Crítica

Da tela negra, só se depreende o som de uma conversa entre uma assistente social e um homem, que recorreu a ela em busca de ajuda. Não há imagem – e o cinema não seria “imagem em movimento”? – apenas som. E este é suficiente para nos colocar diante do drama ali enfrentado. Ele sofreu um ataque do coração em pleno ambiente de trabalho e foi proibido por ordens médicas de voltar às suas atividades. Precisa se recuperar, afinal. Mas a moça com quem está agora dialogando parece pouco sensível ao que lhe aconteceu. Afinal, não seria surpresa alguma se descobríssemos dezenas de outros casos iguais a esse em sua rotina diária. O resultado deste embate – que deveria ser simples, quase banal – irá ditar as consequências e o desenrolar das ações de Eu, Daniel Blake, filme mais relevante pelas discussões que levanta do que por seu conteúdo em si.

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Daniel Blake, como se pode imaginar, é a contrapartida humana da relação acima descrita – e percebida nos minutos iniciais do longa assinado por Ken Loach, um cineasta que se caracteriza, além dos temas fortes que costuma abordar, uma constante preocupação com as causas sociais. Do outro lado está a máquina do governo, corrompida, robotizada, automática, insensível, que em nome de uma suposta democracia igualitária trata todos a mesma forma – nivelando-os por baixo, no entanto. De nada mais adiantam os argumentos individuais: estamos sujeitos a uma mediocridade reinante e crescente, em que as chances de alguém obter o respeito que merece foram dizimadas por anos de práticas mal conduzidas e uniformizações desnecessárias. O fundo do poço está muito mais próximo do que se poderia imaginar – isto é, para aqueles que ainda não o atingiram. E, em resumo, é o que se busca aqui: uma denúncia que, talvez, possa repercutir além do âmbito cinematográfico.

Daniel não pode trabalhar. Mesmo que queira, não tem condições, e assim atesta aquele que o avaliou. No entanto, num universo onde todos são números e prazos e serem cumpridos, ou ele se encaixa nestes moldes pré-estabelecidos, ou ficará de fora. Há formulários a serem preenchidos, depoimentos a serem prestados, avaliações a serem atendidas. E se ele não estiver à altura de tudo o que se espera dele, será simplesmente deixado de lado. Independente do que lhe possa acontecer. E não que ele não esteja tentando.

Mas Daniel Blake não é o único nesta situação. Aliás, seja na Inglaterra de Ken Loach, no Brasil e mesmo na maioria dos lugares do mundo, as condições são similares. Há milhares em necessidade, e muito pouco o que fazer para lhes ajudar. Os pobres ingleses são quase ricos se comparados com os brasileiros, mas ainda assim este é um sentimento fácil de se identificar. Por isso que a entrada na vida do protagonista de uma mãe solteira, ao lado de suas duas crianças, só irá contribuir na empatia do público pelo que estes personagens estão vivendo. É preciso pagar o aquecedor, trocar de sapato para ir à escola e ter o que comer na hora do jantar. Ele ainda pode, como último recurso, vender alguns móveis ao armarinho da esquina para conseguir mais uns trocados enquanto espera pelo auxílio do governo. Ela, por sua vez, luta para se encaixar na nova vizinhança, pois ao menos tem um teto sob sua cabeça – cortesia da assistência social, bom lembrar. São pessoas com dificuldades, é claro. Mas a situação poderia ser muito pior. Ou não?

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Ou talvez seja o suficiente. Ken Loach compõe um retrato delicado, porém universal. É a partir destes personagens que elabora seu discurso, fazendo-os apelar a decisões drásticas – e isso sob um julgamento religioso, é claro, mas ainda assim moralmente duvidoso – e com cenas de forte impacto – quando a mãe abre uma lata de molho de tomate da cesta básica recém ganha simplesmente por não aguentar mais de fome, todos nós podemos nos imaginar na mesma situação. Mas, ainda assim, é um cenário muito branco, muito asséptico, quase padronizado. Eu, Daniel Blake caminha por rotas seguras, quase num socialismo de boutique. Isso não tira a força intrínseca ao debate que defende, é bom ressaltar. No entanto, termina por convergir em sua própria previsibilidade. E até a conclusão apontada, que deveria provocar gritos de mudança, acaba por se contentar com um grito vazio e até mesmo óbvio. Mais um entre tantos. Ainda que tivesse todos os elementos para, enfim, fazer diferença.

As duas abas seguintes alteram o conteúdo abaixo.
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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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