Crítica


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Sinopse

Kyle e Peter Reynolds são dois irmãos adultos cuja mãe excêntrica os criou para acreditar que seu pai havia morrido quando eram bebês. Ao descobrirem a mentira, se juntam para encontrar seu pai verdadeiro, e acabam aprendendo mais sobre sua mãe do que queriam saber.

Crítica

As histórias são cíclicas. Já dizia uma antiga teoria que todos os enredos do mundo estão nas obras de Shakespeare, que são seguida e continuamente reinterpretados a cada nova geração. E se a família parece ser uma fonte inesgotável de dramas e comédias, são raros os casos como o recente Extraordinário (2017), que consegue, mesmo diante um terreno tão movediço, oferecer algo de novo e comovente. Pois se no elenco desse filme tínhamos um Owen Wilson um tanto distante do eterno clichê que construiu para si mesmo na tela grande, seus fãs (existem?) não devem se preocupar, pois o mesmo bobalhão inconsequente de sempre está de volta em Correndo Atrás de um Pai, longa que fracassa tanto em buscar risos ou debulhar lágrimas, a não ser aquelas de insatisfação após o espectador se dar conta de ter perdido quase duas horas de sua vida diante de uma história que sai do lugar comum para chegar ao nada de novo.

No filme do estreante Lawrence Sher – mais conhecido como diretor de fotografia de títulos como a trilogia Se Beber Não Case (onde conheceu Ed Helms) e pouco visto O Grande Ano (2011) – que era estrelado por Wilson – estes dois atores são irmãos gêmeos (se queriam tanto colocar Owen como protagonista, por que não ter ao lado dele seu irmão de verdade, Luke Wilson? Ao menos são mais parecidos) que descobrem, já adultos, não serem filhos de quem sempre imaginaram. A fotografia que a mãe (Glenn Close, em participação discreta, apenas no início e no fim da história) sempre lhes apresentara era uma mentira, pois ela nunca soube, ao certo, quem era o verdadeiro pai dos dois – “eram os anos 1970, época da Studio 54, tudo o que nos interessava eram drogas e sexo”, foi sua desculpa. Uma vez os fatos esclarecidos, eles partem em busca dessa ‘figura paterna’ (título original do filme, aliás).

A primeira parada é na ensolarada Miami, onde vão parar em busca do ex-jogador de futebol americano Terry Bradshaw (que apesar de aparecer como ele mesmo, já atuou em outras produções do gênero, como em Armações do Amor, 2006, em que era o pai de Matthew McConaughey). O reconhecimento é imediato, todos se dão bem rapidamente – ou quase isso – e quando menos esperam os irmãos estão na casa do astro, jogando bola na praia. A cena de Terry encantado por um dos filhos, o que geralmente era deixado de lado (Helms), com o outro (Wilson) buscando discretamente, mas incisivamente, sua parcela de atenção, é genuinamente engraçada. O problema é que o humor sutil emulado pela trama até esse momento se esvai no segundo seguinte, com a entrada de Ving Rhames em cena, em um combate que derruba o recém chegado sem muita cerimônia. Esse gesto é apenas o prenúncio de que, a partir deste ponto, será tudo ladeira abaixo, com guerras de mijos, discussões na linha do trem (literalmente) e caroneiro (negro) que precisa ser amarrado, pois não é digno de confiança.

Claro que estava fácil demais para ser verdade, e logo os dois se veem novamente na estrada em busca do homem que teria lhes gerado. E entre um picareta em busca de um novo golpe (J. K. Simmons, tentando a todo custo se diversificar) e um pacato veterinário (Christopher Walken, com dublê até para atravessar a rua, porém ainda dono de uma voz potente), um dos irmãos termina passando a noite com uma estranha que pode – ou não – ser sua irmã, enquanto que o outro recebe a notícia que a mina de ouro que sempre lhe permitiu viver sem grandes preocupações está prestes a acabar. O drama, no entanto, não está em suas vidas individuais – um não se dá com o filho adolescente, o outro há pouco descobriu que a namorada está grávida – e muito menos em quem pode, enfim, ser o pai que tanto buscam. Há muito mais a ser debatido entre eles e, como não tardarão a perceber, com a própria mãe, do que sequer chegaram a imaginar.

Mais do que um exercício até um pouco sadomasoquista de narrativa puramente melodramática, Correndo Atrás de um Pai resvala até mesmo em sua estrutura episódica, pois nenhuma chega a ser particularmente marcante, sendo relegadas ao esquecimento assim que os protagonistas passam para a próxima etapa da “aventura de suas vidas”, como não se cansam de repetir. O responsável por esta avalanche de clichês, o roteirista Justin Malen, escreveu o texto de apenas um único filme antes desse – o igualmente frustrante A Última Ressaca do Ano (2016) – mas, por um destes mistérios que ninguém explica, parece estar em alta em Hollywood – ele já tem na sua agenda compromissos com Professora Sem Classe 2 – sequência do sucesso estrelado por Cameron Diaz em 2011 – e Sherlock Holmes 3 – novamente com Guy Ritchie no comando e Robert Downey Jr. mais uma vez como o imortal detetive. Ou seja, nada é tão ruim que não possa ficar pior.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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