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Em Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor, as irmãs Owens se veem novamente às voltas com a magia ancestral de sua família quando uma antiga maldição ameaça romper de vez os laços que as unem. Entre feitiços, confusões e acontecimentos sobrenaturais, elas precisam encontrar uma maneira de enfrentar a força sombria que coloca em risco o futuro de todas. Fantasia.
Crítica
Eis o típico caso da sequência que ninguém pediu, mas que, mesmo assim, agora se encontra à disposição de um público que parece não saber ao certo o que fazer diante da oferta. Tanto Sandra Bullock, quanto Nicole Kidman, são estrelas bem diferentes daquelas que precisavam juntar forças quase três décadas atrás, quando Da Magia à Sedução (1998) chegou às telas, para se confirmarem viáveis economicamente. Em meados dos anos 1990, as duas ainda estavam tentando se provar, tanto em termos de bilheteria – e essa é a única explicação para o longa anterior ter sido feito – como em questão de talento (e estar ao lado de uma outra atriz igualmente em ascensão, como era o caso, parecia ser uma aposta segura). Bom, não foi exatamente o que se sucedeu. O longa dirigido por Griffin Dunne foi um fracasso (arrecadou nos Estados Unidos pouco mais do que a metade do seu orçamento, se pagando apenas quando somado com o público internacional) de audiência e de crítica, e parecia destinado a um ostracismo quase irreversível. Mas vinte e oito anos depois, Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor se faz presente mostrando que até mesmo as mais certeiras previsões podem se enganar.

Mais – ou menos – do que um filme, essa sequência é um produto, reflexo do momento de crise no qual Hollywood se vê imerso nesse início do século XXI. Afinal, não se trata de uma motivação descoberta tanto tempo depois, ou de “finalmente encontramos um bom roteiro”, como parece ser a desculpa padrão nesses casos. O que se percebe é o resgate de uma “propriedade intelectual”, ou seja, de uma marca com o qual o espectador, em maior ou menor grau, já possui algum nível de familiaridade. O primeiro filme até pode não ter alcançado o retorno esperado, mas suas protagonistas se consolidaram como figuras de renome. Então, por qual motivo não lhes dar uma nova chance? Ainda mais se aparecerem inseridas em um contexto que tem demonstrado cada vez maior apelo entre as audiências contemporâneas: o ambiente fantástico, extraordinário, da fantasia e da imaginação, longe da realidade nua e crua dos noticiários e das redes sociais. O cinema tem se mostrado um espaço de fuga, de escape ao caos social, e opções que apostam nessa válvula da alienação tem demonstrado força crescente na atual conjuntura.
O mote da história seria uma terrível maldição destinada às mulheres da família Owens: todo homem pelo qual elas se apaixonarem acaba morto. É por isso que Sally (Sandra Bullock, mantendo o estilo “bonitinha atrapalhada” que lhe garantiu as atenções quando despontou para a fama) é duplamente viúva, enquanto que sua irmã, Gillian (Nicole Kidman, dando a impressão de estar do início ao fim do filme procurando com o que se ocupar) parece ter desistido de qualquer tipo de vida amorosa mais séria. Apesar das intérpretes estarem na faixa dos 60 anos, eis um problema grave sobre como a sociedade – e o cinema norte-americano em geral – percebe mulheres dessa idade: suas personagens possuem de dez a vinte anos a menos. Isso se confirma pela troca da atriz que interpretava a primogênita de Sally. Se no longa original esse personagem era defendido por Evan Rachel Wood (nascida em 1987), agora quem aparece como Kylie é Joey King, doze anos mais jovem. Se por um lado algum tipo de progresso foi feito (até décadas atrás atrizes simplesmente não recebiam mais ofertas como protagonistas após os 40 anos), agora elas ao menos seguem trabalhando, mas desde que não aparentem a idade que de fato possuem.
Outro problema crucial presente na adaptação anterior – os dois filmes são baseados na série de livros escrita por Alice Hoffman – era o fato da tal maldição familiar ser uma desculpa para o início da trama, mas não mais do que isso. Dessa vez, pelo contrário, ela está no centro da ação. Quando o namorado de Kylie se declara a ela, no dia seguinte o rapaz é atropelado num acidente grave que o deixa em coma. Decidida a reverter a situação, a namorada encara a herança maldita de frente e resolve elucidar a questão de uma vez por todas. Só que ao invés de pedir ajuda à mãe e à tia, que há anos vem enfrentado o problema, ou mesmo consultando as anciãs (Dianne Wiest e Stockard Channing, não mais do que participações especiais) da casa que tão bem conhecem as práticas mágicas às quais elas terão que recorrer, a garota prefere seguir sozinha para o outro lado do oceano, acreditando que poderá encontrar uma solução por conta própria. Algo que, obviamente, não dará certo. E em meio a um galã novato que não é quem afirma ser (Solly McLeod, de A Casa do Dragão, 2022) e um professor com mais talentos do que aqueles que aparecem à primeira vista (Lee Pace, exibindo um charme convincente), o que se terá pela frente é uma mudança de tom que parece não combinar com o todo.

O certo é que Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor só existe porque Sandra Bullock e Nicole Kidman são nomes ainda relevantes em Hollywood e podem se dar ao luxo de bancar um projeto que é quase um guilty pleasure, ou seja, um prazer culposo. Ao invés de simplesmente passarem o bastão – a ‘nova geração’, por assim dizer, não tem muito o que fazer, com King se revelando a intempestiva, enquanto que Maisie Williams serve apenas para cuidar do namorado acamado da outra (repetindo os mesmos perfis já conhecidos) – as duas estrelas se agarram aos estereótipos, perdendo oportunidades de se aprofundarem nos tipos que defendem. Enquanto uma segue sendo a boazinha, e por isso é recompensada com uma história de amor independente (Bullock mais uma vez é a que encontra o esperado ‘final feliz’), a outra, aquela independente e mais livre, é relegada a um segundo plano, sem interesses próprios e vivendo apenas para atender às necessidades dos outros (Kidman merecia ter mais destaque em cena). Quase trinta anos depois, esperava-se mais – e melhor. Algum avanço foi feito, é fato, mas ainda assim muito tímido frente ao potencial reunido.
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