Depois do Fogo

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Sinopse

Em Depois do Fogo, após incêndios florestais devastarem seu rancho, o cowboy Dusty vê sua vida reduzir-se a cinzas e acaba instalado em um acampamento ao lado de outros desabrigados. Entre a perda material e o choque emocional, ele tenta reconstruir não apenas o que foi destruído pelo fogo, mas também os laços com a filha e a ex-esposa. Drama.

Crítica

Na temporada de premiações do Oscar 2026, um título apareceu de forma quase inesperada entre os indicados, apesar de ter sido lançado meses antes de maneira bastante discreta e não ter figurado em nenhuma agremiação de destaque entre os melhores do ano até serem anunciados os preferidos da Academia. Trata-se de O Ônibus Perdido (2025), longa de Paul Greengrass que conseguiu se posicionar entre os finalistas a Melhores Efeitos Visuais. Um reconhecimento inegável, mas que coloca em evidência, de fato, o que esse filme tem de melhor: sua excelência técnica. Depois do Fogo, escrito e dirigido por Max Walker-Silverman, parte do mesmo evento que domina o thriller estrelado por Matthew McConauhey, porém, direcionando suas atenções não ao impacto causado por um incêndio de proporções inimagináveis, mas àqueles diretamente afetados pela tragédia. Não espere ver aqui labaredas imensas consumindo grandes áreas ou propriedades. Nesse drama bastante íntimo, o que importa são as pessoas. Um pequeno detalhe que acaba por fazer toda a diferença.

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Sai de cena o galã vencedor do Oscar por Clube de Compras Dallas (2013) e que teve seu auge na primeira década do século XXI e assume como protagonista Josh O’Connor, um dos mais ocupados atores de Hollywood do momento. Somente em 2025 ele marcou presença em nada menos do que quatro projetos: esse e A História do Som estão estreando, coincidentemente, no mesmo dia no Brasil, enquanto Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out fez sucesso na Netflix e The Mastermind despertou debates acalorados entre os cinéfilos mais radicais. Dusty, o cowboy desorientado de Depois do Fogo, é meio que um misto de todos esses personagens. Ele também está perdido, sem saber qual próximo passo dar em sua vida. Também se sente culpado por algo além da sua competência e que ele próprio não poderia ter evitado. E da mesma forma possui responsabilidades que o obrigam a medidas extremas, decisões essas que tentará evitar a todo custo, até o último momento. O processo de desapego é forte e gera consequências profundas entre os envolvidos. Ainda mais quando se encontram, nos dois lados da balança, urgências práticas numa ponta, e sentimentos consolidados pelo tempo na outra.

Walker-Silverman, que estreou no formato longa com o drama Uma Noite no Lago (2022) – premiado no National Board of Review, indicado ao Gotham e ao Spirit Awards e exibido nos festivais de Sundance e de Berlim – escolheu como cenário de Depois do Fogo a região de San Luis Valley, no Colorado. Não muito distante de Paradise, na California, onde é ambientado o já citado O Ônibus Perdido. A costa oeste dos Estados Unidos tem sido constantemente palco de gigantescos incêndios, inicialmente apontados como naturais, mas após investigações e análises se percebem terem sido causados pela interferência humana. O diretor, no entanto, não busca estabelecer culpados nem partir em campanhas de vingança. Pois no meio destes debates estão as vítimas, homens, mulheres e crianças que precisam seguir vivendo de uma forma ou de outra. Assim como Dusty, que perdeu toda a sua fazenda, e hoje tem diante de si apenas uma terra queimada, sem vida e prestes a ser abandonada. Tal qual seus vizinhos. Sem ajuda do governo e desprovidos de melhores condições, estes trabalhadores que construíram suas vidas em cima de uma aposta que foi reduzida às cinzas da noite para o dia se veem sem esperança, sem ânimo, sem motivos para seguir. Mas é preciso.

No caso de Dusty, esse chamado à responsabilidade vem em nome da filha, a esperta e sensível Callie-Rose (vivida com gana e delicadeza pela australiana Lily LaTorre, vista antes na série O Culto Secreto, 2023). A menina, nos momentos em que está com o pai, não precisa se fazer ouvir por meio de palavras ou birras infantis. Seus gestos são mais do que suficientes. Assim como os olhares trocados por ele com a ex-esposa Ruby (Meghann Fahy, de Drop: Ameaça Anônima, 2025). Entre os dois está viva a dor da separação, mas esta não matou o que sentem um pelo outro. Principalmente no que fala sobre o respeito entre eles, o entendimento adquirido por décadas de convivência – se conhecem desde crianças – e a maneira como ambos lidam com suas próprias perdas. Quando a mãe dela se vai – participação quase afetiva, porém poderosa, de Amy Madigan – o fim de uma pode também significar o início de uma nova fase para os que ficam. Não por meio da ganância, do escárnio ou de qualquer outro tipo de vilania. Fala-se aqui de emoções mais nobres. De desamparados que precisam se unir em tempos difíceis. Seja em vida, como também na morte.

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O britânico Josh O’Connor mergulha na alma desse norte-americano do interior que, provavelmente no momento mas difícil de sua história, encontra nos outros a força necessária para se levantar e reconstruir – esse, afinal, é o título original do filme. Não há espaço – nem demanda – para grandes discursos, palestras motivacionais ou milagres tirados do fundo da cartola. A situação é mais real, terrena e perene. O que acontece com um se torna exemplo aos demais, que assim encontram os meios para se levantarem. Em meio a um horizonte aparentemente inacabado, há muito pelo qual percorrer, e estes tipos aqui postos em cena não se deixarão abater, por maior que seja a tragédia que lhes fora imposta, pois se não mais sozinhos, terão, enfim, em quem se apoiar. Seja numa torneira que após muita espera terá água a oferecer, numa leitura na caçamba da caminhonete por meio de uma lanterna já enfraquecida ou uma marmita improvisada deixada na soleira da porta: de um jeito ou de outro, a existência se faz presente – e necessária – em Depois do Fogo. Senão por um, que seja por todos.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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