Carrossel da Esperança

Crítica


7

Leitores


1 voto 6

Onde Assistir

Sinopse

Em Carrossel da Esperança, uma vez por ano, uma feira visita a pequena cidade de Sainte-Severe-sur-Indre, onde o carteiro François trabalha, ainda que seja zombado por vários moradores. Em uma edição da feira, alguns amigos o convencem a ir assistir um filme sobre acrobatas, dizendo a ele que é um vídeo sobre o serviço de correios nos Estados Unidos. Ele, empolgado pela bebida, não reconhece que a ideia não passa de uma piada, e leva a sério o que vê na tela. No outro dia, já sóbrio, passa a imitar o que viu no cinema para fazer suas entregas. Comédia.

Crítica

Jacques Tati ficaria mundialmente conhecido pelo Sr. Hulot, nas divertidíssimas peripécias empreendidas pelo personagem em filmes como As Férias de Sr. Hulot (1953) e Meu Tio (1958), ganhadoras de diversos prêmios, incluindo o Oscar para esta última. No entanto, antes mesmo dessas imperdíveis comédias, o cineasta e ator francês já ensaiava seu repertório de gags em Carrossel da Esperança, seu primeiro longa-metragem como diretor. Aqui já é possível observar o apuro visual de suas piadas e o cuidadoso desenho de som, que ajudam a criar uma atmosfera cômica sem igual.

20150608 carrossel 01 e1433730624588

Com roteiro de Tati junto de Henri Marquet e René Wheeler, Carrossel da Esperança acompanha o atrapalhado carteiro François (Tati) enquanto ele tenta realizar seu trabalho em meio a uma feira de variedades que se instala em seu pequeno povoado. Não é sempre que os moradores do local têm este tipo de entretenimento, fato que acaba transformando o cotidiano do vilarejo. Ao observar as maravilhas tecnológicas do correio norte-americano em um filme exibido na feira, François decide implementar o esquema americano em suas entregas, fazendo seu serviço o mais rápido possível. Isto, lógico, gera mais confusões do que eficiência.

Diferentemente de seus filmes posteriores, em Carrossel da Esperança existe maior espaço para diálogos, ainda que eles não sejam necessariamente os melhores momentos da história. Muito mais engraçado é ver Jacques Tati mostrando toda a sua elasticidade na bicicleta, de onde saem suas principais piadas físicas. O artista era atleta no passado, o que explica sua tenacidade em cena. O terceiro ato, no qual o carteiro decide realizar suas tarefas o mais rápido possível, é o que de melhor esta produção oferece, por nos dar o fino do humor de Tati.

20150608 carrossel 02 e1433730667673

O longa-metragem demora a engrenar, até por se alongar no impacto que a feira recém-chegada traz aos moradores do vilarejo. Nos primeiros dez minutos, conhecemos algumas figuras que, na verdade, acabam não sendo totalmente desenvolvidas pelo filme. Um bom exemplo disso é a dupla responsável pelo carrossel, que parece ser protagonista quando o filme inicia e termina por ser apenas coadjuvante de história alguma – o flerte de um deles com uma moradora local só fica nisso, inclusive. Só quando François aparece, mais de dez minutos depois do filme ter iniciado, é que encontramos o real protagonista.

Para quem se encantou com as piadas visuais de Meu Tio, encontrará em Carrossel da Esperança alguns momentos inspirados. O poste para a bandeira da França e, principalmente, as peripécias com a bicicleta são momentos de puro brilhantismo, quando conseguimos enxergar um cineasta que sabe muito bem como trabalhar a imagem – e também o som – para construir um alicerce para o humor. Digna de destaque também é a velha senhora, que serve como comentarista para as mais variadas situações que ocorrem no povoado.

20150608 carrossel 03 e1433730713174

Outro ponto que serve como gênese para os demais trabalhos de Jacques Tati é a preocupação com a americanização. No filme, François enlouquece ao tentar alcançar um padrão que se pensava ideal, quando nem mesmo nos Estados Unidos existia tal tecnologia. Esta paranoia em ficar para trás é um trecho interessante do roteiro.

Lançado em preto e branco originalmente, a cópia restaurada lançada em DVD e Blu-ray é a colorizada, buscando a intenção original do cineasta, que chegou a filmar com duas câmeras – uma colorida, outra não. A filmagem em preto e branco era, na verdade, para segurança, caso o processo de revelação do filme em cores não funcionasse – o que realmente aconteceu. As cores desta versão são um tanto esmaecidas, mas não fazem grande diferença no resultado final. Até porque a graça está nas ações de Jacques Tati e seu elenco. É obviamente uma comédia bastante ingênua e a maioria das piadas não gera gargalhadas. Mas o sentimento de diversão permanece imutável, não importa o quanto de tempo tenha se passado.

As duas abas seguintes alteram o conteúdo abaixo.
avatar
é crítico de cinema, membro da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul. Jornalista, produz e apresenta o programa de cinema Moviola, transmitido pela Rádio Unisinos FM 103.3. É também editor do blog Paradoxo.
avatar

Últimos artigos deRodrigo de Oliveira (Ver Tudo)

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *