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Sinopse
Caminhos do Crime acompanha um ladrão enigmático que realiza assaltos de alto risco ao longo da rodovia 101. Ao planejar o golpe final de sua carreira, ele cruza o caminho de uma corretora de seguros desiludida, com quem é obrigado a colaborar, enquanto um detetive implacável se aproxima para desvendar o caso. Crime/Drama.
Crítica
O título brasileiro, absurdamente genérico, não faz jus ao filme escrito e dirigido por Bart Layton a partir do romance de Don Winslow (mesmo autor do livro que deu origem ao thriller Selvagens, 2012, de Oliver Stone). Batizado originalmente como Crime 101 – uma referência à rodovia de mesmo número que circunda Los Angeles – esse Caminhos do Crime é o tipo de longa que pode agradar diferentes espectadores, e por motivos distintos. Sim, há o enredo policial que deverá satisfazer aos mais imediatistas, mas há também um interessante estudo de personagens, abordagem essa que se confirma por meio de um roteiro engenhoso. Se por um lado esse não se esquiva dos mais frequentes clichês do gênero – concessão que por vezes mais incomoda do que agrega – também se mostra disposto a outros tipos de investigações, analisando origens, dispondo de interesses e mergulhando em motivações que, quando colocadas lado a lado, levam à conclusões inesperadas. Em um mundo que insiste em discursos entre o preto e o branco, eis uma história que atravessa as muitas camadas de cinza existentes entre um ponto e outro.

Poderia se dizer que Davis, vivido por Chris Hemsworth, é o protagonista de Caminhos do Crime. Mas essa seria apenas parte da informação. Pois sua presença é tão importante para o desenrolar dos acontecimentos quanto a de Lou, o policial interpretado por Mark Ruffalo, ou mesmo a de Sharon, a corretora de seguros presente em Halle Berry. Nenhum dos três é particularmente novo a este tipo de personagem. Hemsworth já viveu o bandido calado em títulos como Hacker (2015) ou Resgate (2020), assim como o homem da lei que Ruffalo reencarna é praticamente o mesmo que ele a mais de uma vez recorreu ao longo da saga Truque de Mestre. Berry, por sua vez, desde o Oscar conquistado por A Última Ceia (2001) tem se esforçado em compor mulheres determinadas e de força própria. Eis aqui mais um exemplo. O que os tornam diferentes dos tipos já vistos, no entanto, são toques de complexidade que cada um oferece a essas figuras. Davis não é apenas o cara que rouba joias. Lou está longe de ser um profissional exemplar. Sharon sabe do seu potencial, mas o mundo ao seu redor talvez lhe negue o mesmo reconhecimento.
Layton ganhou um Bafta por sua estreia como realizador com o documentário O Impostor (2012), e Caminhos do Crime é seu primeiro longa como realizador em oito anos, confirmando o quanto esse hiato parece ter lhe ensinado uma ou outra coisa sobre o jogo de Hollywood: fazer um agrado aos produtores e ao grande público comercial, ao mesmo tempo em que busca manter algum tipo de identidade autoral. Ainda que não tenha a maturidade de um Paul Thomas Anderson, se propõe a uma trama coral, por vezes curiosa, com diversos personagens que vão se cruzando a esmo, até que suas trajetórias entrem em conflito umas com as outras. Após uma série de golpes bem-sucedidos, Davis passa a entrar na mira de Lou, que finalmente ligou pistas aparentemente deixadas a esmo e agora vê estes roubos como obras de uma só pessoa. Ao mesmo tempo em que um novo trabalho o coloca no caminho de Sharon, ela também se vê em contato com o detetive. O que um roubou é segurado pela empresa dela, que entra no âmbito da investigação do oficial. São três pontas de uma única estrela. Que tanto poderá lhes apontar um destino a seguir, como cegá-los a ponto de deixá-los desorientados.
Impressiona também o elenco reunido por Layton. Os três nomes citados acima são apenas os de maior destaque, mas há outros que merecem ser observados com cuidado. Barry Keoghan volta ao tipo rebelde e imprevisível que tantas vezes viveu em sua filmografia, como o novato transgressor que se colocará como uma ameaça aos protagonistas. Também não chega a ser uma surpresa se deparar com Nick Nolte como um mafioso das antigas, Jennifer Jason Leigh como a esposa insatisfeita, Tate Donovan como o milionário mimado ou Corey Hawkins no papel do parceiro descrente das habilidades do colega. Mas estão todos tão bem ajustados a essas características, que o ruído de cada repetição logo desaparece frente a uma engrenagem que funciona tal qual fora previsto. A novidade, no entanto, é a introdução nesse universo da pessoa normal, no caso a jovem que ganha o rosto e corpo de Monica Barbaro. Depois de aparecer como a cantora Joan Baez em Um Completo Desconhecido (2024) – performance, aliás, que lhe valeu uma indicação ao Oscar – ela agora retorna às telas como a possibilidade de uma vida sem excessos, previsível e, por isso mesmo, atraente. O contraponto que oferece ao todo é a lembrança do que se está em risco.

Com tantas idas e vindas e elementos com as quais lidar, não surpreende Caminhos do Crime ultrapassar com folga as duas horas protocolares de duração às quais estes títulos geralmente se encaixam. Há subtramas que poderiam ser deixadas de lado (como o passado enquanto órfão de um deles) e explicações redundantes que oferecem contexto, mas nem sempre servirão como acréscimo ao conjunto (o imbróglio com os joalheiros imigrantes, as trapaças empresariais) mas com tanto a ser discutido – abandono, etarismo, misoginia, descontrole, violência – vinga ao final a satisfação proporcionada pela jornada percorrida, por vezes exaustiva, mas ainda assim, gratificante. A impressão de se estar diante de um episódio de abertura de uma nova série não desaparece por completo, mas com tanto a ser saudado, os inevitáveis tropeços percebidos aqui e ali se tornam menores frente a um acerto quase inesperado.
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Grade crítica
| Crítico | Nota |
|---|---|
| Robledo Milani | 7 |
| Francisco Carbone | 9 |
| Pedro Strazza | 6 |
| Lucas Salgado | 6 |
| Ticiano Osorio | 8 |
| MÉDIA | 7.2 |

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