Crítica

Chega a ser impressionante - e extremamente positiva - a atenção recebida por Conduta de Risco nesta temporada. Afinal, este bem-sucedido thriller sobre os bastidores do mundo dos grandes negócios e da rotina das poderosas firmas de advocacia nada mais é do que isso: um thriller, e só. Não tem pretensões mais ousadas, como ser um drama de época, um conflito de gerações, uma aventura de guerra ou um épico de imagens marcantes. É, sim, uma história interessante e muito bem contada, narrada com precisão e encenada por atores no total domínio de suas habilidades. E por que querer mais do que isso?

Tony Gilroy afirmou ter tido a idéia para Conduta de Risco enquanto pesquisava para o roteiro de O Advogado do Diabo (suspense com Al Pacino e Keanu Reeves). E, ainda segundo ele, a diferença entre os filmes está na representação do "bem" e do "mal": se no anterior estes pólos estavam marcados pelos dois protagonistas, neste novo trabalho estas manifestações convivem dentro de um mesmo homem, no caso o que dá o título original: Michael Clayton (George Clooney). Advogado frustrado, ele está "preso ao sistema". O casamento naufragou, a tentativa de negócio próprio foi à falência e não consegue abandonar o vício pelo jogo. Assim, precisa manter o emprego como "limpa-desastres" de um dos principais escritórios de Nova York. Quando ele é chamado para "consertar" as loucuras que um dos clientes da firma está cometendo, finalmente percebe o homem que se tornou e o quão difícil será superar aquela situação.

Raras vezes um filme deste gênero consegue ir além do respeito imóvel da crítica e atingir não só o público (mais de 40 milhões de dólares só nos EUA, apesar do baixo orçamento ter ficado em torno de 25 milhões) como também se fazer presente nas premiações de final de ano. E nisso Conduta de Risco também se saiu muito bem! Além das sete indicações ao Oscar (Filme, Direção, Ator, Ator Coadjuvante, Atriz Coadjuvante, Roteiro Original e Trilha Sonora), foi indicado também nas principais categorias do Globo de Ouro e do Bafta, além de ter ganho o National Board of Review de Melhor Ator. Clooney, aliás, mostra de vez que mais do que uma celebridade, é também um dos melhores intérpretes da atualidade. Seu desempenho é muito superior ao visto no oscarizado Syriana (2005) ou de outros bons trabalhos dele, como Solaris (2002) e E Aí, Meu Irmão, Cade Você? (2000). Ele está cansado, desiludido, perdido, porém não derrotado, e segue usando das ferramentas que ele mesmo ajudou a criar, com uma habilidade e eficiência inatas ao personagem. Um baita ator!

Da mesma forma os coadjuvantes Tom Wilkinson (Entre Quatro Paredes) e Tilda Swinton (As Crônicas de Nárnia), ambos indicados ao Oscar, também estão à altura de qualquer maior reconhecimento. Com apenas uma cena cada um merece todo possível elogio: o descontrole dele ou a conversa final dela com Clayton são memoráveis. E isso sem mencionar Gilroy, diretor que estréia com pé direito após alguns anos apenas como roteirista (são dele os três filmes da trilogia Bourne). Seu controle é total, alternando momentos de tensão e um ritmo sufocante com personagens bem construídos e dotados de profundidade psicológica - nós sentimos os dilemas e as crises enfrentadas por cada um deles. Assustador!

Provavelmente Conduta de Risco sairá da festa do Oscar sem nenhuma estatueta. Torço para estar errado, no entanto. Este não é o tipo de filme usualmente reconhecido neste ambiente. E não que isso importe. Seus méritos já estão mais do que evidentes na tela, e é lá onde devem ser apreciados com toda a pompa e circunstância que merecem!

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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