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Sinopse

Um estudante do ensino médio que encontra um caderno sobrenatural e percebe que nele existe um grande poder: se o proprietário escrever o nome de alguém enquanto estiver pensando em seu rosto, a pessoa morrerá. Iludido por sua nova habilidade divina, o jovem começa a matar aqueles que julga indignos a viver.

Crítica

Death Note foi um estrondoso sucesso editorial no Japão, repetindo o êxito nos inúmeros países em que foi publicado. O mangá escrito por Tsugumi Ohba e ilustrado por Takeshi Obata já havia sido transposto aos cinemas, porém em versões nipônicas. Esta produção original Netflix é a primeira realização estritamente norte-americana oriunda da marca absolutamente estabelecida e rentável. Infelizmente, pouco de memorável, pelo menos no sentido positivo, sobreveio aos esforços do cineasta Adam Wingard. Na trama, Light (Nat Wolff) é um estudante secundarista que encontra casualmente um caderno incomum. Ao lê-lo, e depois em contato com o próprio demônio que passa a “servi-lo”, o protagonista se inteira dos poderes especiais do artefato. As pessoas cujos nomes figuram nas páginas amareladas dele simplesmente morrem. Irresponsavelmente, o jovem principia um caminho sem volta, justificando moralmente suas ações com uma suposta ajuda social, pois mata somente bandidos impunes.

Tudo acontece muito rápido neste Death Note. Tão logo se vê familiarizado com as possibilidades do instrumento que literalmente lhe caiu dos céus, Light, num rompante de imbecilidade e exibicionismo, conta para uma colega de escola o seu segredo, fazendo dela cúmplice e amante. Mia (Margaret Qualley) demonstra rapidamente afeição pelos procedimentos que envolvem a interferência de Ryuk (voz e movimentos de Willem Dafoe). Aliás, o shinigami (deus da morte), figura emblemática, é vista no mais das vezes apenas na penumbra, nunca com sua expressão e corpo plenamente revelados pela luz. A opção passa muito ao largo da intenção artística, soando mais como restrição. As mortes, embora tecnicamente convincentes, são forçosamente gráficas, com cérebros explodindo, pessoas sendo cortadas ao meio, numa tentativa inexplicável de amplificar o perigo pela via do explícito, soando vulgar. O expediente, bem gratuito, é abandonado no decorrer do filme.

Adam Wingard lima toda e qualquer chance de profundidade, se atendo às camadas mais epidérmicas do enredo. Assim, as possíveis implicações éticas e filosóficas, intrinsecamente ligadas ao comportamento de Light, à arbitrariedade das decisões, sem critérios fortemente estabelecidos, sobre quem deve morrer, são preteridas em função dos conflitos familiares e amorosos. Há mais tempo ao tratamento das complicações domésticas, afinal de contas Light é convenientemente filho do policial encarregado de investigar a onda de mortes suspeitas, que necessariamente aos complexos dilemas. Outro sintoma da debilidade do longa-metragem é a conduta de Mia, personagem que entra em cena basicamente para corromper o protagonista, como que pretensamente desviando nossa antipatia do garoto perdido em suas próprias aspirações megalômanas. L (Lakeith Stanfield), detetive misterioso que desafia publicamente Kira – nome dado ao assassino “justiceiro” – não é mais que reles coadjuvante.

Death Note é apressado, falho na tentativa de abarcar em seus parcos 101 minutos os diversos vieses. O efeito colateral dessa avidez, aliada ao roteiro ineficaz, é o desinteresse predominante pelas ocorrências. Falta densidade ao desenvolvimento, bem como aos personagens encarados a partir de suas características mais básicas, com raras exceções, acessados superficialmente. É realmente um desperdício patente o subaproveitamento de Ruyk, uma visão terrível que possui pouco peso dramático e, também, no que tange ao plano visual. A veia sarcástica desse demônio manipulador é reduzida a meia dúzia de tiradas pontuais. Portanto nem mesmo Willem Dafoe e sua voz inconfundível possuem espaço suficiente para fazer alguma diferença. O antagonismo entre Light e L é o mais pífio dos aspectos deste filme verdadeiramente insosso, pois reduzido a um jogo ordinário de gato e rato, destituído de intensidade e tensão. Nem a dinâmica pai/filho se salva no conjunto.

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é crítico de cinema, membro da ACCRJ (Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro) e da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema,). É, também, professor da Escola de Cinema Darcy Ribeiro/RJ.
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