Crítica


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Sinopse

Suryellen, cozinheira de mão cheia, sempre sonhou em ser chef. Mãe solteira de Maxsuel, vive no subúrbio carioca com o filho, a mãe aposentada, Sonja, e Sarelly, sua irmã encostada. Como tantas mulheres que precisam se dividir em várias para dar conta de tantas tarefas, Suryellen não tem tempo para ser feliz. Até que conhece uma feiticeira que lhe concede a chance de realizar seu maior desejo. Só que na hora de fazer o pedido, o que aparece é uma cópia dela mesma.

Crítica

Gênero tradicional do cinema brasileiro, a comédia frequentemente está no centro dos debates acerca da produção nacional. Sucesso de público, às vezes nem tanto de crítica, esse filão, contudo, possui ótimos exemplares, aos quais, infelizmente, Duas de Mim não se alinha. Este longa-metragem da diretora Cininha de Paula é protagonizado por Suryellen (Thalita Carauta). Moradora do subúrbio carioca, ela acorda diariamente às 4 da manhã para fazer as quentinhas que entrega de porta em porta antes de começar o expediente num renomado restaurante, como lavadora de pratos. O começo – excetuando-se a música Cotidiano, na voz de Seu Jorge, de caráter reiterativo, por simplesmente espelhar a imagem – é um bom exemplo de apresentação sintética, pois mostra de maneira concisa a rotina dessa mulher que corta um dobrado para manter as coisas em ordem, incluindo a educação do filho adolescente e a casa, onde vivem, ainda, a mãe (Maria Gladys) e a irmã caçula (Letícia Lima), esta que pouco ajuda.

Assoberbada, Suryellen é desenhada inicialmente como uma incansável batalhadora que não mede esforços para sobreviver. Todavia, o acúmulo de funções a faz desejar ter outra de si, vontade prontamente atendida pela misteriosa Boleira (Stella Miranda) e seu quitute mágico. Eis que surge a Cópia, uma versão extrovertida e espalhafatosa da protagonista, o que estabelece um contraponto repleto de possibilidades. Porém, Cininha pretere as potencialidades em função de um itinerário apressado, marcado essencialmente pelo humor ligeiro, de fácil assimilação e pronto esquecimento. Ao invés, por exemplo, de mergulhar nas dificuldades da mulher que tenta transpor barreiras para vencer na vida, permitindo, assim, o surgimento da graça em meio à base calcada numa sólida realidade, a diretora faz questão de permanecer num nível raso da comicidade, apostando alto numa representação superficial, bastante maniqueísta, que não aspira à sofisticação, inclusive no que tange à encenação.

A sucessão de desperdícios engrena quando, inexplicavelmente, Suryellen consegue ser aceita como competidora de um programa de culinária veiculado em rede nacional. Claro, a participação dela só é viável por força da estranha presença da Cópia no restaurante, lavando pratos. Duas de Mim simplesmente impõe que apenas muito tardiamente alguém perceberá a coexistência das mulheres idênticas, embora de personalidades contrastantes. A realizadora não consegue extrair dessa necessidade de revezamento, especialmente no convívio doméstico, algo para além de tiradas breves e sem qualquer graça. Em determinados momentos, parece que o filme vai enveredar pela seara da mensagem edificante, pois, mesmo fazendo bagunça, a Cópia oferece a Suryellen uma alternativa menos sisuda à transposição do cotidiano árduo. Nem isso evolui a contento. Há uma recorrência de planos aéreos do Rio, expediente de transição sem relevância dramática, que funciona como mera pontuação.

A inverossimilhança em Duas de Mim passa ao largo de sua esfera extraordinária, pois se percebe mais marcadamente na articulação das situações diárias, nas interações familiares, na relação dos colegas de trabalho e na própria disposição do tempo. Thalita Carauta está muito bem como Suryellen, mas sucumbe ao exagero ao interpretar seu duplo, flertando constantemente com um histrionismo cansativo. No que tange aos demais atores, Alessandra Maestrini possui uma participação forçada, restrita a caras e bocas artificiais e banais, em semelhante medida. Maria Gladys é praticamente figurante, assim como Letícia Lima, colocada em cena, aparentemente, para reforçar estereótipos referentes aos habitantes das periferias. Aliás, nesse tocante, Márcio Garcia está constrangedor com sua pinta de bicheiro que fala errado para denotar ignorância. Já Latino, encarnando o faxineiro cover do Latino, não compromete (vejam só), neste filme seriamente vitimado por inconsistências de roteiro e direção.

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é crítico de cinema, membro da ACCRJ (Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro) e da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema,). É, também, professor da Escola de Cinema Darcy Ribeiro/RJ.
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