como um mero antagonista, a fúria controlada que emerge dos seus olhos e ações, a qual permite um vislumbre fugaz por meio de olhares enviesados e palavras mal ditas, faz dele o tipo mais complexo e intrigante do elenco, enriquecendo até mesmo a presença – e o efeito – do protagonista a partir da dinâmica estabelecida entre eles. Arthur Dupont e Olivier Gourmet, figuras mais conhecidas, pouco possuem o que fazer, oferecendo apenas o que deles lhes é exigido. Em resumo, Fanon entrega não mais do que o esperado, com um ou outro ponto alto capaz de elevar o todo em sua média, permitindo que o debate proposto não apenas seja colocado, mas discutido e, por fim, não esquecido.
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Grade crítica
| Crítico | Nota |
|---|---|
| Robledo Milani | 6 |
| Daniela Pedroso | 7 |
| Monica Kanitz | 8 |
| MÉDIA | 7 |

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