Como Mágica

Crítica


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Sinopse

Em Como Mágica, uma pequena criatura da floresta e um pássaro, inimigos naturais desde sempre, trocam de corpos após um incidente misterioso. Forçados a cooperar, eles enfrentam desafios enquanto tentam sobreviver e reverter a situação - que os põe em situações engraçadas. Aventura.

Crítica

O título brasileiro é um tanto infeliz e pode dar margem a duplas interpretações, mas compreende-se: o que acontece com os protagonistas de Como Mágica é algo que parece ter sido, de fato, tirado do fundo da cartola. Ainda mais explícita é a denominação original – Swapped, ou seja, Trocados – que aponta com maior precisão o que se dá entre eles: uma troca de perspectivas. Parece brincadeira, até mesmo coisa de criança, mas uma análise detalhada irá revelar ser essa a maior necessidade do mundo nos tempos atuais: uma mudança de ponto de vista. Estão todos cada vez mais empenhados em se fazerem ouvir, que pouco tem escutado o outro – o vizinho, o amigo, o familiar, o companheiro, o colega – abstraindo-se, portanto, do poderoso sentimento proporcionado pela empatia. Aqui, no entanto, diante de uma ameaça que pode representar até mesmo a extinção, o que estes personagens fazem é se colocar no lugar daquele diante de si – e, com isso, um horizonte inédito se desvela frente a eles. Um exercício que parece simples, mas que pode apontar para o início de uma aventura envolvente, emocionante e conectada com problemas tanto em uma esfera de fantasia, como no drama cotidiano dos espectadores.

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Como Mágica poderá ficar conhecido, eventualmente, como o primeiro filme estrelado por Michael B. Jordan após ter recebido o Oscar de Melhor Ator em 2026 por sua atuação em Pecadores (2025). Ele pode não aparecer em cena, mas é a voz do pequenino Ollie, um pookoo – que seria uma tipo de lontra. Importante essa observação, pois ainda que os personagens da trama sejam animais, não são necessariamente espécies conhecidas, mas híbridos com características diversas. Nesse universo, há ainda pássaros que se assemelham à samambaias (javans), peixes que se aparentam com algas (boogle), lobos com penugens de arbustos, cobras que se disfarçam de raízes, cervos que parecem ser galhos de árvores e gigantes que carregam em si um ecossistema particular (dzos). Tipos esses habituados a conviver em harmonia até que um dom mágico lhes é concedido – justamente o de se alternarem uns com os outros. A inveja de um, no entanto, poderá colocar tudo a perder, e a partir disso cada elemento se forçará a viver à parte dos demais, gerando insegurança, medo e até uma eventual eliminação por completo.

Jordan é puro carisma como essa figura diminuta dotada de uma qualidade (ou seria defeito?) que o difere dos seus semelhantes: uma incansável curiosidade. Apesar dos conselhos que recebe dos mais velhos, tal ímpeto o leva a compartilhar um segredo com um dos pássaros, e o que parecia o início de uma amizade logo se desdobra numa tragédia de proporções inesperadas. Ele terá que partir sozinho para consertar o que fez, e isso o leva a resgatar um feito que parecia ter ficado resignado aos contos e lendas: o toque em um pomo de luz, a única coisa capaz de ainda proporcionar a tal troca. O que for dito no momento do contato será naquilo que você irá se transformar. Ollie, assim, inadvertidamente se vê como aquilo que mais teme: um javan! Outras alternâncias estarão no caminho não apenas dele, mas dos amigos que irá encontrar pelo caminho também. Assim, não apenas o protagonista, mas outros que assim como ele também desconfiavam dos que não eram iguais a si passam a ver o estranho não como alguém a temer, mas como uma possibilidade a ser descoberta.

Nathan Greno é diretor de uma das últimas fábulas de princesa da Disney a ter feito algum barulho positivo – Enrolados (2010), que foi indicado ao Oscar e faturou mais de US$ 600 milhões nas bilheterias – e após mais de uma década sem assinar um projeto inédito, retorna em grande estilo com Como Mágica. A combinação de elementos fantásticos com a temática ambiental em meio a um discurso que nunca abraça o ativismo reiterativo, ao mesmo tempo em que não esquece da alternância das dinâmicas para manter sua audiência atenta ao desenrolar dos acontecimentos, faz desse projeto uma aposta segura de sucesso e comoção. Ollie e cada novo parceiro que encontra nessa jornada vão aos poucos desenvolvendo relações que, se no início se mostram como ameaças, em instantes se confirmam em amizades pelas quais toda torcida soará justificada. A impressionante qualidade da animação é outro ponto a ser ressaltado. Uma técnica acentuada de realismo explora tanto cores quanto matizes, aprofundando a experiência e permitindo, independente da tela usada pela fruição, uma oportunidade de identificação de rara valia.

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Atual vencedora do Oscar de Melhor Animação (Guerreiras do K-Pop, 2025), a Netflix tem marcado presença nessa categoria em todas as edições da premiação nesta década (ganhou ainda com Pinóquio por Guillermo Del Toro, 2022), ocupando um espaço de excelência e repercussão que em anos anteriores era preenchido pela Pixar e, antes, pela Disney. Como Mágica surge como representante recente deste movimento, e se o impacto do projeto não atinge uma nota ainda maior se deve apenas a sua inevitável similaridade com outra obra igualmente contemporânea, que demonstrava as mesmas preocupações e bandeiras: Robô Selvagem (2024). Este novo não fica em nada a dever ao anterior, e ainda conta com o mérito inegável se explorar uma criatividade inebriante e envolvente no conceito destes personagens, na amplitude de suas ações e na relevância do discurso que abraça. Intenso e profundo em mais de uma camada de leitura, alcançando a percepção tanto dos pequenos, quanto dos adultos que os acompanham? Eis um feito que não é toda hora que se vê por aí, não tanto por falta de vontade, mas mais pela ausência de talento para tanto. Algo que dessa vez se faz presente – e com toda a diferença.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.

Grade crítica

CríticoNota
Robledo Milani
8
Leonardo Ribeiro
6
MÉDIA
7

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