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Sinopse
Em Família de Aluguel, um ator americano em crise profissional e emocional encontra um rumo inesperado ao trabalhar em uma agência japonesa que oferece “familiares substitutos” para desconhecidos. Ao interpretar papéis que vão de marido a irmão, ele cria laços autênticos que borram as fronteiras entre atuação e afeto. Entre dilemas morais e encontros transformadores, ele reencontra propósito e um novo sentido de pertencimento. Comédia/Drama.
Crítica
Alguns estereótipos só se permitem serem consolidados como tais por suas inevitáveis conexões com a realidade. Ou seja, por tanto se repetirem, acabam se apresentando como regras, mesmo que as exceções não se cansem em se manifestar. Um clichê bastante conhecido é que aponta as civilizações ocidentais como mais emocionais, enquanto que os orientais seriam – em tese, importante reforçar – mais ligados à razão. Um filme como Família de Aluguel surge como consequência dessa visão de mundo. Afinal, trata de um fenômeno bastante específico, raro em grande parte do planeta, mas anunciado como relativamente comum no Japão: as agências de atores para se colocarem em situações particulares, íntimas e privadas. Ou seja, em tese, tem-se alguém contratado para interpretar um papel na vida real dos outros, e não em um palco ou diante das câmeras. Brendan Fraser é o estranho no ninho, aquele que acaba no meio dessa situação como forma de levar a vida. Uma escolha apropriada da diretora Hikari, que faz do ator hollywoodiano a ponte para o espectador se identificar com uma história tão singular, ainda que a partir de sentimentos universais.

Vencedor do Oscar de Melhor Ator por A Baleia (2022), Brendan Fraser se tornou conhecido mundialmente como um galã descamisado por causa da aventura George, O Rei da Floresta (1997), pela saga A Múmia ou mesmo por comédias que investiam no besteirol, como O Homem da Califórnia (1992), Os Cabeças-de-Vento (1994) e Polícia Desmontada (1999). O que muitos esquecem é que, em paralelo, ele recorrentemente demonstrava interesse por trabalhos mais autorais e desafiadores, aparecendo ao lado de nomes de prestígio que tinham muito a lhe ensinar, como Ian McKellen (Deuses e Monstros, 1998), Michael Caine (O Americano Tranquilo, 2002) e Harrison Ford (Decisões Extremas, 2010). Sem esquecer que esteve em destaque em uma produção vencedora do Oscar de Melhor Filme (Crash: No Limite, 2004). E ele aprendeu bastante em cada uma dessas experiências. Por mais que tenha enfrentado momentos de baixa, após a conquista da estatueta dourada esteve envolvido em projetos relevantes, sob o comando de cineastas como Steven Soderbergh (Nem um passo em falso, 2021) e Martin Scorsese (Assassinos da Lua das Flores, 2023). O que faz em Família de Aluguel, portanto, não é obra do acaso. É, sim, resultado de uma longa caminhada.
Fraser surge como Phillip Vanderploeg, um ator que foi levado à Tóquio graças ao sucesso de um anúncio publicitário de pasta de dente que estrelou há alguns anos. O mesmo impacto, infelizmente, não mais se repetiu, e atualmente segue em busca de qualquer oportunidade que possa lhe ajudar a pagar o próximo mês de aluguel. É quando seu agente lhe chama, passando-lhe um endereço ao qual deve se dirigir na manhã seguinte, e com uma recomendação: “não faça perguntas, vista um terno e trate de se integrar ao ambiente da forma mais discreta possível”. Ao chegar no lugar indicado, percebe estar em um velório. Mas rapidamente descobre não ser essa uma cerimônia como as outras. Afinal, o morto… está vivo. E foi ele que o contratou, assim como muitos dos outros que ali também estão. São, como Phillip, atores, ali presentes como parte de uma cena. O homem os contratou pois desejava vivenciar a experiência do próprio enterro. E assim o fez. Assim como a moça lésbica que, antes de ir morar em outra cidade com a namorada, encenou um falso casamento com um homem fantasioso (Phillip, que mais uma vez está apenas fazendo seu trabalho) para agradar os pais, que desejavam ter essa memória – mesmo sabendo não ser verdadeira.
Eis, enfim, o imbróglio a ser superado no decorrer de Família de Aluguel. Tanto o rapaz não-morto, como a moça não-casada, ou outros citados em cena, como o jovem que o contrata apenas para agir como seu amigo em sessões de videogame, estão cientes da suposta farsa, e ninguém está ali sendo enganado de fato. Mas eis que surgem os dois envolvimentos mais críticos da história. Phillip é chamado para interpretar o pai de uma menina. A mãe buscou os serviços da agência pois deseja matricular a filha em uma escola bastante rígida que talvez não a aceite se soubesse que o pai é ausente. Da mesma forma, uma jovem irá solicitar seus serviços para fingir ser um jornalista querendo fazer uma longa entrevista com o pai, que já foi um ator famoso, mas hoje se encontra esquecido, próximo a uma depressão. As intenções dos familiares – tanto a mãe da menina, quanto a filha do senhor – são as melhores possíveis. Mas os diretamente afetados desconhecem o que de fato está acontecendo. E assim, acabam se abrindo àquele estranho que adentrou em suas vidas. Da mesma forma, ele também não conseguirá se manter ileso a essas aproximações.

Como discutir responsabilidade afetiva diante de um comércio regido por normas bastante objetivas, que não envolvem emoções, mas são guiadas quase que exclusivamente por essas? Hikari, conhecida por seu envolvimento em séries como Treta (2023) e Tokyo Vice (2022), oferece pinceladas nesse sentido, levantando possibilidades que, no entanto, não chegam a ser desenvolvidas a contento. Dessa forma, fica muito sobre as costas do elenco, com destaque para Fraser, em um dos desempenhos mais complexos de sua carreira. Ele está permeado por uma sensibilidade à flor da pele, ao mesmo tempo em que se esforça para não se perder em suas obrigações. O patrão, interpretado por Takehiro Hira (Xógum: A Gloriosa Saga do Japão, 2024), e a jovem Shannon Mahina Gorman (indicada ao Critics Choice por esta atuação), como a pequena Mia, são outros destaques, combinando os dois lados dessa mesma moeda: a praticidade de uma relação comercial pensada por um, como a afetividade natural que cresce em um espaço marcado pela carência, em outra. São questões que Família de Aluguel apresenta, porém sem o aprofundamento necessário. Há mérito em levantar o debate, mas uma vez posto, exige-se mais. O que, infelizmente, acaba não acontecendo.
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