Crítica


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Sinopse

A Batalha de Dunquerque é um dos momentos mais marcantes da Segunda Guerra Mundial. É nessa cidade da França onde forças britânicas e francesas foram encurraladas pelos alemães. Dessa forma, entrou em ação a Operação Dínamo, que visava evacuar pelo mar mais de 300 mil soldados.

Crítica

A marcante série de eventos ocorridos nas praias de Dunquerque, na França, durante a Segunda Guerra Mundial, já esteve outras vezes na tela grande. Dos clássicos O Drama de Dunquerque (1958), com Richard Attenborough, e Gloriosa Retirada (1964), com Jean-Paul Belmondo, até os mais recentes Dunkirk (2004), minissérie da BBC, e Operação Dunkirk (2017), telefilme também lançado neste ano, basta analisar as causas e as repercussões desse episódio para compreender porque este momento tão singular tem despertado tamanho interesse de cineastas e realizadores ao longo das últimas décadas. Faltava, no entanto, um filme que ficasse acima da mera curiosidade histórica e que fizesse jus não apenas aos feitos verídicos, como também pagasse tributo ao talento e à criatividade que apenas o real artista pode combinar. Pois assim é Dunkirk, um conto tão humano quanto revolucionário, que se foca no momento particular que lhe serve de título para estudar, a partir dele, os reflexos e consequências verificados entre alguns dos seus principais envolvidos, independente do âmbito ou do grau de relevância que a História pode ter lhes concedido.

Um garoto corre por ruas desertas de uma cidade que não tem mais vida. Sem nenhum aviso prévio, tiros começam a surgir por todos os lados. Não lhe cabe salvar ninguém além de si próprio.

Dor e desespero compõem a narrativa deste épico minimalista dirigido com maestria por Christopher Nolan. O cineasta, a despeito de alguns nomes estrelados no elenco, deixa logo claro ser ele o astro maior desta constelação. E não por uma questão de ego ou de soberba. O que importa aqui é o todo, o espectro maior, aquele que só pode ser percebido em sua magnitude através dos olhos deste realizador visionário. Nolan já foi ao passado (O Grande Truque, 2006) e ao futuro (A Origem, 2010), já viajou ao espaço (Interestelar, 2014) e investigou o lado realista dos super-heróis (Trilogia O Cavaleiro das Trevas). Sempre mantendo a mesma segurança, um distanciamento calculado, alternando passagens de intensa emoção com outros de virtuosismo técnico. Promovendo, assim, espetáculos tanto para os instintos básicos como, também, para as reflexões mais apuradas.

Dois homens reduzidos a não mais do que crianças. Um busca um lugar afastado de olhos curiosos para atender a um chamado da natureza. O outro ignora a presença daquele estranho enquanto tenta emular um respeito que talvez não mais encontre espaço naquela realidade.

Tommy (o estreante Fionn Whitehead) é um soldado inglês perdido na França. Após os alemães invadirem o país, resta ao exército real apenas um caminho: a retirada. Voltar para casa, no entanto, não é tão simples. Há inimigos por todos os lados. Ninguém sabe em quem confiar. Trezentos mil oficiais como ele estão em Dunquerque, um dos pontos franceses mais ao norte do país. “Com força, é possível ver o outro lado, onde estão nossas famílias”, afirma um deles. Porém, fazer a travessia não é algo simples. Irá exigir determinação e comprometimento, entrega e sabedoria. Não basta ficar na fila, um atrás do outro, esperando por sua vez. A oportunidade pode surgir a qualquer instante. Nolan não quer recompensar os espertos, aqueles que se acham melhores do que os outros, que ignoram as demandas maiores. Ele apenas está interessado no indivíduo e no que este está disposto a fazer para sobreviver a tal ponto que a trajetória de um se revela sendo a de todos.

O avião abatido será resgatado? O navio afundando merece socorro? O pequeno barco salva-vidas... quantos conseguirá socorrer? Como decidir quem tem direito a uma nova chance?

Os militares de mais alta patente precisam tomar duras decisões. As ordens que recebem afirmam que o resgate estará ao alcance de 30 mil homens, na melhor das hipóteses, quarenta e cinco mil. O que fazer quando há dez vezes mais almas à espera de uma mão que os ajude? O diretor investiga essa situação através de uma condução vertiginosa. Soldados correm de um lado para outro na beira da praia, outros são recebidos em navios que, logo em seguida, afundam abatidos pelos inimigos. Tudo se resume a uma impressionante composição destinada a promover as reações mais imediatas e, ao mesmo tempo, profundas do público. Um desenho de som absurdamente realista praticamente abre mão de diálogos, e estes, quando surgem, reiteram a veracidade dos fatos aqui verificados. Efeitos visuais estão à serviço de uma história que precisa ser contada. Ninguém é maior do que o ocorrido. Nomes de destaque, como Tom Hardy, que passa quase todo o filme em um cockpit escondido sob a máscara que mantém o personagem vivo, tem igual importância do que o desconhecido francês que se recusa a falar para não entregar sua origem. Ele não chega a ser um inimigo, mas haverá espaço para oferecer auxílio àqueles que já foram aliados?

O homem que, contrário a todas as evidências, insiste em oferecer sua ajuda a qualquer um que encontre pelo seu caminho. Seja o soldado desorientado, que resgata da embarcação à deriva, sejam os náufragos envoltos por um mar de fogo. Talvez ele não seja suficiente, mas certamente fará a diferença na vida de muitos.

Christopher Nolan sabe bem o que almeja em Dunkirk. Este é um filme que fala do instante, do momento da virada, da busca por algo a mais que separa a vida da morte. Famosos e novatos possuem igual relevância em um elenco coeso, da mesma forma em que todo o aparato técnico a seu dispor é colocado a serviço de uma narrativa primorosa que almeja elucidar como nasce a esperança e de onde vem a resistência que a impede de ir embora. Técnica e roteiro, atuações e direção, um conjunto formado por partes que, somadas, resultam em algo maior e de impacto efetivo. Mais que um drama de guerra, é uma história de luta e sobrevivência, em que dia e noite se misturam, e o hoje e o amanhã não mais fazem sentido separados, apenas quando observados como partes de um todo. Uma obra com letras maiúsculas, que trata seu espectador com respeito, sem subestimar a inteligência e nem desprezar a perspicácia deste. Cinema adulto, como raramente ainda se faz, mas que, quando se manifesta, altera a vida dos afetados – tanto na ficção quanto fora dela.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.

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